O novo universo compartilhado da DC Studios, sob a liderança de James Gunn e Peter Safran, carrega nos ombros a imensa responsabilidade de reerguer uma marca historicamente instável. Após o excelente desempenho do filme do Superman ser ofuscado pelo fracasso comercial de Supergirl nos cinemas, a franquia precisava desesperadamente provar que seu planejamento televisivo possuía fôlego e, acima de tudo, identidade própria.
A resposta veio na forma de Lanternas (Lanterns), produção altamente antecipada que prometeu, desde a sua concepção, afastar o estigma cósmico e espalhafatoso do criticado longa de 2011 para entregar um thriller policial pé no chão. O episódio de estreia, ironicamente (e inteligentemente) intitulado “Piloto”, não apenas cumpre essa promessa, mas estabelece o que pode ser considerado um dos começos mais confiantes, maduros e audaciosos da história das adaptações de quadrinhos na televisão.
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Sinopse
A história de “Piloto” começa em 1996, com o jovem John Stewart e seus irmãos assistindo a uma entrevista histórica de Hal Jordan no programa 60 Minutes. Quando o pai militar de John, John Stewart Sr. (J. Alphonse Nicholson), chega em casa, ele testa a coragem do filho disparando contra uma maçã colocada sobre sua cabeça, selando a marcante questão: “Você tem medo?”.
Vinte anos depois, em 2016, John Stewart (Aaron Pierre) é agora um ex-fuzileiro disciplinado e o mais novo recruta escolhido pelos Guardiões do Universo. Ele é colocado sob a tutela do veterano e calejado Hal Jordan (Kyle Chandler), que o submete a testes hostis — como trancar o anel em um carro em direção a um penhasco para forçá-lo a agir. Diante de um misterioso aviso emitido por um antigo holograma do anel de Hal — “Há granizo em Rushville, Nebraska” —, a dupla parte para a pequena cidade agrícola no coração dos Estados Unidos.
No local, eles se deparam com um suposto tiroteio em massa durante um jogo de futebol americano escolar. O cenário coloca os heróis em rota de colisão com a perspicaz xerife local, Kerry Kane (Kelly Macdonald), e com o poderoso líder de milícia local, William Macon (Garret Dillahunt). A investigação logo se prova extraterrestre quando o principal suspeito, o motorista de caminhão Waylon Sanders (Chris Coy), revela-se um alienígena infiltrado com um dispositivo explosivo em seu esqueleto.
Após conterem a detonação, que destrói parte da delegacia, o episódio dá uma guinada monumental: a trama salta dez anos no tempo, chegando a 2026. É no presente que John Stewart retorna a Rushville apenas para encontrar, nas arquibancadas do estádio de futebol, o corpo congelado e sem vida de Hal Jordan, com um tiro na cabeça e sem o seu anel de poder.
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Crítica do episódio 1 da série Lanternas
Show de química
O coração do piloto reside na complexa e fascinante fricção entre seus protagonistas. Kyle Chandler entrega um Hal Jordan espetacular. Longe do herói idealista convencional, o ator encarna um veterano cínico, solitário e nitidamente desgastado pela responsabilidade de ser o protetor intergaláctico. Há uma sombra melancólica em sua presença que evoca a fadiga de alguém que não sabe quem seria sem o anel. Ele é charmoso, mas irritante de propósito.
Em contrapartida, Aaron Pierre brilha intensamente como John Stewart. O ator confere a John uma imponência física, seriedade militar e uma paciência cortante. Ele não é o aprendiz submisso; ele é o homem que estudou, treinou e se recusa a aceitar os caprichos infantis de seu mentor. O bickering constante entre os dois tempera a narrativa com doses de humor ácido dignas dos melhores clássicos de “buddy cop” (como Máquina Mortífera ou 48 Horas), mas sem nunca perder o peso dramático.
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“True Detective” cósmico
Ao trazer a Tropa dos Lanternas Verdes para a poeira e o frio de Nebraska, o showrunner Chris Mundy e os criadores Damon Lindelof e Tom King realizam um verdadeiro milagre narrativo. O uso de efeitos visuais e construtos de energia esmeralda é extremamente poupado e cirúrgico. Em vez de luzes incessantes, o episódio se concentra na construção de atmosfera e drama humano.
Rushville é uma cidade que parece real, opressiva e cheia de segredos ocultos sob a neve e o silêncio do interior americano. O mistério é conduzido como um suspense conspiratório. A milícia fortemente armada de William Macon, o discurso paranoico de “substituição da humanidade” por alienígenas, e o sutil subtexto de tensões sociais e privilégios (como o debate informal sobre merecimento e DEI metaforizado na entrega do anel) dão a Lanternas uma densidade social que a maioria dos produtos de super-heróis sequer ousa arranhar.

O medo, o niilismo e a filosofia do anel
Um dos conceitos mais brilhantes introduzidos pelo roteiro é a desconstrução da “ausência de medo” associada a Hal Jordan. Através de diálogos afiados, o piloto sugere que a suposta coragem inabalável de Hal é, na verdade, uma forma de niilismo defensivo. Como pontua a excelente metáfora de sua dinâmica, “é fácil não ter medo quando não se tem nada a perder”.
Hal perdeu o pai na infância e, desde então, parece flertar com o perigo de forma quase suicida. Já John Stewart carrega o peso da responsabilidade e da disciplina. O anel, que responde apenas à força de vontade e à superação do medo, torna-se uma metáfora poderosa sobre vulnerabilidade humana. Os heróis de “Pilot” são falhos, cometem erros crassos (como John cedendo aos encantos de Zoe, a esposa de Macon) e sangram de verdade.
A cartada final
A grande genialidade do episódio está no epílogo ambientado em 2026. Ao revelar a morte brutal de Hal Jordan e o desaparecimento do anel, os roteiristas explodem a estrutura linear de uma investigação comum.
Essa reviravolta recontextualiza retroativamente cada ação de Hal em 2016 e transforma a série em duas frentes complementares: enquanto acompanhamos o desenrolar do caso no passado, tentamos decifrar o que levou à tragédia do presente. É uma escolha narrativa corajosa que mantém o público em constante estado de paranoia, provando que o envolvimento de Damon Lindelof e sua lendária predileção por estruturas temporais complexas (vista em Watchmen e The Leftovers) está mais afiado do que nunca.
Vale a pena assistir à série Lanternas?
“Piloto” não é apenas uma excelente estreia; é uma declaração de princípios da DC Studios. Ao misturar o rigor dramático da HBO com a rica mitologia dos quadrinhos — referenciando de forma sutil o tom clássico de DC: A Nova Fronteira de Darwyn Cooke e a emblemática estreia de John Stewart em 1971 —, a série encontra sua própria voz.
Com atuações brilhantes de Kyle Chandler e Aaron Pierre, um roteiro inteligente que valoriza o silêncio tanto quanto os diálogos e uma das reviravoltas mais impactantes da TV recente, Lanternas estreia com 91% de aprovação no Rotten Tomatoes fazendo por merecer cada pingo de sua aclamação. O primeiro episódio prova que, às vezes, para alcançar as estrelas, é preciso primeiro fincar os pés firmemente na terra.
Trailer da série Lanternas (2026)
Elenco de Lanternas, da HBO
- Kyle Chandler
- Aaron Pierre
- Kelly Macdonald
- Garret Dillahunt
- Jason Ritter
- Poorna Jagannathan
- Chris Coy
📋 Ficha técnica
- Série: Lanternas (Lanterns)
- Direção: James Hawes
- Roteiro: Chris Mundy, Damon Lindelof e Tom King
- Showrunner: Chris Mundy
- Exibição: HBO e HBO Max


















