A infância, esse território mágico para onde vamos sempre que queremos consolo frente à dureza do existir, nunca suscita memórias de como a vida fora em verdade. Escolhemos as lembranças que devem ficar, varremos as passagens menos felizes para debaixo do tapete e decidimos que circunstâncias merecem ocupar espaço em nós. Mas quando pensamos que a realidade começa a aconchegar-se na doce monotonia de que nos julgamos dignos, ela trata de engendrar surpresas que nos tiram o chão.
É nesse exato limiar de fragilidade e repressão que se constrói a espinha dorsal de Foge, Coelho (Run Rabbit Run), o thriller psicológico australiano dirigido por Daina Reid e escrito pela romancista Hannah Kent, que recentemente chegou ao catálogo brasileiro da Netflix após sua badalada estreia no Festival de Sundance.
Estrelado por Sarah Snook — consagrada mundialmente por seu papel como a calculista Shiv Roy na premiada série Succession, da HBO —, o longa nos joga em uma espiral angustiante sobre os segredos que escondemos de nós mesmos e a impossibilidade de fugir do próprio passado.
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Uma criança, um coelho e o retorno do recalcado
A trama acompanha Sarah (interpretada por Sarah Snook), uma médica especialista em fertilidade que acredita piamente na ciência, na vida e na morte como processos puramente biológicos e racionais. Recentemente divorciada e lidando com o luto pela perda recente de seu pai, ela tenta equilibrar a rotina profissional com os cuidados de sua filha de sete anos, Mia (vivida pela impressionante estreante Lily LaTorre).
A estabilidade doméstica começa a desmoronar precisamente no aniversário de sete anos de Mia — a mesma idade em que a irmã de Sarah, Alice, desapareceu misteriosamente na infância. Naquela mesma noite, um misterioso coelho branco aparece no quintal. O animal, que encanta a menina, desperta um desconforto imediato em Sarah. A partir daí, o comportamento de Mia sofre uma mutação perturbadora: ela exige conhecer a avó materna, Joan (Greta Scacchi), com quem Sarah não fala há anos; passa a ter sangramentos inexplicáveis pelo nariz; e, por fim, rejeita sua própria identidade, alegando ser a reencarnação ou a própria Alice.
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Foge, Coelho é baseado em uma história real?
Embora Foge, Coelho seja uma obra de ficção original baseada em um roteiro de Hannah Kent, sua premissa assustadora bebe diretamente de fenômenos e discussões reais sobre reencarnação e memórias de vidas passadas.
A roteirista revelou que a fagulha inicial para a história surgiu após ela assistir a um documentário de TV sobre um menino escocês que, ainda muito pequeno, conseguia descrever detalhadamente uma vida anterior. Ele falava com precisão milimétrica sobre a casa onde morara e a família que havia deixado para trás, demonstrando uma profunda “saudade de casa” (homesickness) que alienava e assustava sua mãe biológica. Intrigada com o impacto psicológico dessa rejeição — a dor de uma mãe que se vê preterida por um passado invisível —, Hannah Kent começou a pesquisar o tema para o que seria originalmente um livro, antes de adaptá-lo para o cinema.
Casos como esse têm ecos documentados no mundo real, sendo o mais famoso deles o de James Leininger. Aos dois anos de idade, o menino norte-americano começou a sofrer pesadelos vívidos com aviões em chamas. Com o tempo, o garoto passou a dar detalhes técnicos assustadores, mencionando o avião de combate Corsair e o porta-aviões USS Natoma Bay, ambos utilizados na Segunda Guerra Mundial. Pesquisas posteriores dos pais revelaram que as memórias batiam perfeitamente com a morte do piloto James M. Huston Jr., abatido em Iwo Jima 50 anos antes do nascimento do menino.
Em Foge, Coelho, essa mesma angústia sobrenatural é utilizada para desmantelar a casca científica de Sarah e forçá-la a confrontar o indizível.

Mudança de elenco e a opressão do outback
A produção do longa carrega curiosidades fascinantes em seus bastidores. Originalmente, o papel principal de Sarah seria interpretado pela consagrada atriz Elisabeth Moss (estrela de The Handmaid’s Tale). Moss já havia trabalhado com a diretora Daina Reid na aclamada série distópica e estava confirmada no projeto até que conflitos de agenda e a saída da distribuidora STXfilms do financiamento a obrigaram a se retirar em dezembro de 2021. Foi nesse momento que Sarah Snook assumiu o protagonismo, marcando seu grande retorno às produções de sua terra natal, a Austrália, após o fim das gravações de Succession.
Outro ponto alto de Foge, Coelho é a sua geografia, que atua quase como uma personagem viva. O filme divide-se entre as locações urbanas e litorâneas de Melbourne, no estado de Victoria — onde as cenas cotidianas de escola e trabalho foram rodadas —, e a aridez isolada da região de Riverland, na Austrália Meridional. O vilarejo rural de Waikerie serviu de cenário para a antiga casa de infância de Sarah. O supervisor de locação, John Greene, explicou que a escolha de Waikerie deveu-se à necessidade de penhascos imponentes sobre o Rio Murray, que se tornam cruciais para a metáfora visual do filme e para os momentos mais terríveis da narrativa. Outras tomadas às margens do rio foram feitas na pequena localidade de Walker Flat.
Além disso, a produção demonstrou um profundo respeito pela ancestralidade local: os créditos finais do filme fazem questão de agradecer formalmente aos povos Wadawurrung, Ngarrindjeri, Woiworung e Boonwurrung da nação Kulin, reconhecendo-os como os legítimos e tradicionais donos das terras onde as filmagens ocorreram.
Nos bastidores, o projeto também se destacou pela forte representatividade feminina. Sob a liderança da diretora Daina Reid, da roteirista Hannah Kent e das produtoras Anna McLeish e Sarah Shaw, a equipe técnica foi composta majoritariamente por mulheres, muitas das quais eram mães que trabalhavam. Essa vivência pessoal permitiu que o filme abordasse o conceito da culpa materna de forma visceral e sem floreios. “Sarah é uma mãe que trabalha, e esse é o marco zero da culpa para muitas de nós”, declarou a diretora Daina Reid.
O que esperar de Foge, Coelho? O filme é realmente assustador?
Se você está em busca de um festival de jump scares (sustos fáceis e repentinos) ou de monstros físicos que saltam do armário, Foge, Coelho pode frustrar suas expectativas. O filme se filia à vertente do terror atmosférico e de “combustão lenta” (slow-burn), apoiando-se no silêncio, no isolamento geográfico e em uma paleta de cores desbotada de cinzas e amarelos opacos para construir uma sensação de ameaça constante.
Em vez de sustos rápidos, o longa foca na desintegração mental de sua protagonista. O horror aqui é gerado por pequenos detalhes perturbadores: desenhos sinistros rabiscados nos versos de trabalhos escolares, sussurros que parecem vir de dentro das paredes e o desconforto palpável de ver uma mãe perdendo o controle emocional diante de sua filha. É um suspense psicológico contido, mas profundamente incômodo, que exige paciência do espectador para que a tensão faça efeito.
Crítica: por que Foge, Coelho o filme dividiu tanto opiniões?
Apesar do enorme sucesso de audiência — alcançando o topo da lista de filmes mais assistidos da Netflix em sua semana de estreia global —, Foge, Coelho recebeu uma acolhida bastante dividida de críticos e público. No agregador Rotten Tomatoes, o longa amargou apenas 38% de aprovação crítica e 26% de aprovação do público.
Essa rejeição deveu-se, em grande parte, a dois fatores: um marketing enganoso e o desgaste de certos clichês. O trailer oficial vendeu a produção como um terror sobrenatural tradicional e dinâmico, atraindo um público que não estava preparado para um drama familiar arrastado e focado na psique humana. Além disso, muitos críticos apontaram que o roteiro pega emprestado elementos demais de obras superiores recentes sobre trauma geracional e maternidade, como O Babadook, Hereditário e Relíquia Macabra.
Onde o filme verdadeiramente triunfa é na atuação magistral de Sarah Snook. Longe do verniz frio de sua personagem em Succession, ela entrega uma Sarah física, exausta e aterrorizada. Ao lado da pequena Lily LaTorre, cujo olhar transita com maestria entre a doçura infantil e a frieza ameaçadora, as duas seguram o espectador pelo pescoço, mesmo quando a narrativa parece andar em círculos.
O próprio coelho branco é uma metáfora poderosa. Enquanto na literatura universal remete à descida pelo buraco do inconsciente de Alice no País das Maravilhas, no contexto australiano o animal carrega uma ambiguidade poética: ao mesmo tempo em que é uma presa indefesa (símbolo de vitimização), o coelho é considerado uma praga assoladora e destrutiva para a fauna e flora do país. Uma representação perfeita da própria culpa de Sarah, que começou como uma ferida oculta e acabou por devastar toda a sua realidade.
Final chocante explicado: Alice é real ou tudo está na mente de Sarah?
O grande mistério do filme se resolve perto do fim, quando visitam a antiga fazenda da família. Descobrimos que Alice não fugiu de casa na infância, como Sarah fizera seus pais acreditarem por décadas. Durante uma discussão acalorada após uma brincadeira de esconde-esconde, Sarah trancou Alice em um armário de ferramentas. Quando a libertou, as duas se agrediram fisicamente e Sarah atingiu a cabeça da irmã com uma armadilha de metal para coelhos. Ferida e assustada, Alice correu em direção aos penhascos de Waikerie, onde Sarah a empurrou para a morte.
A revelação joga uma nova luz sobre o perturbador desfecho do filme. Na cena final, Sarah acorda no meio da noite e vê pela janela sua filha Mia caminhando de mãos dadas com o fantasma de Alice em direção ao despenhadeiro. Sarah grita e bate desesperadamente no vidro, mas as duas meninas continuam a marchar rumo ao abismo.
A diretora Daina Reid optou por deixar o final aberto a interpretações. Existem duas leituras principais para essa sequência:
1. A leitura sobrenatural (a vingança do espírito)
Sob esta ótica, o fantasma de Alice é uma entidade sobrenatural real que esperou até que Mia completasse sete anos — a mesma idade com que ela morreu — para possuí-la ou influenciá-la. A aparição do coelho e o comportamento errático da menina seriam o prenúncio da possessão. A irmã morta retorna do túmulo para punir Sarah por seu crime de infância ou para salvar a sobrinha das garras de uma mãe instável e potencialmente abusiva.
2. A leitura psicológica (o colapso da culpa)
Esta é a teoria mais robusta e sustentada pelo próprio desenvolvimento visual do filme. Sarah é uma narradora extremamente não confiável. Ao longo da história, ela sofre alucinações nítidas geradas pela culpa reprimida que finalmente rompeu a barreira do seu subconsciente.
Vários indícios sustentam a alucinação:
- Os ferimentos voláteis: Sarah vê Mia sangrar pelo nariz ou pela cabeça, mas o sangue e os machucados desaparecem logo em seguida sem deixar vestígios na realidade.
- Os desenhos misteriosos: Quando Mia é vista rabiscando furiosamente o chão de madeira, o estilo de traço repete-se em momentos em que apenas Sarah está no cômodo, indicando que a própria mãe fez os desenhos macabros em um estado de dissociação.
- O destino de Peter: Em uma das cenas finais na velha casa, vemos de relance o ex-marido de Sarah, Peter (Damon Herriman), deitado de bruços na cama com um travesseiro sufocando seu rosto, em uma rigidez que sugere que ela pode tê-lo assassinado em meio ao seu surto psicótico.
Nesse cenário de colapso mental, a visão de Mia caminhando com Alice em direção ao penhasco é o ápice do delírio punitivo de Sarah: sua mente projeta a perda definitiva de sua filha como o castigo final pela morte de sua irmã.
Por que Foge, Coelho merece ser assistido?
Apesar das críticas sobre sua lentidão, Foge, Coelho é uma obra que ganha força no pós-sessão, provocando debates e reflexões que sobrevivem ao término dos créditos. O filme merece sua atenção pela coragem de não entregar respostas fáceis e mastigadas, confiando na inteligência de quem assiste para montar o quebra-cabeça de uma mente fraturada.
Ancorado por uma direção de arte impecável, um visual atmosférico que capta o vazio sufocante do outback australiano e duas das melhores atuações de suspense do ano, o título é um prato cheio para os amantes do terror psicológico mais refinado. Prepare-se para descer pela toca do coelho e descobrir que os monstros mais assustadores muitas vezes não vestem máscaras — eles se escondem nas lembranças que tentamos apagar.
| Atributo | Detalhes do Filme |
|---|---|
| Título no Brasil | Foge, Coelho |
| Título Original | Run Rabbit Run |
| Direção | Daina Reid |
| Roteiro | Hannah Kent |
| Elenco Principal | Sarah Snook (Sarah), Lily LaTorre (Mia), Damon Herriman (Peter) e Greta Scacchi (Joan) |
| Produção | Anna McLeish e Sarah Shaw (pela Carver Films) |
| Gênero | Terror psicológico, drama e suspense |
| Ano de Lançamento | 2023 |
| País de Origem | Austrália |
| Idioma Original | Inglês |
| Duração | 100 minutos |
| Distribuição | Netflix |
| Estreia Oficial | Festival de Cinema de Sundance (19 de janeiro de 2023) |
| Direção de Fotografia | Bonnie Elliott |
| Trilha Sonora | Mark Bradshaw e Marcus Whale |
| Montagem / Edição | Nick Meyers |
| Locações de Filmagens | Melbourne (Victoria) e região de Riverland / Waikerie (Austrália Meridional) |













