Se você é do tipo que gosta de sair do cinema com a cabeça a mil e um nó no estômago, o cinema asiático raramente decepciona. O Sol Nasce Para Todos (do original The Sun Rises On Us All ou Ri Gua Zhong Tian), o mais recente drama slow-burn do diretor Cai Shangjun, é exatamente esse tipo de experiência.
O filme, que fez bastante barulho no Festival de Veneza e garantiu o cobiçado prêmio de Melhor Atriz para Xin Zhilei, chega aos cinemas brasileiros no dia 25 de junho de 2026 pela Synapse Distribution. Mas já deixo o aviso: não espere um romance água com açúcar; a pegada aqui é densa, desconfortável e muito realista.
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Sinopse
A trama gira em torno de Meiyun (Xin Zhilei), uma mulher na casa dos 30 anos que tenta manter a vida nos trilhos enquanto administra uma lojinha de roupas que não vai nada bem e lida com uma gravidez complicada. O filho é de seu amante casado, Qifeng (Feng Shaofeng), que vive enrolando para assumir a relação.
A reviravolta acontece quando, durante uma ida ao hospital, ela esbarra em um grande fantasma do passado: Baoshu (Zhang Songwen), seu ex-namorado, que acabou de sair da prisão e está tratando um câncer de estômago em estágio avançado. O grande e devastador segredo que os une é que Baoshu passou os últimos cinco anos atrás das grades assumindo a culpa por um atropelamento com morte que, na verdade, foi cometido por Meiyun. Esse reencontro inusitado reacende uma dinâmica complexa e arrasta os dois para um turbilhão de dívidas emocionais e palavras não ditas.
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Crítica do filme O Sol Nasce Para Todos
O peso da culpa e do ressentimento
O maior acerto de O Sol Nasce Para Todos é a forma brilhante com que subverte aquele velho clichê do parceiro que se sacrifica por amor. Aqui não existe romantização cega. Baoshu não volta para a tela como um mártir heróico; pelo contrário, a prisão e a doença o deixaram rancoroso, magoado e, em alguns momentos, capaz de atitudes abusivas e chocantes contra a ex.
Do outro lado da moeda está Meiyun, que vive tão sufocada por essa dívida moral que a própria culpa vira um escudo, ou melhor, a única força motriz que a faz continuar vivendo. O longa explora a fundo a complexidade dessa relação construída à base do tormento, mostrando como, muitas vezes, a hostilidade vira a única linguagem possível de intimidade e carinho entre duas pessoas que não sabem lidar com o passado.

Protagonistas brilhantes
A protagonista Xin Zhilei entrega a alma na tela e mostra que o prêmio em Veneza foi mais do que merecido. Ela constrói uma Meiyun intensa e opaca, que prende nossa atenção com olhares e pequenos trejeitos mesmo carregando quase todo o peso emocional do filme nas costas.
Zhang Songwen não fica para trás, entregando um Baoshu fechado e amargurado. A atuação dele chega a “incomodar” de tão realista, refletindo um ressentimento quase palpável ao evitar até mesmo olhar nos olhos da ex-companheira.
O ponto que deixa a desejar no elenco é a condução do arco de Feng Shaofeng (Qifeng). Embora os atores tenham uma química boa e ele cumpra bem o papel do amante acomodado, o personagem some da história de maneira um tanto abrupta após o primeiro ato, o que prejudica a estrutura narrativa dali para frente.
Ritmo, cinza e controvérsias
Visualmente, o diretor Cai Shangjun mergulha em um neo-noir emocional, usando cenários de Guangzhou marcados pela simplicidade, desigualdade e aquele tom acinzentado de sufoco. Tudo parece meio precário, desde o sistema de saúde até a fábrica de roupas decadente, refletindo perfeitamente o vazio existencial dos personagens.
Apesar da atmosfera certeira, o filme não é imune a falhas. O roteiro esconde o passado dos protagonistas por muito tempo — demora quase 40 minutos para descobrirmos quem realmente é Baoshu e por que eles estão agindo daquele jeito, o que gera uma confusão desnecessária no início.
Além disso, a segunda metade do longa perde o ritmo e pode ser considerada arrastada, culminando em um desfecho radical e exagerado que pode pegar muita gente de surpresa. Para os mais exigentes, a mistura de drama realista, suspense psicológico e pitadas de melodrama talvez torne o longa instável e, em alguns momentos, forçado emocionalmente.
O Sol Nasce Para Todos é bom?
No fim das contas, O Sol Nasce Para Todos é um filme imperfeito e amargo, que foca na dificuldade gigantesca de seguir em frente quando se carrega cicatrizes que o tempo não consegue apagar. Não é uma sessão tranquila nem recomendada para quem busca histórias de redenção fáceis.
Porém, se você curte um bom e instigante drama asiático que te faz refletir sobre as zonas cinzentas da moralidade humana e não liga para uma narrativa de ritmo mais lento, a experiência compensa o ingresso.
Onde assistir ao filme O Sol Nasce para Todos
O filme estreia nesta quinta-feira, 25 de junho de 2026, exclusivamente nos cinemas brasileiros.
Trailer de O Sol Nasce para Todos (2026)
Elenco do filme O Sol Nasce para Todos
- Xin Zhilei (Meiyun)
- Zhang Songwen (Baoshu)
- Feng Shaofeng (Qifeng)
Ficha Técnica
- Título Original: Ri Gua Zhong Tian / The Sun Rises On Us All
- Direção: Cai Shangjun
- Roteiro: Han Nianjin e Cai Shangjun
- Duração: 133 minutos
- Distribuição no Brasil: Synapse Distribution
- Data de Estreia no Brasil: 25 de junho de 2026















