O retorno de Daniel Day-Lewis aos cinemas, após oito anos de uma aposentadoria que o próprio ator classificou depois como precipitada e “tola”, transformou Anêmona (Anemone) em um dos lançamentos mais aguardados e dissecados desde sua estreia no Festival de Cinema de Nova York 2025.
Dirigido pelo seu filho, o artista plástico e cineasta estreante Ronan Day-Lewis, o longa carrega a promessa de um reencontro intimista entre pais e filhos, tanto na ficção quanto nos bastidores da produção. No entanto, a experiência final flutua entre o magnetismo avassalador de seu protagonista e uma narrativa arrastada que confunde atmosfera com profundidade.
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Isolamento nas florestas e fantasmas do passado
A trama nos leva às florestas isoladas do norte da Inglaterra, onde Ray Stoker (Day-Lewis) vive há cerca de duas décadas como um ermitão autossuficiente. Longe de tudo e de todos, ele cuida de um pequeno canteiro de flores brancas que dão título ao longa e que eram cultivadas por seu finado pai.
A rotina silenciosa de Ray é quebrada com a chegada repentina de seu irmão, Jem Stoker (Sean Bean), um sujeito que carrega uma religiosidade estampada nas costas e que precisa de coordenadas geográficas exatas para reencontrar o parente sumido. Jem traz uma carta enviada por sua companheira, Nessa (Samantha Morton), ex-parceira de Ray. O motivo do chamado é o jovem Brian (Samuel Bottomley), filho de Ray que foi criado por Jem e que começa a replicar a mesma volatilidade violenta que destruiu a juventude de seu pai.
Aos poucos, o roteiro assinado por pai e filho expõe feridas profundas: abusos sofridos na infância, a rigidez violenta da criação paterna e as cicatrizes psicológicas deixadas pelo conflito na Irlanda do Norte, época em que os irmãos serviram em frentes militares distintas.
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A força brutal de um monstro cênico
Quando a câmera foca em Daniel Day-Lewis, fica muito evidente por que ele segue como o único homem a ostentar três estatuetas do Oscar de Melhor Ator. Seja através de olhares carregados de ódio e culpa ou em monólogos cortantes — com destaque para uma anedota visceral e escatológica de vingança contra um agressor do passado —, o ator preenche a tela com uma gravidade quase assustadora.
Ao seu lado, Sean Bean funciona como uma âncora firme, ainda que seu personagem acabe muitas vezes preso ao papel ingrato de apenas reagir e ouvir as explosões verbais do irmão. Já Samantha Morton e Safia Oakley-Green (que vive Hattie) entregam momentos de vulnerabilidade comovente, mas acabam relegadas às margens de uma trama dominada por rancores masculinos.
O grande problema é que Anêmona parece confiar demais na força do seu astro para mascarar um roteiro desprovido de tração. A narrativa se recusa a avançar com clareza, apostando em silêncios prolongados e diálogos espaçados que prometem revelações grandiosas, mas entregam resoluções anticlimáticas. O drama dos personagens parece girar em círculos sobre temas batidos de traumas intergeracionais, sem dar o estofo dramático necessário para que nos importemos de verdade com o destino de Brian.

Entre a beleza visual e o surrealismo desconexo
No departamento estético, o talento plástico de Ronan Day-Lewis e a cinematografia de Ben Fordesman saltam aos olhos. Os enquadramentos capturam as florestas britânicas e céus acinzentados com um rigor quase pictórico, enquanto a trilha sonora claustrofóbica de Bobby Krlic (The Haxan Cloak) tenta injetar uma urgência mística a cada cena.
Porém, as incursões de Ronan pelo realismo fantástico causam mais estranhamento do que catarse. As aparições fantasmagóricas de uma versão jovem de Nessa e, em especial, de uma bizarra criatura de pescoço longo saída diretamente das pinturas pessoais do diretor dividiram opiniões. Embora essas figuras possam ser lidas como representações da degradação humana e dos demônios internos de Ray, elas entram na montagem como elementos desconectados, que reforçam a sensação de uma pretensão artística que se perde em meio à própria solenidade.
Anêmona vale o seu play?
Lançado discretamente nos cinemas com uma arrecadação modesta de US$ 1,6 milhão antes de desembarcar no catálogo do Prime Video, Anêmona conquistou índices medianos nos agregadores de crítica — acumulando entre 52% e 56% de aprovação no Rotten Tomatoes e nota 5,6 no IMDb.
A obra está longe de ser o desastre absoluto que parte dos críticos mais ferrenhos apontou, mas também não sustenta a envergadura do retorno do seu protagonista. No fim das contas, Anêmona vale a conferida quase que exclusivamente pela chance de rever Daniel Day-Lewis demonstrando um controle cênico formidável, mesmo que dentro de uma estrutura narrativa fria, pretensiosa e incompleta.
Ficha técnica
- Título original: Anemone (no Brasil: Anêmona)
- Gênero: Drama psicológico
- Ano de lançamento: 2025 (Festival de Nova York / Cinemas) / 2026 (Streaming no Prime Video)
- Duração: 125 a 126 minutos
- Classificação indicativa: R
- Direção: Ronan Day-Lewis
- Roteiro: Daniel Day-Lewis e Ronan Day-Lewis
- Direção de fotografia: Ben Fordesman
- Trilha sonora: Bobby Krlic
- Montagem / Edição: Nathan Nugent
- Design de produção: Chris Oddy
- Figurino: Jane Petrie
- Produção: Dede Gardner e Jeremy Kleiner
- Produção executiva: Daniel Day-Lewis e Brad Pitt
- Companhias produtoras: Plan B Entertainment em associação com Absinthe Film Entertainment
- Distribuição: Focus Features
Elenco do filme Anêmona
- Daniel Day-Lewis como Ray Stoker
- Sean Bean como Jem Stoker
- Samantha Morton como Nessa Stoker
- Samuel Bottomley como Brian Stoker
- Safia Oakley-Green como Hattie

















