Se você, caro leitor, é do tipo que ouve a palavra “Kraken” e já imagina tentáculos colossais destruindo cidades e navios de guerra em um espetáculo de pura destruição digital, prepare-se para uma experiência… bem diferente.
Dirigido pelo piromaníaco russo Nikolay Lebedev, “Kraken: Terror no Mar” (“Kraken”, 2025), que acaba de estrear no Adrenalina Pura+, promete um épico claustrofóbico de Guerra Fria com monstros gigantes, mas entrega duas horas de um drama familiar soviético arrastado, temperado com decisões científicas bizarras e um protagonista que parece ter sido esculpido em mármore — tanto pela beleza quanto pela total ausência de expressão facial.
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Guerra Fria, submarinos e um molusco com crise de identidade
A trama começa no frio congelante do Oceano Ártico, perto do Polo Norte, onde a dupla de cientistas Julia Brown (Diana Pozharskaya) — uma geóloga sueca com raízes em Omsk que fala um russo perfeito — e seu colega francês Oskar (Anton Rival) estão lançando explosivos na água para fins de “pesquisa científica”. Spoiler: detonar bombas na casa de um cefalópode de 200 metros de comprimento geralmente dá ruim.
Ao mesmo tempo, o submarino experimental ultrassecreto Ataman Yermak, sob o comando do Capitão de Primeiro Escalão Alexander Voronin (Viktor Dobronravov), passa por ali carregando uma superarma nuclear chamada secretamente de “destrua a todo custo” (ou, como o povo carinhosamente apelidou, o “Vsempisets”). A criatura desperta, o Ataman Yermak é severamente danificado e afunda nas profundezas do Mar da Groenlândia.
Para o resgate, a Marinha russa envia o submarino Zapolyarye, sob o comando do Capitão de Segundo Escalão Viktor Voronin (Alexander Petrov), que convenientemente é o irmão caçula do capitão desaparecido. E como drama familiar pouco é bobagem, o Almirante Belousov (Sergei Garmash) escala o temido Contra-Almirante Olshansky (Aleksei Guskov) — conhecido nos bastidores como um verdadeiro “cão de guarda” — para vigiar o jovem comandante.
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Um protagonista de gelo e uma cientista com cabelo de comercial de shampoo
Se a ideia era passar a sensação de frio extremo da Sibéria, o elenco entendeu a missão de forma literal demais. Alexander Petrov, que interpreta o herói Viktor, entrega uma atuação incrivelmente estática. O submarino está prestes a implodir, parafusos estão voando, um monstro marinho gigante está amassando o casco como se fosse uma latinha de refrigerante, e a expressão de Petrov permanece exatamente a mesma: um olhar vago e blasé de quem está apenas esperando a fila do pão andar.
Mas o verdadeiro milagre da cosmética moderna atende pelo nome de Diana Pozharskaya. Após a destruição da estação polar, sua personagem, Julia, passa dias vagando pelo gelo ártico a -25°C, sem abrigo, sem comida e sob ventos cortantes. Quando é finalmente resgatada pelo Zapolyarye, ela surge a bordo com batom impecável, pele radiante e cabelos sedosos, perfeitamente escovados, dignos de um comercial de shampoo de luxo. Enquanto isso, seu colega francês Oskar parece uma legítima pedra de gelo de freezer de bar.
E, claro, temos o inevitável romance instantâneo. Bastam duas cenas para que Julia esqueça o gelo, o namorado e as pesquisas para cair de amores pelo impassível capitão Viktor, que aquece suas mãos com seu “sopro quente” em uma cena que tenta ser erótica, mas só resulta constrangedora para quem assiste.

Física submarina para alunos da pré-escola
Se você entende o mínimo de navegação ou física, recomendo desligar o cérebro antes do play para não ter um aneurisma. “Kraken: Terror no Mar” desafia todas as leis da natureza e do bom senso militar:
- O freio de mão submarino: Em determinado momento, o capitão dá a ordem de parar a embarcação. A hélice para e o submarino simplesmente freia no lugar, instantaneamente, ignorando toda a inércia e as milhares de toneladas de metal. Parecia um motorista de aplicativo parando para pegar passageiro na calçada.
- Parafusos voadores: Sob a pressão das profundezas, o casco externo de aço do submarino resiste bravamente sem fazer barulho, mas os parafusos e rebites das tubulações internas de repente começam a voar como rolhas de champanhe.
- Espiões à vontade: Após resgatar os cientistas estrangeiros (sueca e francês) em plena Guerra Fria, a tripulação simplesmente os deixa passear livremente pelos corredores e entrar na cabine de comando central. Segurança nacional? Protocolo militar? Bobagem, o importante é o amor!
- Os verdadeiros heróis da pátria: No meio de um incêndio no setor de torpedos, com o submarino despencando para o abismo e a ameaça iminente de um colapso nuclear, os cozinheiros da embarcação roubam a cena. Eles continuam preparando o almoço tranquilamente, xingando o Kraken por sacudir a cozinha e catando batatas espalhadas pelo chão. Isso sim é sangue frio!
O monstro que virou coadjuvante de luxo
Com o título de “Kraken”, era de se esperar um festival de destruição de tentáculos. Mas o monstro passa a maior parte do filme escondido no escuro. O que vemos na tela é uma sucessão de tentáculos genéricos de CGI batendo na lataria e, de vez em quando, um olho nublado e esbranquiçado (que faz a criatura parecer uma lula gigante cega de mercado).
O conflito tático entre Viktor (que prefere a furtividade) e o autoritário Olshansky (que quer resolver tudo disparando torpedos) até gera um suspense legal, mas o clímax joga tudo por terra. Ao encontrarem o wreckage do Ataman Yermak, os irmãos sobreviventes decidem ligar a superarma secreta. O resultado? Um feixe de laser gigante que mata o Kraken colossal instantaneamente, sem nenhuma dificuldade dramática. É o equivalente cinematográfico a usar um cheat code no final do jogo.
Ao final do resgate, quando os heróis retornam triunfantes, a maior injustiça do filme é cometida: eles não recebem o tradicional leitão assado oferecido aos marinheiros vitoriosos. Uma lástima!
Veredito: um blockbuster razoável, mas cansativo
Com 134 longos minutos, “Kraken: Terror no Mar” sofre com a falta de ritmo e diálogos expositivos nos quais os personagens literalmente explicam o que vai acontecer com eles a seguir. O diretor Nikolay Lebedev mostra que adora fogos de artifício (como já havia feito em “Flight Crew”), explodindo plataformas de petróleo norueguesas e cenários com gosto, mas falha em criar uma conexão emocional real.
Se você relevar o roteiro bobo, as atuações engessadas e a falta de tela do próprio polvo gigante, a cinematografia de Sergey Machilsky sob a água agrada bastante, lembrando clássicos como “O Segredo do Abismo” de James Cameron. É um passatempo divertido e absurdamente brega para um sábado à tarde, mas passa longe de ser o clássico de monstros que prometia.
Ficha técnica de Kraken – Terror no Mar
| Informação | “Kraken: Terror no Mar” (Rússia, 2025) |
|---|---|
| Direção | Nikolay Lebedev |
| Roteiro | Aleksey Sidorov e Nikolay Lebedev |
| Elenco Principal | Alexander Petrov, Viktor Dobronravov, Aleksei Guskov, Diana Pozharskaya |
| Orçamento | ₽ 1.2 bilhões de rublos |
| Bilheteria | ₽ 1.1 bilhões de rublos |
| Duração | 134 minutos |
| Distribuição (Brasil) | Synapse Distribution / Adrenalina Pura+ |
| Premissa Central | Submarino militar investiga mistério na Guerra Fria e enfrenta criatura colossal despertada por explosivos. |














