A estreia de Lanternas (Lanterns), nova série do universo compartilhado da DC Studios comandado por James Gunn e Peter Safran, chegou com o pé na porta. Deixando de lado as aventuras espaciais extravagantes e as pirotecnias digitais que costumam saturar o gênero de super-heróis, a produção aposta em uma atmosfera de suspense policial sombrio e maduro, ambientado no coração dos Estados Unidos.
O primeiro episódio, curiosamente intitulado “Piloto” — um trocadilho divertido com o passado de piloto de testes de Hal Jordan —, serve para estabelecer a complexa relação entre o veterano ranzinza e o recruta regrado, antes de arremessar o espectador em uma teia conspiratória que atravessa décadas de mistério.
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O que acontece no episódio 1 de Lanternas?
A narrativa de Lanternas se desdobra de maneira brilhante através de uma estrutura não linear, alternando de forma ágil entre diferentes momentos temporais para tecer o mistério central.
Flashback a 1996: a coragem forjada à força
O episódio começa em 1996. O jovem John Stewart e seus irmãos assistem fascinados na televisão a uma entrevista histórica no programa 60 Minutes com Hal Jordan (interpretado na fase madura por Kyle Chandler), o primeiro Lanterna Verde da Terra, que acabara de revelar sua identidade ao público após interceptar um meteoro que ameaçava destruir Victoria Falls.
Na entrevista, Hal explica que a Tropa é formada por “policiais de patrulha, mas cada um cuida de um pedaço da galáxia”, e revela que superou todo o medo após ver seu pai, também piloto, morrer em um acidente de jato na sua infância.
A calmaria da noite é interrompida pela chegada de seu pai militar rigoroso, John Stewart Sr. (vivido na versão jovem por J. Alphonse Nicholson). Ele desliga a TV e leva o jovem John para o jardim, submetendo o garoto a um ritual de teste de coragem quase abusivo: colocar uma maçã na cabeça para que o pai a acerte com um tiro. Pelas marcas de bala acumuladas no portão da garagem, fica claro que a atividade é recorrente. Quando o pai grita “Você está com medo?”, o garoto responde firmemente “Não, senhor”, antes de sorrir e ganhar um hambúrguer de recompensa.
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2016: o trote do carro e o chamado no Nebraska
A história salta 20 anos, para 2016. John Stewart (Aaron Pierre) é agora um ex-fuzileiro naval disciplinado que está sendo treinado por Hal Jordan há dois meses. Há uma quebra notável na tradição aqui: normalmente, o anel escolhe seu portador automaticamente após a morte de um Lanterna, mas John foi pessoalmente selecionado pelos Guardiões do Universo para herdar a arma energética, o que desperta ciúme e hostilidade em Hal, que se vê na iminência de ser substituído.
Em um teste bizarro de mentoria, Hal — que chega atrasado e de ressaca após apartar uma guerra civil no planeta Pharon 4 — joga o carro que dirigia em direção a um penhasco e pula para fora, deixando seu anel no painel e obrigando John a usá-lo pela primeira vez para sobreviver. John consegue criar um construto em formato de plástico-bolha para salvar sua vida.
Enquanto caminha pela estrada para reencontrar o mentor, o anel dispara um backup da consciência de Hal — uma versão holográfica de 2006, muito mais leve e menos ranzinza do que o rústico veterano de 2016, uma vez que ele não atualiza suas memórias há dez anos. Esse “Hal-o-grama” entrega uma mensagem misteriosa gravada no anel: “Há granizo em Rushville, Nebraska”. Sem entender, John repassa o recado a Hal, que parte imediatamente voando, forçando o recruta a segui-lo de avião comercial e carro alugado.

O crime misterioso e a teoria da conspiração
Ao chegarem na pacata Rushville, no Nebraska, os heróis encontram o estádio de futebol americano swarmado de viaturas. Um suposto tiroteio em massa deixou quatro mortos vestindo as camisetas do time visitante (Kimball). O caso intriga os Lanternas: ninguém na cidade conhece os mortos, ninguém veio reclamar os corpos e a xerife local, Kerry Kane (Kelly Macdonald), quer os policiais espaciais longe de sua jurisdição civil.
Obstinado, Hal desconfia que a queda histórica da nave de seu predecessor, Abin Sur, na região de Nebraska nunca foi um acidente comum, e suspeita que as vítimas do estádio sejam alienígenas disfarçados. Ele monitora as arquibancadas e percebe que um morador local suspeito, o caminhoneiro Waylon Sanders (Chris Coy), está assistindo aos policiais. John tenta abordá-lo, o que provoca uma perseguição que termina com o suspeito nocauteado e detido pela xerife.
Sexo, cigarro e o “chifre” na Família Macon
Para se aproximar do prisioneiro, Hal arquiteta um plano curioso em um bar de honky-tonk local: ele força o jukebox a tocar a irritante canção “Brand New Key”, de Melanie, dezenas de vezes para provocar uma briga de bar generalizada e ser preso. O plano de entrar na carceragem é frustrado pela xerife Kerry, que, percebendo a trapaça, tranca o herói na despensa de limpeza da delegacia.
Enquanto o mentor apanha no bar e acaba detido, John flerta e tem uma noite de sexo selvagem com uma mulher chamada Zoe (Poorna Jagannathan) em uma caminhonete. No fim do rala e rola, John contradiz suas próprias regras de conduta ao usar o poderoso anel do Lanterna Verde de forma absurdamente banal: acender o cigarro pós-coito de Zoe.
No dia seguinte, a fiança astronômica de Hal (200 mil dólares) é paga pelo advogado Billy Macon (Jason Ritter), marido da xerife Kerry, sob ordens de seu pai, o magnata miliciano William Macon (Garret Dillahunt). Ao comparecerem a um churrasco de agradecimento no rancho fortemente armado dos Macon, John descobre, para seu absoluto pânico, que Zoe é na verdade a esposa de William Macon (ou seja, madrasta/avó da família). William, um extremista que prega teorias de conspiração sobre invasão e substituição aliengínea, deixa claro nas entrelinhas do jantar que sabe que John “comeu em sua grelha”.
O interrogatório explosivo de Waylon
Com a influência de William Macon, os Lanternas conseguem acesso para interrogar o caminhoneiro Waylon Sanders. Durante a pressão de Hal, o suspeito se revela um extraterrestre infiltrado (uma das 14 espécies transmorfas da galáxia que imitam humanos perfeitamente).
Waylon recita de forma sarcástica o próprio juramento dos Lanternas Verdes e avisa que sua presença na Terra faz parte de uma missão de “Vingança” e “Guerra” motivada por um segredo que os Guardiões de Oa esconderam em Rushville. Ele aciona um dispositivo explosivo de nêutrons fundido em seu esqueleto. Utilizando a bateria restante de seu anel, Hal Jordan consegue projetar uma gigantesca bolha de força esmeralda que contém a detonação, destruindo metade da delegacia de polícia, mas salvando o Nebraska da devastação.
Explicando o final do episódio 1 de Lanternas
Hal Jordan realmente morreu?
Se o episódio se destacou por construir um excelente thriller policial, os minutos finais explodem completamente a estrutura convencional da série ao realizar um salto temporal ousado.
O salto temporal para 2026 e o cadáver congelado
Nos cinco minutos finais, a tela corta para o ano de 2026. Um John Stewart visivelmente mais velho, ostentando um cavanhaque maduro, retorna a Rushville dirigindo seu próprio carro. Ele se reencontra com a xerife Kerry Kane e, sob um clima de profundo silêncio e neve, os dois sobem as arquibancadas do estádio de futebol americano.
Ali, sentado na mesma cadeira de blecaute onde o vimos vigiar a cidade dez anos antes, está o corpo congelado de Hal Jordan. O herói veterano está morto, com uma visível marca de bala na testa. A cena é curta, dolorosa e oferece zero contexto imediato para os espectadores.
Onde está o anel e quem é o assassino?
Ao examinar as mãos do corpo inerte do mentor, John faz a descoberta mais aterrorizante: o anel de poder de Hal desapareceu. Além disso, o próprio John não está usando nenhum anel em 2026, indicando que ele pode não ter se tornado oficialmente um Lanterna Verde na década que se passou.
O mistério sobre quem matou Hal Jordan e o que aconteceu com seu anel se torna o motor propulsor do restante da temporada. Os principais suspeitos introduzidos na estreia são:
- William Macon: O líder miliciano que nutre ódio profundo por alienígenas e que já tinha descoberto a traição de John com sua esposa. Teóricos dos quadrinhos especulam que ele possa ser uma versão de William Hand, o futuro vilão Mão Negra (líder da Tropa dos Lanternas Negros).
- Sinestro (Ulrich Thomsen): O icônico ex-Lanterna Verde e arquirrival de Hal que, segundo os trailers, aparece encarcerado. Sem um anel próprio e guiado por rancor, ele seria o principal interessado no assassinato.
- Os Caçadores de Homens (Manhunters): Antigos androides policiais criados pelos Guardiões do Universo antes da Tropa que, conforme sugerido no diálogo de Waylon, estão ligados ao vergonhoso segredo enterrado em Rushville.
O truque do backup de memória de 2006
Embora o ator Kyle Chandler e os produtores tenham confirmado que o corpo de Hal Jordan em 2026 está realmente sem vida, a estreia estabeleceu a tecnologia de backups mentais do anel.
Como o holograma de Hal de 2006 (que tem dez anos de memórias a menos e uma personalidade muito mais dócil) ainda existe no sistema, John Stewart poderá interagir com essa inteligência holográfica para ajudá-lo a desvendar o assassinato de sua contraparte física. O showrunner Chris Mundy chegou a citar o clássico filme Ghost: Do Outro Lado da Vida (1990) como grande referência criativa para o show, sugerindo uma interação espiritual e digital contínua entre mentor e aprendiz.
O impacto da decisão e a visão dos criadores
A decisão de revelar a morte de Hal Jordan logo no primeiro episódio dividiu os fãs mais tradicionais, que aguardavam há anos pelo retorno do Lanterna Verde aos live-actions, mas foi defendida com paixão pela equipe criativa da série.
Para o Deadline, o ator Kyle Chandler celebrou a abordagem intrigante:
“Toda a busca [em 2026] estará focada em descobrir o que realmente aconteceu com Hal. Gosto muito da série ser não linear e como eles colocam os fatos em camadas. Quando você cola todas as páginas na parede e tem clareza de onde se encaixa cada cena, dá para mexer nas cenas e descobrir formas de uma forma diferente, ou até identificar muitas pistas escondidas. Dá para se divertir bastante nesse processo, mas dá trabalho.”
O produtor executivo Damon Lindelof explicou à Entertainment Weekly que a morte foi crucial para deixar claro quem é o verdadeiro protagonista do show:
“Embora o show se chame Lanternas e tenha uma estrutura de ‘buddy-cop’, quando você sair desses episódios, estará saindo deles com John Stewart. Queremos que vocês compreendam isso. Queremos que saibam disso desde o início.”
O showrunner Chris Mundy também admitiu o peso da escolha em entrevista à IGN:
“A decisão foi meio grande e assustadora de se comprometer, mas o fato de que eles [a DC Studios] tiveram confiança ou, realmente, fé em nós para fazer isso e tratar com o nível de cuidado que esperamos ter dado, nos sentimos muito de sorte.”
O co-criador e quadrinista Tom King completou ao Collider:
“Este é um show que estamos tentando tornar o mais próximo da realidade, e às vezes você perde as coisas que ama, e às vezes as apostas são tão altas na realidade, e devem ser tão altas em nossa série.”
Com 91% de aprovação inicial no Rotten Tomatoes, Lanternas prova que o novo DCU está disposto a correr riscos genuínos para entregar histórias ricas, imprevisíveis e com consequências reais sobre seu universo de heróis. Os episódios de Lanternas continuam com exibições dominicais na HBO e na plataforma HBO Max.
📋 Ficha Técnica do Episódio
- Título do Episódio: “Pilot” (Episódio 1)
- Série: Lanternas (Lanterns)
- Direção: James Hawes
- Roteiro: Chris Mundy, Damon Lindelof e Tom King
- Plataforma de Exibição: HBO e HBO Max (Max)
- Duração: 56 minutos














