Sabe aquele tipo de filme que parece um abraço quente e confortável em um dia chuvoso? É exatamente essa a sensação que Criaturas Extraordinariamente Brilhantes, nova aposta da Netflix, tenta passar. Dirigido por Olivia Newman e baseado no romance best-seller de Shelby Van Pelt, o longa mistura o luto, a solidão da terceira idade e, por incrível que pareça, as observações sarcásticas de um polvo gigante do Pacífico.
Embora a premissa de “uma idosa que fica amiga de um cefalópode” possa soar um tanto boba ou lembrar o documentário Professor Polvo, o filme consegue entregar um drama familiar envolvente e genuíno, mesmo que tropece em algumas armadilhas do próprio roteiro.
Sinopse
A história acompanha Tova Sullivan (Sally Field), uma viúva na casa dos setenta anos que trabalha no turno da noite como faxineira no pequeno Aquário de Sowell Bay. Limpar vidros e recolher lixo no silêncio da noite é a forma que Tova encontrou para lidar com a dor de ter perdido o marido e, principalmente, com o desaparecimento misterioso de seu filho, ocorrido há trinta anos.
No aquário, o único que realmente presta atenção nela é Marcellus, um polvo gigante absurdamente inteligente (dublado no original por Alfred Molina), que vive escapando de seu tanque e está na reta final de sua vida. A rotina metódica de Tova vira de cabeça para baixo quando ela se machuca e precisa ser substituída temporariamente por Cameron (Lewis Pullman), um rapaz de 30 anos meio perdido na vida, que chegou à cidadezinha costeira em busca de um pai que nunca conheceu. Entre faxinas malfeitas e conselhos inusitados do polvo, os caminhos desses três seres solitários se cruzam de forma transformadora.
Crítica do filme Criaturas Extraordinariamente Brilhantes
Atuações que carregam o filme nas costas
O grande coração do filme não está nos tentáculos em computação gráfica, mas nas interações humanas. Sally Field entrega uma atuação fantástica, mostrando o luto não como um colapso dramático, mas como uma competência. Ela não passa o filme chorando; ela limpa, organiza, foge da dor com pequenas tarefas e esconde sua fragilidade por trás de uma postura rabugenta, porém profundamente humana.
Do outro lado, Lewis Pullman faz o contraponto perfeito. Seu Cameron é o clássico “jovem adulto em desenvolvimento atrasado”, meio preguiçoso e impulsivo, mas o ator consegue injetar uma doçura e um magnetismo no personagem que torna impossível não torcer por ele. A dinâmica de “mãe e filho substitutos” que nasce aos trancos e barrancos entre os dois, cheia de atritos e cobranças, é o que realmente sustenta a obra.

Marcellus: o terapeuta de oito tentáculos
O polvo Marcellus funciona como o narrador onisciente da história e, felizmente, a direção evitou deixá-lo caricato. Muito disso se deve ao trabalho de voz de Alfred Molina, que dá ao animal um tom seco, observador, levemente superior e sem sentimentalismos. Ele observa a solidão dos humanos como se fôssemos uma espécie inferior e complicada.
No entanto, o uso do polvo, em alguns momentos, parece vital para a trama, agindo como a ponte que une Tova e Cameron. Em outros, o roteiro quase esquece que ele existe, deixando a sensação de que a história funcionaria muito bem apenas focada nos dramas humanos, sem precisar de um “Deus ex machina” molusco para resolver os mistérios finais.
Adaptação esperta, mas refém das coincidências
Para quem leu o livro de Shelby Van Pelt, o filme traz mudanças muito bem-vindas que aprofundaram os personagens. A van velha em que Cameron mora, por exemplo, não é apenas um acaso como no livro, mas sim uma herança trágica de sua mãe, o que dá um peso emocional gigantesco ao personagem. Além disso, o filme permite que o polvo crie um laço não apenas com Tova, mas também com Cameron, equilibrando melhor a presença do animal.
O problema é que o roteiro pesa a mão no melodrama e nas coincidências. Em uma cidade onde “todo mundo conhece todo mundo”, o filme demora quase duas horas escondendo segredos óbvios dos personagens apenas para manter o mistério, o que pode cansar quem prefere narrativas mais orgânicas. As revelações no terceiro ato parecem convenientes demais.
O visual perfeito para a melancolia
A ambientação merece um destaque especial. A fotografia trata o aquário quase como um lugar sagrado, usando a luz da água para criar um clima de introspecção. E embora a história se passe em Washington, a magia aconteceu no Canadá.
As gravações na região de Vancouver e Deep Cove trouxeram uma estética litorânea fria, chuvosa e nublada que reflete exatamente o estado de espírito dos personagens. É um cenário tão bonito e acolhedor que dá vontade de largar tudo e ir morar numa cidadezinha costeira (mesmo que seus problemas continuem indo na mala).
Conclusão: Criaturas Extraordinariamente Brilhantes é bom?
Criaturas Extraordinariamente Brilhantes não é um filme perfeito. Ele é previsível, recheado de conveniências de roteiro e flerta perigosamente com o clichê das histórias de superação. Mas, sabe de uma coisa? Isso não importa tanto no final das contas.
Com um elenco afiadíssimo — liderado por uma Sally Field esplêndida —, uma atmosfera reconfortante e uma mensagem sincera de que nunca é tarde para encontrar um novo propósito (mesmo após a pior das perdas), o filme ganha o espectador pelo carisma.
É um drama sensível, modesto e altamente recomendável para quem procura uma história bonita sobre a importância de ter alguém que apenas pare para nos escutar. Mesmo que esse alguém viva dentro de um tanque de água.
Onde assistir ao filme Criaturas Extraordinariamente Brilhantes?
Trailer de Criaturas Extraordinariamente Brilhantes (2026)
Elenco de Criaturas Extraordinariamente Brilhantes, da Netflix
- Sally Field
- Lewis Pullman
- Alfred Molina
- Colm Meaney
- Joan Chen
- Kathy Baker
- Beth Grant
- Sofia Black-D’Elia
- Brandon McEwan
- Donald Sales














