Se discutir a relação dentro de quatro paredes já é uma experiência que a maioria das pessoas prefere evitar, imagine ser obrigado a lavar roupa suja pendurado em um cesto de vime, flutuando sem rumo sobre os picos congelados das Dolomitas italianas. Essa é a premissa de Turbulência (Turbulence), longa dirigido pelo suíço Claudio Fäh que rapidamente escalou o catálogo do Prime Video, alcançando a segunda posição entre os filmes mais assistidos no Brasil.
O filme bebe descaradamente da fonte de thrillers minimalistas de sobrevivência extrema — fórmula que funcionou muito bem em A Queda (Fall) —, trocando a torre de rádio enferrujada por um passeio turístico de balão que dá errado em absolutamente todos os sentidos possíveis. O ponto de partida é curioso: o jovem executivo Zach (Jeremy Irvine), abalado após um funcionário veterano e recém-demitido cometer suicídio na sua frente, decide viajar para o norte da Itália com a esposa Emmy (Hera Hilmar) para tentar salvar um casamento fragilizado pelo luto de um aborto recente.
A tentativa de reconciliação, no entanto, já nasce condenada. Na véspera, Zach conhece a sedutora e enigmática Julia (Olga Kurylenko) no bar de um hotel. O que parecia apenas flerte vira um pesadelo quando Julia reaparece justamente como a terceira passageira daquele mesmo voo panorâmico, armada com exigências de chantagem financeira e segredos que detonam a dinâmica do casal diante do experiente piloto Harry (Kelsey Grammer).
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Confinamento a céu aberto
O grande trunfo conceitual de Claudio Fäh e do roteirista e produtor Andy Mayson é subverter a lógica clássica da claustrofobia. Geralmente, filmes de suspense trancam seus protagonistas em elevadores, porões escuros ou submarinos. Em Turbulência, o horizonte é infinito e as montanhas parecem deslumbrantes, mas o espaço físico útil não passa de três metros quadrados. Não há portas para bater, cômodos para onde fugir nem a fantasia de que existe um refúgio seguro logo adiante. Embaixo, há apenas o abismo.
Enquanto se concentra no jogo psicológico inicial, a trama prende a atenção. A presença calculada de Olga Kurylenko instala a desconfiança imediata: a atriz domina olhares cínicos e meias-verdades, fazendo com que o espectador se pergunte até que ponto Zach foi cúmplice ou vítima do flerte. Paralelamente, Hera Hilmar vai, sem alarde, tomando conta da narrativa. Em vez de cair na caricatura da esposa enganada que entra em histeria, Emmy reage com frieza, pragmatismo e uma lucidez impressionante, tornando-se o único porto seguro moral e racional em meio ao desastre.
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O festival do absurdo
O problema de Turbulência começa quando a cesta deixa de ser um palco de suspense psicológico para virar uma sucessão caótica de desastres físicos. Para manter a adrenalina lá em cima, o roteiro empilha tragédias: o piloto Harry sai de cena de forma abrupta, cabos essenciais se rompem, o fundo do cesto quebra, surgem princípios de incêndio, desmaios por hipóxia e até tempestades com rajadas impiedosas.
Nesse turbilhão, a plausibilidade é jogada pela borda. Boa parte das complicações decorre unicamente de decisões impulsivas e disparatadas dos próprios ocupantes. Quando a verdadeira motivação de Julia vem à tona — revelando laços diretos com a tragédia corporativa vista no início da história —, as atitudes descambam para um tom quase caricato de filme de ação exagerado.
A essa fragilidade de texto soma-se a irregularidade técnica. Apesar de a equipe de efeitos visuais e o diretor de fotografia Jaime Reynoso conseguirem bons enquadramentos vertiginosos que vão disparar o gatilho de quem sofre de acrofobia, a tela verde é gritante em diversos momentos. A sensação de que os atores estão presos num estúdio pequeno e colados digitalmente sobre paisagens alpinas quebra a imersão nos momentos que deveriam ser os mais dramáticos.

Diversão descartável para quem aceita o exagero
Não é à toa que o longa amarga míseros 27% de aprovação entre os críticos internacionais no Rotten Tomatoes e apenas 13% na avaliação do público. Analisado sob o crivo do rigor dramático ou da coerência física, Turbulência desmorona com facilidade.
Ainda assim, para quem procura um entretenimento sem maiores pretensões para o fim de semana, a fita entrega exatamente aquilo a que se propõe: ritmo acelerado que não dá descanso, aflição visual constante e um acerto de contas conjugal brutal que ganha contornos catárticos no clímax. É um legítimo exemplar de cinema exploitation moderno — imperfeito e barulhento, mas eficiente em fazer o tempo passar depressa.
Ficha técnica
- Título Original: Turbulence
- Título no Brasil: Turbulência
- Ano de Lançamento: 2025
- Países de Origem: Reino Unido / Estados Unidos
- Duração: 96 minutos
- Classificação Indicativa: 16 anos
- Direção: Claudio Fäh
- Roteiro: Andy Mayson
- Produção: Amanda Bowers, Molly Conners e Andy Mayson
- Direção de Fotografia: Jaime Reynoso
- Supervisão de Efeitos Visuais (VFX): Frank Kaminski e Philip Nauck
- Distribuição / Exibição: Diamond Films (cinemas no Brasil) / Prime Video (streaming)
Elenco do filme Turbulência
- Jeremy Irvine como Zach
- Hera Hilmar como Emmy
- Olga Kurylenko como Julia
- Kelsey Grammer como Harry
- Lionel Robert Blanc, Arianna Calgaro, Alessandro De Cominato, Peter Gantzler e Elena Bushueva

















