Gentilmente convidado pela Disney para assistir ao documentário “Oasis: Don’t Look Back In Anger”, vi nessa oportunidade de juntar dois prazeres de minha vida: cinema e música. Para completar o combo perfeito, ainda poder acompanhar à sessão de uma de minhas bandas favoritas, que entre idas e vindas, continua arrebatando gerações desde os já longínquos anos 1990.
“Don’t Look Back In Anger”, que, em português literal, quer dizer “Não olhe para trás com raiva”, dá nome ao, talvez, segundo maior hit do Oasis, perdendo só, claro, para “Wonderwall”, que faz parte do segundo álbum de estúdio da banda “(What’s the Story) Morning Glory?”.
O título do documentário não foi escolhido por acaso. Afinal, a banda retomou em 2025 sua turnê mundial Oasis Live ’25 – inclusive com passagem pelo Brasil – sem olhar para trás depois de tantas brigas no passado entre as duas cabeças pensantes: Liam e Noel Gallagher. E é em cima dela que o filme se ancora e de quem vamos falar a partir de agora.
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Do subúrbio operário de Manchester ao topo do mundo
Para compreender o peso emocional que carrega o filme dirigido por Will Lovelace e Dylan Southern, é preciso olhar para a gênese do Oasis. Nascidos no seio da classe trabalhadora de Manchester, filhos de imigrantes irlandeses, Liam e Noel Gallagher trouxeram em suas composições uma mistura singular de melancolia e otimismo transformador. Em 1991, a banda surgia com a promessa de resgatar o espírito vivo do rock ‘n’ roll britânico.
O lançamento do álbum de estreia, Definitely Maybe (1994), tornou-se o disco de estreia vendido mais rapidamente na história do Reino Unido, catapultando os jovens mancunianos ao status de deuses do britpop. No ano seguinte, (What’s the Story) Morning Glory? (1995) consolidou hinos atemporais que uniram multidões em estádios como o lendário parque de Knebworth, onde reuniram 280 mil pessoas em duas noites históricas. Contudo, a mesma energia vulcânica e hedonista que alimentava suas canções transformou a dinâmica interna da banda em um campo de batalha.
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Décadas de caos, provocações e o rompimento em Paris
A relação turbulenta dos irmãos Gallagher sempre foi o motor e, simultaneamente, o veneno do Oasis. O histórico de hostilidades começou ainda na infância, quando Liam, aos 15 anos, urinou sobre o aparelho de som novo de Noel após uma noite de bebedeira. Conforme a fama crescia, as agressões verbais desdobraram-se em violência física.
Entre os episódios mais emblemáticos registrados na trajetória da banda, destacam-se:
O colapso no Whisky a Go Go (1994)
Durante a primeira turnê nos Estados Unidos, sob o efeito de substâncias consumidas por engano, Liam alterou as letras de Live Forever para debochar do irmão e arremessou um pandeiro contra a cabeça de Noel, fazendo com que o guitarrista abandonasse temporariamente o grupo.
Agressão com taco de críquete (1995)
Em meio às gravações em estúdio, uma discussão acalorada culminou em Noel atingindo Liam com um taco de críquete.
O deboche no MTV Acústivo (1996)
Liam alegou uma laringite para não cantar no especial acústico da MTV, mas passou a gravação no camarote bebendo uísque e vaiando as performances vocais de Noel.
A disputa familiar (2000)
Em uma noite de bebedeira na Europa, Liam questionou a paternidade da filha de Noel, Anaïs Gallagher, provocando uma briga corporal que resultou na saída temporária do guitarrista da turnê.
O fim no Rock en Seine (2009)
O estopim definitivo ocorreu nos bastidores do festival Rock en Seine, em Paris, quando Liam usou a guitarra favorita de Noel como um machado, destruindo o camarim. O show foi cancelado e Noel oficializou sua saída declarando que não poderia trabalhar com o irmão nem por mais um dia, definindo-o como “um homem com um garfo num mundo de sopa”.
Após o colapso, seguiram-se 15 anos de afastamento total e alfinetadas públicas, com Noel declarando que não perdoava ninguém e Liam criticando publicamente a ausência do irmão em eventos como o concerto beneficente One Love Manchester.

A visão do criador Steven Knight
A semente de Oasis: Don’t Look Back In Anger não brotou de um plano corporativo traduzido em mero caça-níqueis. A ideia surgiu a partir do absoluto espanto de Noel Gallagher diante da comoção global provocada pelo anúncio da turnê de reunião Oasis Live ’25, em agosto de 2024. Ao ver milhões de fãs de diferentes idades e continentes disputando ingressos, a produção percebeu que havia ali uma história humana profunda a ser contada.
O idealizador e roteirista do projeto foi Steven Knight, aclamado criador da série Peaky Blinders. Steven Knight já havia trabalhado anteriormente com Liam Gallagher em um videoclipe e no festival de Peaky Blinders. Quando foi convidado para capitanear o documentário, recebeu a garantia de que tanto Liam quanto Noel queriam que ele assumisse o conceito da obra.
Para a direção, foram convocados Will Lovelace e Dylan Southern, cineastas experientes em registros musicais marcantes como Shut Up and Play the Hits (sobre o LCD Soundsystem) e No Distance Left to Run (sobre a reunião do Blur). O objetivo estabelecido por Steven Knight e pela produtora Magna Studios em associação com a Sony Music Vision e a Disney foi claro: registrar não apenas dois astros do rock no palco, mas examinar o impacto cultural do perdão e da comunidade em um mundo fragmentado.
Câmeras escondidas, ausência de melodrama e a primeira entrevista conjunta em 20 anos
A realização técnica e logística de Oasis: Don’t Look Back In Anger envolveu escolhas de produção minuciosas e bastidores reveladores:
Câmeras ocultas nos ensaios
Durante seis semanas de ensaios no primeiro semestre de 2025, os diretores optaram por instalar câmeras fixas e escondidas entre os amplificadores e equipamentos, garantindo que nenhum membro da equipe de filmagem ficasse visível para os músicos. A intenção era permitir que o reencontro acontecesse de forma natural e sem interferências externas.
O primeiro reencontro sem “Dawson’s Creek”
Diferente do que parte do público imaginava, o primeiro dia de ensaio não teve abraços efusivos ou conversas terapêuticas sobre as mágoas do passado. Como resumiu o diretor Dylan Southern: “São os Gallaghers, não é Dawson’s Creek”. Liam Gallagher entrou na sala de ensaios com Noel, Paul “Bonehead” Arthurs, Gem Archer, Andy Bell e Joey Waronker, largou a mochila e disse apenas: “Certo, vamos lá?”, iniciando o repertório sem cerimônias. Ao fim da execução estendida de Champagne Supernova, Liam simplesmente pegou suas coisas e saiu enquanto os colegas ainda tocavam o acorde final.
A quebra do jejum nas entrevistas
O filme conquista um marco histórico ao registrar a primeira entrevista conjunta de Liam e Noel Gallagher sentados lado a lado em mais de duas décadas. Os diretores revelaram que os depoimentos foram colhidos primeiro individualmente e, conforme a confiança era estabelecida ao longo dos 41 shows da turnê mundial, os irmãos aceitaram sentar-se juntos diante das câmeras, demonstrando um entrosamento bem-humorado e espontâneo.
Esmero técnico
O documentário conta com a direção de fotografia de Haris Zambarloukos (Belfast) e Lol Crawley (The Brutalist), além da mixagem de som assinada pelos vencedores do Oscar Tarn Willers e James Mather (The Zone of Interest e Top Gun: Maverick), garantindo que a potência sonora das apresentações no formato IMAX transmita o peso de se estar no meio de um estádio lotado.

Crítica do documentário Oasis: Don’t Look Back In Anger
O Rock como experiência de encontro e cura coletiva
Como obra cinematográfica, Oasis: Don’t Look Back In Anger recusa a armadilha do sensacionalismo voyeurístico. Em vez de reabrir feridas antigas ou tentar descobrir meticulosamente quem pediu desculpas a quem, a narrativa foca no impacto transformador que as canções da banda exerceram sobre o público ao longo dos 15 anos de hiato.
O filme intercala cenas de shows eletrizantes da Oasis Live ’25 — gravadas em locais como Cardiff, Manchester, Buenos Aires, Nova York, Tóquio e no Estádio do Morumbis, em São Paulo — com depoimentos profundamente humanos de torcedores e admiradores pelo mundo:
- A história de uma jovem fã brasileira que superou a depressão através da música do grupo e batizou seu cachorro de estimação com o apelido do guitarrista Bonehead.
- Duas mergulhadoras sul-coreanas de águas profundas (haenyeo) que cantam a faixa Acquiesce como força de automotivação no cotidiano.
- Uma sobrevivente do atentado terrorista de 2017 na Manchester Arena que encontrou consolo espiritual nos versos de Don’t Look Back In Anger.
- A comoção do grupo durante a passagem da turnê pelo Brasil, marcada pela triste notícia do falecimento de Gary “Mani” Mounfield, icônico baixista do Stone Roses e amigo íntimo dos irmãos, homenageado com a execução emocionante de Live Forever nos palcos paulistas.
A câmera dos cineastas capta a plateia não como mera espectadora, mas como protagonista de uma liturgia profana. O tom do longa aproxima a experiência dos shows a uma grande partida de futebol onde todos torcem pelo mesmo time. Noel Gallagher, antes conhecido pelo cinismo e pela arrogância, aparece visivelmente vulnerável e emocionado ao testemunhar famílias inteiras e jovens que sequer haviam nascido nos anos 1990 cantando cada palavra a plenos pulmões.
A reconciliação dos irmãos Gallagher: uma transformação fraterna
A pacificação entre Liam e Noel revela-se o pilar sentimental do documentário. O ponto de virada na relação começou a se desenhar em julho de 2024, quando Noel, em entrevista ao jornalista John Robb, elogiou publicamente a voz de Liam, admitindo que quando ele próprio cantava uma música ela soava bem, mas quando Liam a cantava, soava extraordinária.
Durante o ano de 2025, os laços familiares se reconstruíram longe dos holofotes:
- No Domingo de Páscoa de 2025, Noel e seus filhos Donovan e Sonny visitaram Liam, marcando o primeiro encontro do vocalista com seus sobrinhos mais jovens.
- Ao longo da turnê, os filhos de Liam (Gene e Lennon) e de Noel (Anaïs e Donovan) tornaram-se melhores amigos, unindo a nova geração da família.
- Em depoimento gravado para o filme, Liam Gallagher sintetiza o sentimento de alívio: “Tudo foi perdoado sem que uma palavra fosse dita”.
- Noel confessou em entrevista à rádio Talksport ter ficado profundamente tocado durante os primeiros shows da turnê e admitiu: “Eu tinha esquecido o quanto ele é engraçado”, revelando que hoje os dois trocam vídeos e mensagens diariamente no WhatsApp como bons amigos.
O que significa o final do documentário Oasis: Don’t Look Back In Anger?
O clímax de Oasis: Don’t Look Back In Anger sintetiza a mensagem central do projeto: o perdão não significa apagar o passado, mas sim libertar o futuro.
No desfecho do filme, somos conduzidos aos momentos finais dos shows da turnê Oasis Live ’25. Após a execução apoteótica de Champagne Supernova e Rock ‘n’ Roll Star, Liam Gallagher caminha em direção a Noel, segura a mão do irmão e ergue seus braços juntos em direção ao estádio lotado. O gesto, registrado sob aplausos e lágrimas do público, funciona como o selo definitivo de que as armas foram finalmente silenciadas.
O documentário encerra com trechos da entrevista conjunta no estúdio, na qual Liam e Noel refletem sobre sua trajetória com maturidade e bom humor. A cena contrasta a imagem de dois jovens rebeldes que quase destruíram a si mesmos nos anos 1990 com a de dois homens maduros que redescobriram o valor da fraternidade e da própria obra.
A força simbólica desse desfecho ficou registrada também na pré-estreia mundial do filme no 83º Festival Internacional de Cinema de Veneza, em 5 de setembro de 2026. Ao final da exibição no Palazzo del Cinema, Liam e Noel Gallagher foram ovacionados de pé por oito minutos consecutivos. Quando Liam cochichou no ouvido do irmão perguntando se já podiam ir embora, Steven Knight convenceu os dois a permanecerem no palco, absorvendo o carinho do público.
Oasis: Don’t Look Back In Anger demonstra que a música criada por dois irmãos operários de Manchester deixou de pertencer aos seus egos para se tornar um patrimônio coletivo de esperança, comunidade e reconciliação.
Quando o documentário Oasis: Don’t Look Back In Anger estreia no Disney+?
A Disney já confirmou que o documentário “Oasis: Don’t Look Back In Anger” será disponibilizado no catálogo do Disney+ ainda em 2026, após a janela de exibição exclusiva nos cinemas e em salas IMAX.
No entanto, até o momento, a plataforma ainda não anunciou uma data exata de lançamento para o streaming.















