Lázaro Ramos e Yuri Gomes em cena do filme Feito Pipa

‘Feito Pipa’ emociona ao transformar o afeto na maior arma contra o preconceito

Foto: Divulgação / Paris Filmes
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O cinema nacional tem uma longa tradição de retratar o interior do Brasil sob a ótica da aspereza e da sobrevivência rígida. No entanto, em Feito Pipa (2026), o diretor Allan Deberton propõe um caminho radicalmente diferente: olhar para essa mesma paisagem e enxergar espaço para o brilho, o lúdico e o afeto.

Escolhido como o representante oficial do país na corrida por uma vaga ao Oscar 2027, o longa não apela para o maniqueísmo para arrancar lágrimas; ele encontra sua força justamente nas complexidades reais das relações familiares.

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Sinopse

A trama acompanha Gugu (Yuri Gomes), um menino de 11 anos que sonha em se tornar jogador de futebol. Desde a morte de sua mãe, que se afogou em um açude, o garoto vive à beira de uma represa com sua avó, Dilma (Teca Pereira). A aposentada acolhe a essência afeminada e livre da criança sem restrições, construindo um porto seguro regado a amor e liberdade.

Porém, quando a saúde de Dilma começa a se fragilizar, o mundo de Gugu é ameaçado. Aterrorizado com a possibilidade de perdê-la e ser forçado a morar com o pai, Batista (Lázaro Ramos) — um homem com preconceitos enraizados e com quem mantém uma relação conturbada e desafiadora —, Gugu tenta a todo custo esconder a doença da avó.

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Crítica do filme Feito Pipa (2026)

A recusa do estereótipo raso

O que torna Feito Pipa uma das experiências cinematográficas mais bonitas do ano é a delicadeza de seu roteiro.

A narrativa foge da saída fácil de criar antagonistas óbvios e caricatos. A figura do pai, Batista, poderia ter escorregado facilmente para o clichê do truculento puramente perverso. Contudo, a direção obriga o público a mergulhar no desconforto da realidade humana: Batista ama o filho profundamente. Ele deseja se aproximar, mas esbarra na própria ignorância, não sabendo como atravessar essa ponte sozinho.

Essa humanização transforma a história em um conto maduro sobre a dificuldade de amar quando não se tem as ferramentas emocionais adequadas. A ambientação na barragem, que seca e revela as ruínas de uma antiga cidade, funciona como uma metáfora impecável para o passado que submerge e as memórias que precisam ser encaradas para o amadurecimento dos afetos.

Yuri Gomes em cena do filme Feito Pipa
Foto: Divulgação / Paris Filmes

Atuações que sustentam a alma do filme

O elenco é o coração inquestionável da obra. O jovem Yuri Gomes carrega a vulnerabilidade e os sonhos de Gugu com uma maturidade impressionante, enquanto o restante do elenco infantil de apoio transborda carisma, garantindo leveza e arrancando gostosas risadas do público com uma naturalidade rara.

Ao lado do menino, a veterana Teca Pereira domina a tela entregando uma avó cuja doçura e força protetora são palpáveis em cada respiração. O destaque absoluto de Teca justifica cada um de seus prêmios recentes e cimenta Dilma como a grande alma da narrativa.

Fechando a trindade principal, Lázaro Ramos ancora os conflitos mais densos. O ator utiliza uma contenção magistral e uma presença magnética para demonstrar a confusão de um homem partido entre o afeto genuíno pela criança e as barreiras limitantes da sociedade. É um trabalho cheio de nuances que exige muita empatia do espectador e reafirma o talento imenso de Lazinho no cinema nacional.

Feito Pipa filme indicado para representar o Brasil no Oscar 2027
Foto: Divulgação

O único tropeço

Apesar de sua excelência, Feito Pipa possui um único defeito evidente: a narrativa termina de maneira repentina. A história é tão envolvente e os personagens são tão ricos que o filme acaba passando rápido demais, deixando uma forte sensação de que durou pouco.

Quando a tela escurece e os créditos sobem, fica claro que o roteiro aguentaria perfeitamente mais meia hora de projeção de forma tranquila, apenas para nos deixar conviver e respirar um pouco mais com aquelas dinâmicas familiares.

Vale a pena assistir ao filme Feito Pipa?

Completamente. Mesmo com o final precipitado, Feito Pipa é um drama envolvente que arranca risadas e lágrimas com a mesma facilidade, justificando os merecidos aplausos nas cabines de imprensa.

É um filme que lembra que a verdadeira subversão, muitas vezes, está no acolhimento. Se o cinema serve como um espelho de nossas vivências, o longa reflete a esperança de um Brasil menos árido e muito mais plural. Um acerto gigantesco e a escolha perfeita para nos representar lá fora.

Trailer do filme Feito Pipa (2026)

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Ficha técnica de Feito Pipa

CategoriaDetalhe Oficial
Título OriginalFeito Pipa
Título InternacionalGugu’s World
DireçãoAllan Deberton
RoteiroAndré Araújo e Allan Deberton
Elenco PrincipalYuri Gomes (Gugu), Teca Pereira (Dilma), Lázaro Ramos (Batista), Carlos Francisco, Georgina Castro
GêneroDrama / Família / LGBTQIAP+
Duração93 minutos
Ano de Lançamento2026
País de OrigemBrasil (Ceará)
Direção de FotografiaLuciana Baseggio e Daniel Donato
Direção de ArteDayse Barreto
MontagemMariana Nunes Gomes
Trilha Sonora OriginalJoão Victor Barroso
Empresas ProdutorasDeberton Filmes, Biônica Filmes e Warner Bros.
Distribuição NacionalParis Filmes
Escrito por
Cadu Costa

Cadu Costa era um camisa 10 campeão do Vasco da Gama nos anos 80 até ser picado por uma aranha radioativa e assumir o manto do Homem-Aranha. Pra manter sua identidade secreta, resolveu ser um astro do rock e rodar o mundo. Hoje prefere ser somente um jornalista bêbado amante de animais que ouve Paulinho da Viola e chora pelos amores vividos. Até porque está ficando velho e esse mundo nem merece mais ser salvo.

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