É quase impossível negar que filmes de boxe e histórias de superação esportiva formam um gênero próprio e bem consolidado no cinema. Mas quando vemos alguém como Sydney Sweeney — atriz que a maioria de nós se acostumou a ver em papéis glamourosos e contemporâneos em séries como Euphoria e The White Lotus — assumindo as luvas, a curiosidade bate na hora.
Dirigido por David Michôd, o filme Christy chega com a dura missão de nos contar a história de Christy Martin, a pioneira que quebrou barreiras e colocou o boxe feminino no mapa mundial nas décadas passadas. Apesar de estar sofrendo um forte revés nas bilheterias mundiais e ter estreado com mornos 66% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes, o longa desponta, no mínimo, como um veículo de peso para comprovar a versatilidade de sua protagonista.
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Sinopse
A trama nos transporta de volta para 1989, na pequena cidade de Mullens, Virgínia Ocidental, e acompanha os primeiros passos de Christy Salters. Dona de um talento bruto que a faz lutar “como se tivesse demônios por dentro”, ela rapidamente atrai a atenção do veterano (e bem mais velho) treinador James Martin (Jim Martin). Enquanto sua ascensão nos ringues é meteórica — rendendo contratos com o carismático promotor Don King e uma capa histórica na Sports Illustrated —, a sua vida pessoal entra em colapso.
Para sobreviver num ambiente extremamente conservador, Christy esconde sua homossexualidade e a ex-namorada Rosie, sofrendo enorme pressão de sua mãe, Joyce. Ela acaba cedendo e se casando com Jim, mergulhando numa espiral tóxica de abusos físicos, psicológicos, roubo financeiro e uso de cocaína. O casamento macabro atinge seu ponto crítico na violenta e real tentativa de assassinato que Christy sobreviveu em 2010.
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Crítica do filme Christy (2025)
A transformação visceral de Sydney Sweeney
O coração pulsante de Christy é, sem sombra de dúvidas, a dedicação brutal de Sydney Sweeney. A atriz simplesmente desaparece sob o papel, deixando de lado sua habitual imagem “loira de olhos azuis” ao adotar lentes castanhas e um corte de cabelo estilo mullet da época.
Foram três meses de treinamento insano, já que a atriz fez questão de gravar as lutas reproduzindo golpes e combinações exatas dos combates reais, sofrendo até uma concussão no set devido ao “contato total”. Ela carrega os exaustivos 135 minutos do filme nas costas, provando com sangue e suor que Hollywood já passou da hora de levá-la a sério em dramas densos.

O monstro frágil e assustador de Jim Martin
Do outro lado do ringue familiar, temos um excelente Ben Foster. Quase irreconhecível com uma postura curvada, barriguinha e um penteado ralo, o ator entrega uma performance pegajosa e perturbadora.
Ao invés de cair na cilada de fazer apenas um vilão caricato, Foster cria Jim Martin como um homem inseguro e patético, que estabelece uma relação de perigosa codependência com a esposa. O terceiro ato do filme, que retrata a fatídica agressão, é dirigido com um tom de suspense e terror lancinante, entregando disparado os melhores e mais impactantes momentos da direção de Michôd.
Uma narrativa inconstante e clichês do gênero
Nem tudo são flores, no entanto. O roteiro assinado por Michôd e Mirrah Foulkes sofre com sérios problemas de ritmo. O filme tenta abraçar décadas de história — abordando desde o ambiente caipira e conservador até a hipermasculinidade do boxe e a sexualidade reprimida de Christy —, mas acaba visitando todos esses temas de forma muito superficial.
Há problemas estruturais nítidos: falta envelhecimento visual e físico em Sweeney com o passar das décadas (exceto pelos cabelos), e personagens vitais, como a mãe castradora Joyce (Merritt Wever), são reduzidos a caricaturas unidimensionais. As montagens de treinamento e lutas também caem no clichê seguro do “videoclipe esportivo”, se esquivando até mesmo de mostrar com dignidade as derrotas essenciais da atleta, como o embate contra Laila Ali.
Trilha sonora confusa e brilhos pontuais
O design de produção e o figurino merecem elogios por recriarem o clima desbotado e opressor dos anos 80 e 90, mas as escolhas musicais nos deixam divididos. Se os clássicos como Stevie Nicks, Heart e Joan Jett casam bem com a vibe de emancipação da protagonista, a inserção repentina de nomes modernos como Justin Bieber, Taylor Swift e Lana Del Rey em cenas-chave quebra completamente a imersão temporal e soa no mínimo bizarra.
O que une as pontas e salva a audição é a trilha instrumental original composta por Antony Partos, que mantém o peso emocional necessário. Ainda assim, vale destacar rápidas aparições no elenco que oxigenam o filme, como o trabalho carismático de Chad Coleman no papel de Don King e os breves, mas magnéticos, momentos de Katy O’Brian como a ex-rival e futura esposa Lisa Holewyne.
Christy é um bom filme?
No fim das contas, Christy é uma daquelas produções que tem ambições muito maiores do que o seu próprio fôlego consegue sustentar. Trata-se de uma cinebiografia genérica em sua estrutura que se recusa a entrar em compromissos mais complexos com a vida de sua fascinante protagonista. Porém, o que falta de criatividade narrativa, sobra na coragem da dupla principal.
O filme não romantiza os duros traumas do abuso doméstico e serve como um holofote de destaque definitivo para o talento arrebatador de Sydney Sweeney e a monstruosidade calculada de Ben Foster. A verdadeira Christy Martin merecia, quem sabe, um roteiro menos telegráfico e mais profundo, mas o legado de resiliência e a força bruta dessa mulher permanecem na tela, prontos para inspirar quem lhe der uma chance.
Onde assistir ao filme Christy?
- HBO Max
Trailer de Christy (2025)
Elenco do filme Christy
- Sydney Sweeney
- Ben Foster
- Merritt Wever
- Katy O’Brian
- Chad Coleman
Ficha técnica
- Título: Christy
- Ano de Lançamento: 2025
- Direção: David Michôd
- Roteiro: David Michôd e Mirrah Foulkes
- Elenco Principal:
- Duração: 135 minutos
- Gênero: Drama Biográfico / Esportes

















