Idiotas filme 2026

‘Idiotas’: quando o caos não é suficiente para fazer rir

Foto: Independent Film Company / Divulgação
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Existem comédias que entendem perfeitamente o próprio propósito: contar uma história absurda, colocar personagens ainda mais absurdos dentro dela e simplesmente deixar o desastre acontecer. Idiotas, dirigido por Macon Blair, parte exatamente desse princípio. O filme aposta em uma combinação de humor vulgar, drogas, violência, personagens irresponsáveis e situações que parecem escapar completamente do controle. É uma proposta que não exige muita lógica do espectador, mas exige algo fundamental: que as piadas sejam boas.

O problema é que Idiotas parece acreditar que aumentar continuamente o nível de absurdo é suficiente para manter a comédia funcionando. Quando uma situação já é caótica, a próxima precisa ser mais criativa, não apenas mais exagerada. O longa encontra alguns momentos genuinamente engraçados, especialmente quando deixa seus personagens interagirem naturalmente, mas frequentemente confunde transgressão com humor. O resultado é uma comédia que possui energia, bons atores e uma premissa promissora, mas que nem sempre sabe o que fazer com tudo isso.

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Uma missão simples que rapidamente deixa de ser simples

Mark (Dave Franco) e Davis (O’Shea Jackson Jr.) recebem uma tarefa aparentemente banal: transportar Sheridan (Mason Thames), um adolescente rico e problemático, até uma clínica de reabilitação. O trabalho parece ser apenas mais um serviço para a dupla, mas Sheridan está longe de ser um passageiro comum. Seu comportamento transforma o que deveria ser uma viagem rápida em uma sucessão de acontecimentos cada vez mais imprevisíveis.

Conforme a jornada avança, drogas, criminosos, perseguições e decisões completamente questionáveis colocam os três em situações que fogem cada vez mais de qualquer possibilidade de controle. A estrada funciona, então, como uma espécie de laboratório para o filme: quanto mais tempo os personagens passam juntos, mais absurdas ficam as consequências de suas escolhas. A questão é que nem toda situação absurda consegue ser engraçada, e Idiotas demora para perceber essa diferença.

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Três idiotas e uma química que salva o passeio

O grande trunfo do filme está na dupla formada por Dave Franco e O’Shea Jackson Jr.Mark e Davis funcionam porque possuem personalidades suficientemente diferentes para transformar conversas banais em pequenos confrontos cômicos. Há uma dinâmica natural entre os dois, e muitas das melhores cenas surgem justamente quando o roteiro abandona a necessidade de criar uma nova loucura e simplesmente permite que eles conversem, discutam ou reajam ao desastre ao redor.

Dave Franco encontra um tipo de personagem que combina bastante com sua persona cinematográfica: alguém aparentemente comum que consegue tomar decisões cada vez piores com uma convicção impressionante. O’Shea Jackson Jr., por outro lado, oferece um contraponto mais contido, o que ajuda a estabelecer o equilíbrio da dupla. A química funciona, mas o roteiro poderia explorá-la muito mais. Em determinados momentos, fica a sensação de que os atores são mais engraçados do que as situações que receberam.

Mason Thames também é uma peça importante nessa engrenagem. Sheridan não foi criado para ser exatamente uma figura simpática, e a interpretação abraça esse aspecto. O personagem representa o tipo de adolescente que cresceu acreditando que dinheiro pode resolver qualquer consequência — e o filme encontra aí uma oportunidade interessante para falar sobre privilégio. Entretanto, a ideia nunca chega a ganhar a profundidade necessária. Sheridan é mais usado como agente do caos do que como personagem capaz de sustentar uma crítica realmente contundente.

Quando o absurdo perde a graça

É justamente no humor que Idiotas começa a perder força. O filme constrói sua narrativa como uma sequência de desastres: algo dá errado, os personagens tentam resolver, a tentativa cria um problema maior e, então, uma nova situação ainda mais absurda aparece. A fórmula pode funcionar muito bem quando existe uma escalada criativa. Aqui, porém, a repetição acaba ficando perceptível demais.

Existe uma diferença importante entre uma comédia sem limites e uma comédia sem ideias. Idiotas parece querer ultrapassar constantemente o limite do bom gosto, mas algumas cenas acabam dependendo mais do choque do que da construção da piada. O espectador pode até rir de uma situação grotesca isoladamente, mas, depois de várias delas, o impacto diminui. O que inicialmente parece ousado começa a parecer previsível.

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Foto: Independent Film
Company / Divulgação

Estrada cheia de oportunidades perdidas

A direção de Macon Blair demonstra disposição para abraçar o lado mais sujo e descontrolado da história, mas o filme nem sempre consegue transformar essa liberdade em personalidade. Há uma espécie de energia de comédia de estrada clássica, com personagens completamente incompatíveis obrigados a permanecer juntos enquanto tudo ao redor desmorona. Só que Idiotas não consegue encontrar uma identidade suficientemente forte para fazer essa fórmula parecer realmente nova.

Isso também afeta o ritmo. A duração relativamente enxuta ajuda a evitar que a experiência se torne cansativa, mas não impede que determinados momentos pareçam estar apenas prolongando uma piada que já terminou. Quando o filme se concentra nos personagens, funciona melhor; quando tenta competir consigo mesmo para descobrir qual será o próximo desastre, perde espontaneidade. O caos, que deveria ser a principal fonte de diversão, acaba se tornando repetitivo.

Muito barulho para uma ideia interessante

A crítica social escondida dentro da comédia é talvez a maior oportunidade desperdiçada. Sheridan poderia ser mais do que simplesmente um adolescente mimado responsável por colocar todo mundo em perigo. O contraste entre seu privilégio e a realidade dos homens que precisam lidar com as consequências de suas escolhas poderia render uma sátira muito mais afiada sobre dinheiro, impunidade e responsabilidade.

Em vez disso, o filme prefere sugerir essas questões sem desenvolvê-las completamente. Não chega a ser um problema esperar pouco de uma comédia desse tipo, mas justamente por apresentar elementos que poderiam ampliar a história, Idiotas cria expectativas que não consegue cumprir. O filme parece querer ser simultaneamente uma comédia escrachada e uma sátira social, mas nunca encontra um equilíbrio realmente convincente entre essas duas propostas.

Ainda assim, seria injusto dizer que o filme não funciona em momento algum. Existem boas cenas, algumas situações surpreendentemente engraçadas e personagens secundários que conseguem roubar a atenção quando aparecem. O problema está na irregularidade. Idiotas alterna momentos em que parece finalmente encontrar seu ritmo com outros em que a comédia se transforma em uma sucessão de acontecimentos esperando que o espectador ria simplesmente porque tudo ficou mais absurdo.

Um destino que chega sem deixar muita coisa para trás

Quando chega ao final, Idiotas transmite uma sensação curiosa: a de que muita coisa aconteceu, mas pouco realmente ficou. A quantidade de situações acumuladas durante a jornada é grande, porém poucas delas parecem ter peso suficiente para transformar a experiência em algo memorável. O filme consegue chegar ao destino, mas não necessariamente a uma conclusão que justifique todo o caminho percorrido.

Isso não significa que Idiotas seja uma comédia desastrosa. Pelo contrário: existe competência na produção, o elenco demonstra boa química e algumas sequências conseguem entregar exatamente o tipo de humor nonsense que o filme procura. O problema é que uma boa premissa e alguns bons momentos não são suficientes quando a estrutura inteira depende de manter uma escalada que rapidamente deixa de surpreender.

No fim, Idiotas é mais divertido quando aceita ser pequeno. Quando Mark e Davis estão simplesmente discutindo, quando os personagens reagem às consequências de suas próprias escolhas ou quando a situação absurda surge organicamente, o filme encontra sua melhor versão. Quando tenta transformar cada minuto em uma nova explosão de loucura, perde justamente aquilo que poderia torná-lo especial. É uma comédia com potencial, mas que parece ter confundido intensidade com criatividade.

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Ficha técnica

InformaçãoDetalhe
Título NacionalIdiotas
Título OriginalIdiots
DireçãoMacon Blair
ElencoDave Franco, O’Shea Jackson Jr., Mason Thames
GêneroComédia
País de OrigemEstados Unidos
Duração98 minutos
Classificação Indicativa18 anos
DistribuiçãoImagem Filmes
Data de Estreia3 de setembro de 2026
Escrito por
Juliana Cunha

Editora na ESPN Brasil e fã de cultura pop, Juliana se classifica como uma nerd saudosa dos grandes feitos da Marvel.

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