Se você acha que o cinema de zumbi já deu tudo o que tinha que dar depois de tantas temporadas arrastadas de The Walking Dead e hordas genéricas de Hollywood, prepare-se para ser atropelado por uma das produções mais audaciosas e adoráveis dos últimos tempos.
O filme Minha Filha é um Zumbi pega a nossa saturação com mortos-vivos, enfia no liquidificador com o melhor do melodrama coreano e entrega um daqueles raros filmes que te fazem rir com a barriga dolorida em um minuto e chorar como um bebê no outro.
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O apocalipse reduzido à mesa de jantar
A grande sacada do diretor Pil Gam-seong — baseado no aclamadíssimo webtoon homônimo de Lee Yoon-chang, que já acumula mais de 500 milhões de visualizações — é não tentar salvar o mundo. Esqueça a cura global imediata, exércitos e teorias conspiratórias. O filme encolhe o apocalipse para dentro de uma humilde casa de interior.
A trama segue Lee Jeong-hwan (Jo Jung-suk), um ex-treinador de tigres que tenta fugir de Seul com sua filha adolescente, Lee Soo-a (Choi Yu-ri), quando o surto zumbi explode. No meio do caos, ela acaba sendo mordida. Mas em vez de meter uma bala na cabeça da menina (como qualquer manual de sobrevivência ditaria), o amor de pai fala mais alto. Ele decide escondê-la na cidade natal da avó e, pasme, começa a usar suas técnicas de adestramento de grandes felinos para tentar reabilitar a garota.
É daí que nasce um dos contrastes cômicos mais absurdos e brilhantes do cinema recente: impedir mordidas, recuperar hábitos e testar reações passam a integrar uma rotina familiar tratada com uma seriedade tão grande quanto seu absurdo.
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K-Pop, Parasita e um gato de respeito
O coração do longa está na química espetacular do elenco. A jovem Choi Yu-ri brilha ao equilibrar o comportamento animalesco de zumbi com pequenos lapsos de inocência e humor de uma adolescente comum, fazendo com que cada pequeno avanço dela pese toneladas no nosso emocional. Jo Jung-suk entrega uma atuação que é pura comédia física e desespero paternal.
E, para os cinéfilos de plantão, o filme traz um reencontro delicioso: as atrizes Lee Jung-eun (a icônica vovó Kim Bam-sun, que lida com a neta zumbi da forma mais prática e sem frescuras possível) e Cho Yeo-jeong (como Shin Yeon-hwa, a antiga paixão do protagonista e atual justiceira anti-zumbi), que trabalharam juntas no oscarizado Parasita. Lee Jung-eun praticamente rouba todas as cenas com seu timing cômico afiado de matriarca durona.
Mas, sejamos honestos, quem realmente manda no filme é Geumdong, o gato de pelagem amarela (“cheese tabby”) que interpreta Aeyongyi (ou Meowmeow). Ele é um ator de verdade, sem truques de CGI desnecessários nas cenas de interação diária (embora efeitos de computação gráfica tenham sido usados apenas nas acrobacias perigosas do telhado). Suas expressões entediadas e reações de “humano de quatro patas” quebram a tensão e transformam o felino em um alívio cômico memorável.
E o que falar da trilha sonora? A escolha de “No. 1”, o hino de 2002 da diva do k-pop BoA, é um gol de placa. A música, que a jovem ensaiava antes do surto, vira a âncora de sua consciência zumbificada. Ver o pai tocando a canção no celular para ver a filha ensaiar passos desengonçados de dança é de uma delicadeza que mistura a bizarrice da comédia pastelão com um melodrama arrebatador.

Montanha-russa de tons sem concessões
Assistir a Minha Filha é um Zumbi é como ver um editor maluco misturando o ritmo frenético e assustador de Extermínio com a caoticidade de um musical de terror de zumbis. O longa não suaviza os momentos de terror para agradar gregos e troianos: quando os zumbis atacam, a mixagem de som eleva os ossos quebrando e a tensão vai ao limite. Por outro lado, ele não tem vergonha nenhuma de ser uma comédia familiar escrachada que coloca idosos para dançar ao som de 2NE1.
Nem tudo funciona com a mesma eficiência, claro. O filme se estende um pouco além da conta no segundo ato, prolongando dramas que já estavam bem resolvidos. Além disso, a introdução de certos conflitos e a revelação de informações cruciais no terceiro ato parecem um pouco enroladas ou apressadas, quase como um vilão tirado da cartola.
No entanto, a conclusão oferece uma bela luz no fim do túnel (com um desfecho cheio de esperança se comparado ao final trágico do webcomic original), nos deixando com o coração quentinho e a sensação de que o amor sobrevive à morte.
Dublagem brasileira como cereja do bolo
Para nós, brasileiros, a experiência ganha um tempero especial. A distribuição da O2 Play e do Omelete Company trouxe uma dublagem nacional incrível comandada por Roberjane de Andrade, com pontas divertidíssimas da galera do próprio Omelete, como Marcelo Forlani, Marcelo Hessel, Bruna Nobrega e João Jedi. Ouvir a jovem zumbi chamar pelo pai em bom português cria uma proximidade única que encurta qualquer barreira cultural.
No fim, Minha Filha é um Zumbi é um lembrete revigorante de que o cinema ainda pode arriscar, fugir das fórmulas pasteurizadas de Hollywood e vencer apenas apostando na inteligência e no coração do espectador. Vá ao cinema de guarda baixa e, por favor, leve os lenços.
Ficha técnica do filme Minha Filha é um Zumbi
| Especificação Técnica | Informações do Filme |
|---|---|
| Título Original | 좀비딸 (Zombietal / My Daughter Is A Zombie) |
| Título Nacional | Minha Filha é um Zumbi |
| Direção | Pil Gam-seong (também grafado como Pil Gam-sung) |
| Roteiro | Lee Yun-chang, Kim Hyun e Park Jung-sin (baseado no webtoon de Lee Yoon-chang) |
| Gênero | Comédia, Drama (com fortes elementos de Terror e Suspense) |
| Duração | 114 minutos |
| Classificação Indicativa | 14 anos |
| Ano de Lançamento Original | 2025 (Coreia do Sul) |
| Estreia nos Cinemas do Brasil | 3 de setembro de 2026 |
| Distribuição Nacional | O2 Play e Omelete Company |
| Elenco Principal | • Cho Jung-seok como Lee Jeong-hwan• Choi Yu-ri como Lee Soo-a (ou Su-a)• Lee Jung-eun como Kim Bam-sun (a avó)• Cho Yeo-jeong como Shin Yeon-hwa• Yoon Kyung-ho como Jo Dong-bae• Geumdong-i como o gato Aeyongyi / Meowmeow• Jeon Su-ji, Kim Beong-choun e Jeong So-jeong |
| Direção de Dublagem (BR) | Roberjane de Andrade |
| Vozes Especiais na Dublagem | Marcelo Forlani, Marcelo Hessel, Bruna Nobrega e João Marcelo Cunha (João Jedi) |














