Se você achava que a maior ameaça de 1987 eram as ogivas nucleares soviéticas, a comédia de ação Mayday traz uma verdade ainda mais assustadora para a tela do Apple TV: o humor incansável e repetitivo de Ryan Reynolds.
Dirigido e roteirizado pela competente dupla Jonathan Goldstein e John Francis Daley (responsáveis pelo excelente Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes e pelo texto de Homem-Aranha: De Volta para Casa), o filme é uma divertida viagem no tempo que tenta emular os clássicos de ação dos anos 80, mas acaba entregando um paradoxo engraçado. É o melhor filme de Ryan Reynolds desde Deadpool 2 (2018), mas ele é, sem dúvidas, a pior coisa de toda a projeção.
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Uma premissa improvável: “Opa, os soviéticos também têm sentimentos?”
A trama de Mayday se inicia no auge da Guerra Fria de 1987. O tenente e piloto arrogante da Marinha dos EUA, Troy Kelly (ou Troy “Assassin” Kelly, interpretado por Ryan Reynolds), é abatido e forçado a se ejetar no meio do inóspito inverno soviético durante uma missão secreta de reconhecimento para fotografar instalações nucleares.
Perdido na neve, ele dá a imensa sorte de ser resgatado por Nikolai Ustinov (vivido pelo espetacular Kenneth Branagh), um ex-agente da KGB que vive isolado em uma cabana. Para a surpresa do desconfiado piloto americano, Nikolai não quer arrancar seus olhos; ele é, na verdade, um fã fervoroso do estilo de vida norte-americano, cuja obsessão nasceu após contrabandear e assistir dezenas de vezes a uma fita de Top Gun – Ases Indomáveis.
Nikolai aceita ajudar o piloto a escapar sob uma condição: ele quer asilo político para fugir do regime soviético e finalmente descobrir qual é o gosto de um Big Mac. Assim, nasce uma inusitada e movimentada road trip pela Sibéria de dois “inimigos” que precisam se tolerar para sobreviver.
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O brilho de Kenneth Branagh contra as caretas cansativas de Ryan Reynolds
O grande trunfo de Mayday reside no absoluto controle de cena de Kenneth Branagh. Esqueça os papéis shakespearianos tradicionais: aqui, o ator entrega um trabalho brilhante, injetando carisma e uma ironia deliciosa a um russo que odeia o próprio sistema. O nível de comprometimento de Branagh é tão invejável que ele inclusive dispensou dublês para filmar as sequências físicas de luta. Quando a câmera pirueta de forma fluida ao seu redor enquanto ele esmaga garrafas de vodca na cara dos inimigos, o filme se torna pura arte de ação.
Enquanto isso, do outro lado do ringue de atuação, temos o “efeito Deadpool”. Ryan Reynolds parece ter esquecido que o filme se passa em 1987 e que seu personagem se chama Troy Kelly, insistindo em despejar o mesmo humor cínico, rápido, cheio de metalinguagem e caretas que o consagraram na Marvel.
Muitas de suas piadas foram improvisadas pelo próprio ator e mantidas no corte final, mas o resultado é que elas quebram a tensão dramática nos piores momentos possíveis, como se ele estivesse subestimando a inteligência do espectador. É o clássico carisma cansativo de Reynolds que simplesmente não consegue acompanhar o foguete de atuação de Branagh.

Direção inspirada que dribla a falta de verba (e de física)
Os diretores Jonathan Goldstein e John Francis Daley são visivelmente apaixonados pela estética oitocentista, o que fica claro na maravilhosa trilha sonora embalada por Bruce Springsteen e na fotografia de movimentos fluidos. Embora a produção tenha sofrido com claras restrições de orçamento — recorrendo a uma computação gráfica e telas verdes que às vezes parecem de segunda categoria (apesar de algumas excelentes filmagens reais na Bulgária) —, a direção compensa com uma câmera estilosa, inspirada no dinamismo de Kingsman (2014), que acompanha o peso e o balanço dos corpos nas lutas.
O roteiro, porém, sofre com algumas conveniências tão absurdas que fariam até o Maverick original corar de vergonha. Pousar um avião comercial gigantesco sobre um porta-aviões norte-americano com um motor quebrado e total estabilidade física? Pois é, o filme vai lá e faz. Além disso, o texto tenta pagar alguns “pedágios” modernos um tanto artificiais, como o momento em que a filha de Nikolai, Anna (uma desperdiçada Maria Bakalova), resolve dar um sermão político e social sobre preconceitos sexuais no meio de uma fuga desesperada de espiões.
Uma crítica sutil à propaganda política… embrulhada em um Big Mac
Apesar de ser uma grande e descompromissada “Sessão da Tarde”, Mayday consegue a proeza de subir um degrau acima de jingles patrióticos americanos como Rocky IV ou Amanhecer Violento (Red Dawn). O vilão principal não é o povo russo, mas sim o obcecado oficial da KGB Alexander Volkov (Marcin Dorociński), um linha-dura que odeia as reformas de glasnost e perestroika de Mikhail Gorbachev e tenta forçar Troy a confessar um plano mentiroso de assassinato contra o líder soviético para restaurar o autoritarismo de ferro.
Mais surpreendente ainda é o amadurecimento moral de Troy Kelly. Ao longo da fuga, Volkov lhe mostra um documento confidencial provando que a própria Marinha dos EUA escondeu que usava amianto cancerígeno em seus estaleiros para economizar dinheiro, o que acabou custando a vida do pai de Troy. Essa reviravolta quebra o patriotismo cego do piloto. Ele descobre que “a única maneira de defender seu país é enfrentando-o”. Ele não trai os EUA, mas usa sua influência para obrigar o governo a dar asilo a Nikolai e indenizar as vítimas do escândalo corporativo.
Claro que, no final das contas, o filme ainda é um produto comercial de Hollywood produzido pela megacorporação de David Ellison. Nikolai consegue seu final feliz: o vemos devorando alegremente um Big Mac e planejando comprar um trailer para cruzar as estradas dos Estados Unidos. É a vitória triunfante do capitalismo e da publicidade corporativa direta na veia, mas com uma dose de autoconsciência jingoísta que nos faz rir e perdoar a heresia.
Se você conseguir ignorar as constantes tentativas de Ryan Reynolds de transformar a Guerra Fria em seu show particular de stand-up, Mayday é uma das produções mais divertidas, engraçadas e surpreendentemente inteligentes do ano. Vale cada segundo dos seus 110 minutos de exibição no sofá de casa.
Ficha Técnica do filme Mayday (2026)
| Campo | Detalhes |
|---|---|
| Título Nacional | Mayday |
| Título Original | Mayday |
| Ano de Lançamento | 2026 (4 de setembro) |
| Plataforma de Streaming | Apple TV+ |
| Direção | Jonathan Goldstein e John Francis Daley |
| Roteiro | Jonathan Goldstein e John Francis Daley |
| Produção | David Ellison, Dana Goldberg, Don Granger, Ashley Fox |
| Estúdio / Produtora | Skydance Media / Apple Studios |
| Elenco Principal | Ryan Reynolds (Troy Kelly), Kenneth Branagh (Nikolai Ustinov), Maria Bakalova (Anna), Marcin Dorociński (Alexander Volkov), David Morse |
| Duração | 110 minutos (1h50) |
| Gêneros | Ação, Comédia, Espionagem, Guerra |














