Quando Eli Roth estourou nos anos 2000 com O Albergue (2005) e depois virou o implacável “Urso Judeu” em Bastardos Inglórios (2009), ele criou uma marca registrada: o terror visceral com muita autoconsciência. Depois do sucesso cômico e engenhoso de Feriado Sangrento (2023), o diretor parecia pronto para entregar mais um banquete de horror divertido.
Porém, O Sorveteiro (Ice Cream Man, 2026) rasga o manual da comédia de horror e mergulha em um niilismo sangrento que acaba se perdendo no próprio vazio.
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Sinopse
A calmaria de Bayleen Bay é estilhaçada com a chegada de um caminhão de sorvetes operado por Jonathan Smiley (Ari Millen). Enquanto o intolerante à lactose Jared (Charlie Zeltzer) desconfia do veículo ao notar que ele o persegue, as crianças devoram os doces e caem em transe hipnótico.
A reviravolta sádica acontece quando o caminhão ronda a vizinhança à noite: guiadas pela possessão, as crianças assassinam barbaramente os próprios pais. No dia seguinte, a escola vira um matadouro. Ao lado dos amigos Tommy (Shiloh O’Reilly) e Mia (Kiori Mirza Waldman), Jared tenta resistir, enquanto sua irmã Lizzie (Sarah Abbott) — que vomitou o sorvete a tempo — é salva por seu ex-namorado Chris (Dylan Hawco) das garras dos vizinhos mirins.
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Onde o filme erra na prática
O grande problema de O Sorveteiro (Ice Cream Man, 2026) fica evidente justamente quando olhamos para as escolhas de roteiro: o filme confunde excesso gráfico com substância narrativa. Enquanto Feriado Sangrento (Thanksgiving, 2023) usava a engenhosidade para construir um final digno, este novo longa aposta em um banho de sangue sem freios que soa repetitivo, tentando surfar na onda de produções como Terrifier (2016) e A Hora do Mal (Weapons, 2026) sem o mesmo carisma.
A decisão de transformar crianças em assassinas implacáveis gera um estranhamento incômodo — e não da forma positiva. Diferente de obras que sabem construir o medo infantil com maestria e tensão psicológica, como os clássicos Colheita Maldita (Children of the Corn, 1984) e A Cidade dos Amaldiçoados (Village of the Damned, 1960), aqui o roteiro aposta em um choque gratuito que afasta o espectador em vez de engajá-lo.

O clímax trágico e o tiro pela culatra
O desfecho ilustra perfeitamente a fragilidade da proposta do filme. Quando os jovens buscam refúgio no porão da igreja e encontram um padre (Benjamin Byron Davis) que os orienta a matar o necromante no cemitério para parar Jonathan Smiley, o filme desenha uma armadilha narrativa. No clímax, as crianças matam Chris e possuíram Mia e Tommy. Quando Jared e Lizzie cravam estacas na cova para destruir o mal, descobrem tarde demais que mataram os próprios pais, manipulados pelo padre que era o verdadeiro necromante o tempo todo.
Essa reviravolta sádica, em vez de gerar catarse ou choque emocional profundo, deixa um gosto amargo e deprimente. O filme se encerra com um massacre completo e desolador, provando que a aposta em ser “cruel por ser cruel” acabou drenando toda a diversão que esperávamos ver na tela.
Vale a pena assistir ao filme O Sorveteiro?
Por fim, O Sorveteiro deixa aquela sensação incômoda de um projeto que tropeçou nas próprias pernas. Na teoria, a premissa de um terror envolvendo crianças possuídas por um caminhão de sorvete macabro tinha tudo para funcionar — afinal, estamos falando de terreno fértil para o gênero. Mas na prática, o resultado é um filme que patina feio.
O problema central não é apenas a ausência de uma comédia escrachada que o trailer sugeria, mas a incapacidade do longa de decidir o que quer ser. Ele falha tanto em entregar o terror visceral e claustrofóbico que marcou a carreira do diretor Eli Roth quanto na inventividade lúdica que funcionava em seus trabalhos festivos anteriores. O que sobra é um festival de violência gráfica esvaziado, um gore sem alma que tenta apostar em um choque puramente gratuito, mas acaba entregando um espetáculo raso, repetitivo e tragicamente sem substância.
No fim das contas, a obra peca ao misturar excesso visual com um vazio narrativo profundo. Em vez de uma catarse divertida ou de um pânico genuíno, a experiência de encarar essa travessia até Bayleen Bay é exatamente como morder um sorvete que passou do prazo de validade: pareceu atraente na vitrine, mas entrega um gosto rançoso, sem sabor e totalmente indigesto. Para quem esperava uma sobremesa marcante, o que fica na boca é apenas um amargor dispensável.
Ficha técnica
| Título Nacional | O Sorveteiro |
| Título Original | Ice Cream Man |
| Ano de Lançamento | 2026 |
| Gênero | Terror / Horror / Gore |
| Direção | Eli Roth |
| Roteiro | Eli Roth |
| Elenco Principal | Ari Millen (Jonathan Smiley), Charlie Zeltzer (Jared), Sarah Abbott (Lizzie), Dylan Hawco (Chris), Benjamin Byron Davis (Padre / Necromante), Shiloh O’Reilly (Tommy), Kiori Mirza Waldman (Mia), Karen Cliche, Charlie Storey e Eli Roth |
| Distribuição no Brasil | Diamond Films |
| Data de Estreia nos Cinemas | 27 de agosto de 2026 |
| País de Origem | Estados Unidos |
















