O cinema brasileiro alcançou mais um feito de destaque no circuito internacional. A coprodução Itália-Brasil “Retorno a Buenos Aires”, dirigida pelo cineasta Marco Bechis, foi anunciada na seleção oficial da edição de 2026 do Festival de Cinema de Veneza, um dos eventos mais prestigiados da sétima arte no mundo. O filme concorre diretamente ao cobiçado Leão de Ouro.
Com roteiro assinado por Marco Bechis em colaboração com Vijaya Bechis Boll, a produção é liderada no Brasil pela produtora brasiliense 34 Filmes, do produtor Patrick de Jongh, em parceria com a Sombumbo, de André Ristum, e a Neocórtex, de Cibele Amaral. Do lado italiano, a aliança reúne gigantes do setor como Fandango, 39Films, Karta Film e a Rai Cinema.
No elenco principal, o ator italiano Adriano Giannini interpreta o protagonista, acompanhado pelos brasileiros Paula Cohen e Eduardo Hoy, além de nomes de destaque do cinema argentino como Ana Celentano, Vero Gerez e Olivia Nuss.
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O fantasma da culpa e da sobrevivência: Qual é a história de “Retorno a Buenos Aires”?
Ambientado em 2008, o enredo acompanha Mariano Guerra (Adriano Giannini), que viveu os últimos 33 anos na Itália e é obrigado a retornar à Argentina. O motivo é encarar o passado de frente: ele precisa depor no julgamento dos ex-militares que o sequestraram, torturaram e escravizaram durante a ditadura militar argentina — regime repressivo que, em 1978, usou a realização da Copa do Mundo de Futebol como cortina de fumaça para ocultar crimes de Estado.
Acomodado nas instalações do Ministério da Justiça em Buenos Aires junto a outros sobreviventes, Mariano reecontra companheiros de cativeiro enquanto aguarda a convocação do tribunal. O reencontro traz à tona memórias e dilemas morais enterrados há décadas, expondo uma ferida que sentença alguma é capaz de cicatrizar completamente.
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A dimensão pessoal: o sequestro do diretor Marco Bechis
A narrativa guarda laços profundos com a própria biografia do diretor Marco Bechis. Nascido em Santiago do Chile, filho de mãe chileno-francesa e pai italiano, Bechis cresceu entre São Paulo e Buenos Aires. Em 19 de abril de 1977, aos 20 anos, ele foi sequestrado e mantido preso por quatro meses no centro clandestino de detenção Club Atlético, durante o regime militar argentino, até ser expulso do país por razões políticas.
O encerramento das filmagens do longa coincidiu simbolicamente com os 50 anos do golpe militar na Argentina (março de 1976). Apesar do caráter pessoal da vivência, o cineasta faz questão de ressaltar que a obra não é uma biografia direta, mas sim uma busca pela verdade por meio da ficção.
Em depoimento emocionante, Marco Bechis revelou o motor existencial por trás do longa:
“Com ‘Retorno a Buenos Aires’, volto à Argentina 50 anos depois. Volto com uma história que não é a minha, mas que nasce de uma ferida que conheço. Eu também fui sequestrado durante a ditadura argentina, mas Mariano não sou eu. Escolhi a ficção porque, às vezes, ela é a única forma de se aproximar de uma verdade que a memória, sozinha, não consegue contar. Durante muitos anos pensei que o cinema tivesse me libertado dessa pergunta. Percebi que não era assim. Há muitos anos uma questão me acompanha: o que significa sobreviver? Não apenas salvar-se, mas continuar vivendo quando outros não puderam fazê-lo. Mariano retorna a Buenos Aires para depor em um julgamento. Por meio dele, procurei contar esse momento em que o passado volta a ocupar o presente. Busquei uma direção essencial, sem explicar nem julgar. Interessavam-me os silêncios, os rostos, o tempo da espera, os lugares que conservam as marcas do que aconteceu. No fundo, este filme fala de uma única coisa: da culpa do sobrevivente, que persists”, declarou o diretor Marco Bechis.

Feito inédito para o Centro-Oeste e bastidores da produção
A realização do filme demandou um longo planejamento técnico e logístico: foram três meses de pré-produção, quatro semanas de filmagens no Brasil — com locações em Porto Alegre — e três semanas de gravações em Turim, no norte da Itália.
A viabilização financeira no Brasil ocorreu por meio do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), gerido pelo BRDE através do Edital de Coprodução Internacional de 2024. O produtor Patrick de Jongh, da 34 Filmes, reforçou a relevância de políticas públicas regionalizadas para a inserção do país no mercado global:
“A política de descentralização dos investimentos em cinema mais uma vez mostra resultados, e confirma a necessidade deste tipo de investimento para que mais regiões e realizadores brasileiros possam marcar presença em grandes eventos internacionais como o Festival de Veneza“, ressaltou Patrick de Jongh.
A produtora Cibele Amaral, da Neocórtex, celebrou a conquista histórica para o audiovisual fora do eixo tradicional do Sudeste:
“É uma grande alegria fazer parte da história do cinema brasileiro, tendo produzido o primeiro filme da região CONNE (região centro-oeste, norte e nordeste) selecionado para a competição principal do Festival de Veneza na história deste evento”, afirmou Cibele Amaral.
A colaboração entre o produtor André Ristum (da Sombumbo) e Marco Bechis remonta a parcerias anteriores, como no longa “Terra Vermelha”. Ristum relembrou o momento em que recebeu o texto e decidiu batalhar pelo projeto:
“Marco me mandou esse roteiro alguns anos atrás, e fiquei muito impactado. Somos próximos desde a produção do ‘Terra Vermelha’ e pra mim não era aceitável que um talento como ele ficasse tantos anos sem filmar. Levei o projeto para a 34 Filmes e fiquei muito feliz com a recepção e parceria deles para fazer o projeto dar certo”, explicou André Ristum.
O projeto também se destacou pela presença expressiva de talentos técnicos brasileiros na ficha técnica, como na direção de arte de Eduardo Antunes, na produção de elenco de Alessandra Tosi, no figurino assinado por Coca Serpa, na produção executiva de André Ristum e Patrick de Jongh e na função de line producer desempenhada por Beto Rodrigues.
Quem está no elenco de “Retorno a Buenos Aires”?
O elenco conta com o ator italiano Adriano Giannini no papel do protagonista Mariano Guerra. Do lado brasileiro, destacam-se Paula Cohen (como a Juíza Desideria Losada) e Eduardo Hoy (como o jovem Mariano Guerra). O elenco reúne também as argentinas Ana Celentano, Vero Gerez e Olivia Nuss.
Ficha técnica
- Título: Retorno a Buenos Aires
- Ano: 2026
- Países de Origem: Itália / Brasil
- Gênero: Drama / Histórico
- Direção: Marco Bechis
- Roteiro: Marco Bechis em colaboração com Vijaya Bechis Boll
- Produção: Patrick de Jongh, Cibele Amaral, André Ristum, Domenico Procacci, Alfredo Federico, Marco Bechis, Simona Banchi e Laura Paolucci
- Produtoras (Brasil): 34 Filmes, Sombumbo, Neocórtex
- Produtoras (Itália): Fandango, 39Films, Karta Film, Rai Cinema
- Financiamento: FSA (Fundo Setorial do Audiovisual) / BRDE
- Direção de Fotografia: Fabrizio La Palombara
- Direção de Arte: Mario Scarzella e Eduardo Antunes
- Montagem: Jacopo Quadri e Nicolò Tettamanti
- Música Original: Guglielmo Diana
- Figurino: Sara Giovene e Coca Serpa
- Som Direto: Marco Fiumara e Ray Fisch
- Produção Executiva: André Ristum, Patrick de Jongh, Alfredo Federico e Attilio Moro
- Line Producers: Beto Rodrigues e Edoardo Rossi
Elenco Principal:
- Adriano Giannini como Mariano Guerra
- Ana Celentano como Amalia Mendez
- Veronica Gerez como Evelyn
- Olivia Nuss como Muñeca
- Adrian Fondari como Doctor K
- Marcelo Chaparro como Advogado Enrique Caseros
- Paula Cohen como Juíza Desideria Losada
- Vijaya Bechis Boll como Sofia Guerra
- Marcela Serli como Advogada dos Militares
- Maria Layla Fernandez como Promotor público
- Eduardo Hoy como Mariano Guerra (Jovem)

















