Com uma melancolia profunda e um vazio existencial marcante, Retorno a Buenos Aires transmite a sensação de solidão prolongada que perdura por décadas após a vivência de um período indubitavelmente doloroso: a ditadura militar argentina.
O filme se passa em 2008 e acompanha o regresso de Mariano Guerra (Adriano Giannini) à Argentina, após 33 anos de exílio na Itália. Ele é convocado para depor no julgamento dos militares que o sequestraram, torturaram e mantiveram em cativeiro durante o regime iniciado na década de 1970.
Embora não busque vingança, Mariano precisa enfrentar as sequelas de um passado que o acompanha ininterruptamente, revisitando memórias traumáticas enquanto tenta reunir forças para testemunhar. Ao explorar os efeitos psicológicos da violência e do trauma, a obra constrói um retrato íntimo da dificuldade de superação dos sobreviventes dos horrores do regime.
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Crítica do filme Retorno a Buenos Aires
A lentidão da justiça
Com ritmo pausado e fortemente melancólico, o filme dedica grande parte de sua duração à representação explícita do sofrimento, transmitida por cada personagem embora o foco permaneça em Mariano, inicialmente um homem de poucas palavras, que vive solitário com seu cão e atua como paramédico.
Esse ritmo cadenciado espelha a própria morosidade do Estado: a demora de mais de três décadas para que a justiça comece a se desenhar reflete diretamente no ritmo da vida do protagonista. O vazio que permeia sua rotina demora a ser compreendido; sua aparente ausência de vínculos já sugere um indivíduo traumatizado, e, ao longo da narrativa, compreende-se que sua condição não deriva apenas da tortura física sofrida no cativeiro, mas do peso do tempo e da impunidade.
O silêncio domina o primeiro ato e parte do segundo, mas, à medida que a trama se consolida e as sombras do passado se sobrepõem, a obra revela um peso emocional capaz de envolver o espectador junto aos personagens.
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O invisível como cenário
Com planos-sequência discretos, uma fotografia quase estática e espaços amplos que amplificam qualquer ruído, a direção busca expressar o vazio de almas exaustas em busca de uma reparação que tardou a chegar.
Os personagens fundem-se ao cenário, com vestimentas sóbrias que não os destacam, reforçando sua invisibilidade perante a sociedade até o momento do julgamento.
A escassez de trilha sonora em diálogos e tomadas longas é altamente significativa: sugere a ausência de afeto, como se o indivíduo ferido ainda não tivesse espaço para escutar o entorno. Não há liberdade plena para quem permanece aprisionado a um passado traumático.
Os tons de azul na imagem reforçam essa atmosfera fria, mantendo o peso e a angústia ao longo da obra a ponto de tornar palpável cada dor retratada. Já as cenas de flashback, apresentadas sob um filtro sépia, constituem um recurso eficaz para representar a memória: não se trata de mero apelo estético, mas de um convite à compreensão das causas da dor, da construção daquele cenário e de seus inevitáveis desfechos.
Uma lição para o futuro
A sensação de dever cumprido surge como uma centelha de esperança para produções que retratam a realidade sofrida de diversos países da América Latina, deixando um legado para as gerações futuras que poderão ver este filme como um registro de um passado que jamais deve ser venerado ou almejado.
Retorno a Buenos Aires lança luz sobre uma ferida histórica que muitos prefeririam esquecer, mas que não pode ser ocultada. A obra exige a coragem de encarar a história sem justificativas ou concessões, enfatizando a memória como o único caminho para a punição daqueles que violaram a dignidade humana.
Onde assistir ao filme Retorno a Buenos Aires?
O filme integra a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ainda não há data oficial para a estreia de Retorno a Buenos Aires no circuito comercial.
Trailer do filme Retorno a Buenos Aires
Ficha técnica
| Informação | Detalhes |
| Título Original | Retorno a Buenos Aires |
| Direção | Marco Bechis |
| Roteiro | Marco Bechis, Vijaya Bechis Boll |
| Elenco | Adriano Giannini, Ana Celentano, Verónica Gerez, Olivia Nuss, Adrián Fondari, Paula Cohen, Marcelo Chaparro, Vijaya Bechis Boll |
| Fotografia | Fabrizio La Palombara |
| Montagem | Jacopo Quadri, Nicolò Tettamanti |
| Desenho de Som | Gaspar Scheuer, Diego Martinez Rivero |
| Música | Guglielmo Diana |
| Design de Produção | Caterina Giargia |
| Direção de Arte | Mario Scarzella, Eduardo Antunes |
| Direção de Elenco | Alessandra Tosi, Verônica Souto, Luana Velliscig |
| Produção | Patrick de Jongh, Cibele Amaral, André Ristum, Domenico Procacci, Alfredo Federico, Marco Bechis, Simona Banchi, Laura Paolucci |
| Produtoras | 34 Filmes, Neo Cortex Entretenimento, Sobumbo Filmes, Fandango, 39Films, Karta Film, Rai Cinema |
| Distribuição | Paris Filmes |
| Festival | 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo |

















