Às vezes, a gente só precisa de um filme que não grite com a gente, mas que sente ao nosso lado e nos conte uma história baixinho. O Livro de Colorir (Color Book), estreia do diretor e roteirista David Fortune, é exatamente essa experiência.
Longe dos melodramas exagerados e das reviravoltas mirabolantes, a obra é um retrato silencioso e de uma sensibilidade ímpar sobre o que acontece no “dia seguinte” ao fim do mundo de alguém. Chegando ao catálogo da Netflix, o longa constrói uma jornada íntima sobre luto, resiliência e, acima de tudo, as miudezas que fortalecem o laço inquebrável entre um pai e seu filho.
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Sinopse
A trama nos apresenta a Lucky (William Catlett), um pai que tenta juntar os cacos após a morte repentina de sua esposa, Tammy (Brandee Evans), em um trágico acidente de carro. Agora pai solo, ele precisa equilibrar a dor da perda com a rotina de cuidados do seu filho de 11 anos, Mason (Jeremiah Alexander Daniels), um garoto com síndrome de Down.
Em uma tentativa de criar uma nova memória feliz e trazer algum respiro para os dois, Lucky decide levar o menino ao seu primeiro jogo de beisebol do Atlanta Braves. Porém, o que era para ser um passeio simples rapidamente se transforma em uma odisseia cheia de pequenos (e desesperadores) contratempos pelas ruas e transportes públicos de Atlanta.
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Crítica O Livro de Colorir
O peso e a beleza do dia a dia
O que mais chama a atenção em O Livro de Colorir é que o filme não usa o jogo de beisebol como uma missão de vida ou morte para forçar emoção. O roteiro de David Fortune foca na rotina: fazer waffles de manhã, escovar os dentes, ensinar o garoto a pronunciar a palavra “roxo” em inglês (“purple”) e tentar vestir uma camisa de botão. O luto aqui não é mostrado com grandes discursos ou lágrimas aos prantos; ele está no cansaço nos olhos de Lucky, na ausência dentro de casa e no esforço exaustivo de fingir que tudo está sob controle para proteger o filho.
Quando o carro recém-comprado quebra ou quando eles se perdem no metrô, a frustração é palpável. Qualquer um que já teve que cuidar de uma criança pequena em meio ao caos urbano vai se identificar com o desespero de Lucky. A jornada é menos sobre chegar ao estádio e mais sobre descobrir como seguir em frente quando a vida te tira o chão.

Atuações que transbordam verdade
O coração do filme bate graças à química absurda entre William Catlett e o jovem Jeremiah Alexander Daniels. Catlett entrega uma performance muito contida e interna. Ele não tenta ser o “pai perfeito e santificado”; ele se frustra, perde a paciência, mas sempre respira fundo e tenta de novo com um amor incondicional que emociona sem esforço. A brincadeira silenciosa de flexionar os músculos como “homens fortes” que os dois fazem em momentos de tensão é de quebrar o coração.
Já Jeremiah é uma força da natureza. Uma das grandes vitórias de O Livro de Colorir é não tratar o garoto apenas como um símbolo de sua deficiência. Mason é teimoso, curioso, frustrante e incrivelmente afetuoso — ele é, antes de tudo, uma criança de onze anos agarrada aos seus lápis de cor. A cena em que ele confessa “sinto falta da mamãe” mostra uma capacidade de entrega gigantesca do jovem ator.
O poder do preto e branco em Atlanta
A escolha de rodar o filme em preto e branco pelo diretor de fotografia Nikolaus Summerer poderia parecer presunçosa, mas faz total sentido quando você entra na história. A falta de cores retira qualquer distração. Nossos olhos vão direto para as expressões faciais, para a textura das mãos e para a conexão entre os personagens.
Além disso, a cidade de Atlanta ganha um papel de destaque. Longe dos cartões-postais brilhantes, vemos a metrópole real, crua, com seus transportes públicos (a rede MARTA), ferros-velhos e bairros modestos. É uma cidade que trabalha e que serve de testemunha silenciosa para o esforço daquela família.
Resiliência e o mundo através do Livro de Colorir
Uma das mensagens mais bonitas do longa mora justamente em seu título. Após um dia cheio de fracassos e dores de cabeça, Lucky observa o caderno onde Mason desenhou o tempo inteiro. O que para o pai foi um dia exaustivo e cheio de barreiras, nas páginas de Mason foi registrado como uma grande aventura repleta de personagens fascinantes. O garoto colore fora das linhas, lembrando a Lucky (e a nós) que não precisamos viver presos às expectativas ou aos planos que deram errado. O que importa é seguir caminhando.
Filme O Livro de Colorir é bom?
O Livro de Colorir é daqueles filmes que ficam na nossa cabeça por dias. Ele não entrega soluções mágicas para o luto e nem finge que a vida fica perfeita após um trauma. Pelo contrário, é uma celebração da paciência, do esforço invisível e do amor teimoso.
Sob a direção certeira de David Fortune, que prefere os pequenos detalhes aos grandes clichês, somos presenteados com uma obra intimista e profundamente humana. Se você gosta de dramas sinceros que aquecem a alma e deixam um nó na garganta, vá dar o play. É, sem dúvida, uma das produções mais bonitas que você verá no streaming este ano.
Onde assistir ao filme O Livro de Colorir?
- Netflix
Trailer de O Livro de Colorir (2026)
Elenco de O Livro de Colorir, da Netflix
- William Catlett (Lucky)
- Jeremiah Alexander Daniels (Mason)
- Brandee Evans (Tammy)
- Kia Shine Coleman (Rico)
- Terri J. Vaughn (Robyn)
- Njema Williams (Meech)
Ficha Técnica
- Título: Color Book
- Direção e Roteiro: David Fortune
- Elenco Principal:
- Fotografia: Nikolaus Summerer
- Duração: 114 minutos
- Gênero: Drama
- Lançamento: 19 de junho de 2026


















