Ryan Reynolds no filme Mayday de 2026 do Apple TV

‘Mayday’ brilha no streaming, mas Ryan Reynolds quase põe tudo a perder

Foto: Divulgação / Apple TV
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Se você achava que a maior ameaça de 1987 eram as ogivas nucleares soviéticas, a comédia de ação Mayday traz uma verdade ainda mais assustadora para a tela do Apple TV: o humor incansável e repetitivo de Ryan Reynolds.

Dirigido e roteirizado pela competente dupla Jonathan Goldstein e John Francis Daley (responsáveis pelo excelente Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes e pelo texto de Homem-Aranha: De Volta para Casa), o filme é uma divertida viagem no tempo que tenta emular os clássicos de ação dos anos 80, mas acaba entregando um paradoxo engraçado. É o melhor filme de Ryan Reynolds desde Deadpool 2 (2018), mas ele é, sem dúvidas, a pior coisa de toda a projeção.

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Uma premissa improvável: “Opa, os soviéticos também têm sentimentos?”

A trama de Mayday se inicia no auge da Guerra Fria de 1987. O tenente e piloto arrogante da Marinha dos EUA, Troy Kelly (ou Troy “Assassin” Kelly, interpretado por Ryan Reynolds), é abatido e forçado a se ejetar no meio do inóspito inverno soviético durante uma missão secreta de reconhecimento para fotografar instalações nucleares.

Perdido na neve, ele dá a imensa sorte de ser resgatado por Nikolai Ustinov (vivido pelo espetacular Kenneth Branagh), um ex-agente da KGB que vive isolado em uma cabana. Para a surpresa do desconfiado piloto americano, Nikolai não quer arrancar seus olhos; ele é, na verdade, um fã fervoroso do estilo de vida norte-americano, cuja obsessão nasceu após contrabandear e assistir dezenas de vezes a uma fita de Top Gun – Ases Indomáveis.

Nikolai aceita ajudar o piloto a escapar sob uma condição: ele quer asilo político para fugir do regime soviético e finalmente descobrir qual é o gosto de um Big Mac. Assim, nasce uma inusitada e movimentada road trip pela Sibéria de dois “inimigos” que precisam se tolerar para sobreviver.

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O brilho de Kenneth Branagh contra as caretas cansativas de Ryan Reynolds

O grande trunfo de Mayday reside no absoluto controle de cena de Kenneth Branagh. Esqueça os papéis shakespearianos tradicionais: aqui, o ator entrega um trabalho brilhante, injetando carisma e uma ironia deliciosa a um russo que odeia o próprio sistema. O nível de comprometimento de Branagh é tão invejável que ele inclusive dispensou dublês para filmar as sequências físicas de luta. Quando a câmera pirueta de forma fluida ao seu redor enquanto ele esmaga garrafas de vodca na cara dos inimigos, o filme se torna pura arte de ação.

Enquanto isso, do outro lado do ringue de atuação, temos o “efeito Deadpool”. Ryan Reynolds parece ter esquecido que o filme se passa em 1987 e que seu personagem se chama Troy Kelly, insistindo em despejar o mesmo humor cínico, rápido, cheio de metalinguagem e caretas que o consagraram na Marvel.

Muitas de suas piadas foram improvisadas pelo próprio ator e mantidas no corte final, mas o resultado é que elas quebram a tensão dramática nos piores momentos possíveis, como se ele estivesse subestimando a inteligência do espectador. É o clássico carisma cansativo de Reynolds que simplesmente não consegue acompanhar o foguete de atuação de Branagh.

Ryan Reynolds e Kenneth Branagh no filme Mayday do Apple TV de 2026
Foto: Divulgação / Apple TV

Direção inspirada que dribla a falta de verba (e de física)

Os diretores Jonathan Goldstein e John Francis Daley são visivelmente apaixonados pela estética oitocentista, o que fica claro na maravilhosa trilha sonora embalada por Bruce Springsteen e na fotografia de movimentos fluidos. Embora a produção tenha sofrido com claras restrições de orçamento — recorrendo a uma computação gráfica e telas verdes que às vezes parecem de segunda categoria (apesar de algumas excelentes filmagens reais na Bulgária) —, a direção compensa com uma câmera estilosa, inspirada no dinamismo de Kingsman (2014), que acompanha o peso e o balanço dos corpos nas lutas.

O roteiro, porém, sofre com algumas conveniências tão absurdas que fariam até o Maverick original corar de vergonha. Pousar um avião comercial gigantesco sobre um porta-aviões norte-americano com um motor quebrado e total estabilidade física? Pois é, o filme vai lá e faz. Além disso, o texto tenta pagar alguns “pedágios” modernos um tanto artificiais, como o momento em que a filha de Nikolai, Anna (uma desperdiçada Maria Bakalova), resolve dar um sermão político e social sobre preconceitos sexuais no meio de uma fuga desesperada de espiões.

Uma crítica sutil à propaganda política… embrulhada em um Big Mac

Apesar de ser uma grande e descompromissada “Sessão da Tarde”, Mayday consegue a proeza de subir um degrau acima de jingles patrióticos americanos como Rocky IV ou Amanhecer Violento (Red Dawn). O vilão principal não é o povo russo, mas sim o obcecado oficial da KGB Alexander Volkov (Marcin Dorociński), um linha-dura que odeia as reformas de glasnost e perestroika de Mikhail Gorbachev e tenta forçar Troy a confessar um plano mentiroso de assassinato contra o líder soviético para restaurar o autoritarismo de ferro.

Mais surpreendente ainda é o amadurecimento moral de Troy Kelly. Ao longo da fuga, Volkov lhe mostra um documento confidencial provando que a própria Marinha dos EUA escondeu que usava amianto cancerígeno em seus estaleiros para economizar dinheiro, o que acabou custando a vida do pai de Troy. Essa reviravolta quebra o patriotismo cego do piloto. Ele descobre que “a única maneira de defender seu país é enfrentando-o”. Ele não trai os EUA, mas usa sua influência para obrigar o governo a dar asilo a Nikolai e indenizar as vítimas do escândalo corporativo.

Claro que, no final das contas, o filme ainda é um produto comercial de Hollywood produzido pela megacorporação de David Ellison. Nikolai consegue seu final feliz: o vemos devorando alegremente um Big Mac e planejando comprar um trailer para cruzar as estradas dos Estados Unidos. É a vitória triunfante do capitalismo e da publicidade corporativa direta na veia, mas com uma dose de autoconsciência jingoísta que nos faz rir e perdoar a heresia.

Se você conseguir ignorar as constantes tentativas de Ryan Reynolds de transformar a Guerra Fria em seu show particular de stand-up, Mayday é uma das produções mais divertidas, engraçadas e surpreendentemente inteligentes do ano. Vale cada segundo dos seus 110 minutos de exibição no sofá de casa.

Ficha Técnica do filme Mayday (2026)

CampoDetalhes
Título NacionalMayday
Título OriginalMayday
Ano de Lançamento2026 (4 de setembro)
Plataforma de StreamingApple TV+
DireçãoJonathan Goldstein e John Francis Daley
RoteiroJonathan Goldstein e John Francis Daley
ProduçãoDavid Ellison, Dana Goldberg, Don Granger, Ashley Fox
Estúdio / ProdutoraSkydance Media / Apple Studios
Elenco PrincipalRyan Reynolds (Troy Kelly), Kenneth Branagh (Nikolai Ustinov), Maria Bakalova (Anna), Marcin Dorociński (Alexander Volkov), David Morse
Duração110 minutos (1h50)
GênerosAção, Comédia, Espionagem, Guerra
Escrito por
Taynna Gripp

Formada em Letras e pós-graduada em Roteiro, tem na paixão pela escrita sua essência e trabalha isso falando sobre Literatura, Cinema e Esportes. Atual CEO do Flixlândia e redatora do site Ultraverso.

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