Em entrevista exclusiva ao Flixlândia, o diretor Rodrigo Pinto compartilhou sua visão sobre a construção de “Ninguém Pode Provar Nada – A Inacreditável História de Ezequiel Neves”: docuficção que revisita a trajetória do jornalista e produtor musical que ajudou a moldar a cena do rock nacional entre as décadas de 1970 e 1980.
Pioneiro ao escrever sobre rock no Brasil, Ezequiel Neves construiu uma trajetória que atravessou o jornalismo e a música. Após anos na imprensa, onde ganhou o apelido de “Zeca Jagger”, tornou-se produtor musical e letrista, trabalhando com nomes como Rita Lee e Barão Vermelho e acompanhando de perto a trajetória de Cazuza, de quem se tornou mentor e parceiro criativo.
No bate-papo com Luiza Lara, Rodrigo Pinto falou sobre Ezequiel Neves, a inspiração para o documentário e o que esperar do filme “Ninguém Pode Provar Nada”. Confira.
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Entrevista com Rodrigo Pinto, diretor de Ninguém Pode Provar Nada
“Ninguém Pode Provar Nada” é um filme que mistura documentário e ficção para contar a história de uma figura excêntrica, complexa e muito contraditória: Ezequiel Neves. Mas por que contá-la agora? E, mais importante ainda, por que acender uma luz sobre alguém que construiu sua trajetória nos bastidores?
Ezequiel foi determinante pro surgimento da cena musical da virada dos anos 1970 para os 1980, do que viria a ser chamado Rock Brasil e BRock. A gente lembra dele pelas parcerias com Cazuza e Frejat, por clássicos como Codinome Beija-Flor, Exagerado e Por que a gente é assim, mas muito antes de ser compositor, Ezequiel abriu os olhos e os ouvidos do público para a ainda pequena cena roqueira da segunda metade dos anos 1970, com Made in Brazil, Rita Lee & Tutti Frutti, Sá, Rodrix e Guarabira e Novos Baianos. Seus textos traduzem o espírito daquele período. Ele foi, sem dúvidas, o mais importante crítico de música jovem do país. E eu o conhecia bem, tive acesso a sua casa, seus escritos, amigos, histórias. Não tinha como ser diferente. Precisava fazer o filme.
Para construir as histórias do protagonista, o filme mergulha em um vasto acervo de fotos, vídeos e documentos. A investigação reúne mais de 150 horas de entrevistas inéditas, sendo 60 apenas com o próprio Ezequiel, além de arquivos falsos, entrevistas recriadas por inteligência artificial e trechos de filmes inventados, recursos que aproximam o documentário da forma como o jornalista construía suas narrativas, transitando entre fato e invenção.
Você decidiu contar essa história usando as mesmas artimanhas usadas pelo Zeca, isto é, flertando entre verdade e ficção, real e surreal. Mas qual é o limite dessas ferramentas? Até onde você se permitiu ir nessa construção?
Acho que o limite é ético e político. Se usarmos estas ferramentas para criar artisticamente, ótimo. Se usarmos para espalhar ódio, preconceito, dissimulação, aí vira caso de polícia. Eu me permiti usar as ferramentas dentro deste escopo e de forma reflexiva ao trabalho do personagem. Claro, Ezequiel passava dos limites, porque era um rebelde, corajoso e, por outro lado, às vezes inclemente, mordaz. Eu abracei isso, mas usei na direção dele também. O filme não é um tributo, é um questionamento sobre o personagem, sobre sua complexidade, contradições e paixões.
Depois de assistir ao filme, eu senti uma injeção de energia criativa. Existe algum efeito ou sensação que você esperava provocar no público?
Eu quis gerar reflexão, incômodo, risos nervosos, mas também gargalhadas e desejos de invenção.
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É impossível assistir a “Ninguém Pode Provar Nada” sem pensar no contexto que vivemos hoje. Com a inteligência artificial e a lógica dos algoritmos, as narrativas estão se aproximando cada vez mais da pasteurização.
Depois de mergulhar na trajetória do Ezequiel, como você acha que ele reagiria ao cenário contemporâneo? Ele usaria IA nos seus textos?
Talvez estejam. Mas a beleza da arte e da contracultura, é que, quando todos parecem ir numa direção, uns vão em outra, quebram a corrente. Eu sou otimista. Prefiro deixar o pessimismo para dias melhores. Acho que ele brincaria com a IA. Mas, sinceramente, acho também que perceberia as incapacidades da ferramenta.
Afinal, o que é esse “nada” que ninguém pode provar?
É o mistério da vida, a liberdade criativa, a crítica à preguiça intelectual e artística. Mas pode ser também uma filosofia de Tim Maia: Tudo é Tudo, Nada é Nada.
Ninguém Pode Provar Nada nos cinemas e no streaming
Após passar pelo Festival do Rio, em 2025, o longa tem estreia prevista nos cinemas e no streaming nos próximos meses, com distribuição da Giros Filmes e Ton Ton Filmes.

















