Adaptar uma obra literária ou teatral icônica para o cinema é sempre uma faca de dois gumes, especialmente quando o texto original carrega a fúria política e a densidade histórica de Amiri Baraka. Lançada originalmente em meados dos anos 1960, no auge da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, a peça Dutchman chocou ao escancarar as entranhas da opressão racial.
Sessenta anos depois, o diretor Andre Gaines assume a ousada tarefa de trazer essa ferida aberta para a contemporaneidade com o longa-metragem Desejo em Manhattan (cujo título original preserva o nome da peça, The Dutchman).
O filme, que estreou no festival SXSW em 2025 e chega ao streaming Filmelier+ em agosto de 2026, tenta construir uma ponte meta-narrativa entre o passado segregacionista e o presente das redes sociais e das políticas de respeitabilidade. No entanto, a ambiciosa travessia de Andre Gaines acaba por revelar rachaduras profundas na sua própria estrutura de discurso.
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Sinopse
Na trama, acompanhamos Clay (interpretado por André Holland), um empresário negro bem-sucedido que parece viver sob uma constante nuvem de desconforto e estresse. Seu casamento com Kaya (Zazie Beetz) está por um fio após a revelação de uma traição por parte dela. Em meio a sessões de terapia de casal com o enigmático Dr. Amiri (Stephen McKinley Henderson), que sugere de forma provocativa que Clay “empate o jogo” também sendo infiel, o protagonista se vê psicologicamente fragilizado.
No caminho de volta para casa, após ser submetido a uma revista “aleatória” de sua mochila por policiais no metrô de Nova York, Clay embarca no vagão e encontra Lula (Kate Mara). O que começa como um flerte sensual e agressivo por parte da misteriosa mulher branca logo escala para um jogo doentio de racismo frontal, chantagens e manipulação psicológica, ameaçando não apenas a sanidade e o casamento de Clay, mas a sua própria sobrevivência.
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Crítica do filme Desejo em Manhattan
O peso das metáforas e o anacronismo do texto
O maior trunfo e, ao mesmo tempo, o calcanhar de Aquiles de Desejo em Manhattan reside na sua fidelidade ao texto de Amiri Baraka. Os corroteiristas Andre Gaines e Qasim Basir optam por manter muito do lirismo e dos diálogos originais. Ouvir falas carregadas de gírias e expressões dos anos 1960 na Nova York contemporânea gera um estranhamento gritante; o texto parece datado e carece da sutileza com que o preconceito sistêmico e passivo-agressivo opera hoje na sociedade. Lula berra insultos racistas frontais e grotescos que, embora tivessem um impacto revolucionário em 1964, hoje soam teatrais demais para um suspense que se pretende realista e psicológico.
Além disso, a direção de Andre Gaines peca pela total falta de sutileza visual. O filme se afoga em uma overdose semântica de metáforas mastigadas. Quando Clay desce ao metrô, o diretor altera a paleta de cores para um verde artificial que remete diretamente a The Matrix; as paredes do vagão exibem cartazes publicitários com frases óbvias como “Rompa o ciclo”; e Lula morde ruidosamente uma maçã, numa analogia exaustiva ao pecado original e à figura de Eva. Não bastasse isso, a personagem guarda objetos de feitiçaria em sua casa e é retratada quase como uma criatura mística, uma súcubo que suga a energia vital do protagonista. O filme parece não confiar na capacidade do espectador de decifrar as entrelinhas.

Crítica racial que esbarra no machismo
O ponto mais controverso da adaptação de Andre Gaines e Qasim Basir é a forma como o discurso racial de emancipação do homem negro é construído às custas da depreciação das figuras femininas. Há uma dificuldade gritante em desvencer a crítica ao racismo de uma perspectiva sexista. Para que Clay permaneça como uma vítima inteiramente virtuosa e simpática aos olhos do público, o roteiro usa as mulheres como bodes expiatórios e ferramentas de sua ruína.
Kaya, a esposa, é resumida à traição leviana que desencadeia a crise de masculinidade de Clay. Lula, por sua vez, personifica a histeria feminina e a manipulação mais perversa, ameaçando mentir sobre um estupro e chantageando o protagonista com um frasco de sêmen.
Ao associar a dor histórica e legítima da opressão racial à ideia de que as mulheres contemporâneas possuem um “trunfo” injusto de vulnerabilidade para destruir a vida de homens casados, os realizadores caem em uma armadilha ideológica perigosa. A autonomia feminina é sacrificada em prol do debate racial, relegando as mulheres ao campo do hormonal e do puramente sexual, enquanto o homem mantém o monopólio da sensatez e da razão.
Atuações viscerais em uma arena psicológica
Se o texto e as escolhas temáticas tropeçam, o elenco segura o rojão com unhas e dentes. André Holland entrega uma atuação espetacular, construindo um Clay contido, cuja desesperança e cansaço se manifestam muito mais em olhares acuados e no desconforto corporal do que em explosões de fúria. Ele representa com precisão cirúrgica a “dupla consciência” descrita por W. E. B. Du Bois, o peso do homem negro de negócios que precisa policiar seus passos para exercer sua liberdade em um espaço que não o aceita plenamente.
Kate Mara é um verdadeiro furacão na pele de Lula. Sua personagem é uma ameaça imprevisível, uma femme fatale que transita entre a sedução hipnotizante e o escárnio racista em fração de segundos. O embate físico e psicológico entre os dois transforma o ambiente fechado do metrô em um ringue sufocante, amparado por um design de som excelente e uma montagem descolada de Joel Viertel que acentua a sensação de paranoia e desorientação de Clay.
A participação de Stephen McKinley Henderson como o terapeuta Dr. Amiri — que funciona de maneira meta-teatral como um alter ego do próprio dramaturgo Amiri Baraka regendo o destino do herói — injeta um tempero kubrickiano que mantém o espectador curioso, embora confuso.
Desejo em Manhattan é um bom filme?
Desejo em Manhattan é um experimento corajoso e esteticamente bem acabado, mas que falha em equilibrar suas muitas ambições políticas, filosóficas e de gênero. Ao tentar atualizar um clássico dos direitos civis, o diretor Andre Gaines acaba tropeçando em uma linguagem anacrônica e em um retrato problemático da emancipação feminina.
O filme, que decide romper com o desfecho trágico original para oferecer uma sobrevivência simbólica a Clay, acaba parecendo um manifesto político enfraquecido pela sua própria exposição didática. Vale a pena ser assistido pelo duelo eletrizante de atuações entre André Holland e Kate Mara, mas deixa a incômoda sensação de que a potência de seu material de origem merecia uma tradução mais refinada para os dilemas sutis do século XXI.
Trailer do filme Desejo em Manhattan
Elenco de Desejo em Manhattan (2025)
- André Holland (Clay)
- Kate Mara (Lula)
- Zazie Beetz (Kaya)
- Stephen McKinley Henderson (Dr. Amiri)
- Aldis Hodge (Warren)
Ficha técnica
- Título nacional: Desejo em Manhattan
- Título original: The Dutchman
- Ano de lançamento: 2025 / 2026 (Estreia oficial no Filmelier+ em 6 de agosto de 2026)
- País de origem: EUA
- Gênero: Suspense / Drama
- Duração: 88 minutos
- Direção: Andre Gaines
- Roteiro: Andre Gaines e Qasim Basir (baseado na peça de Amiri Baraka)
- Classificação indicativa: 14 anos

















