Sabe aquele tipo de documentário que te deixa com um nó no estômago não por mostrar sangue ou explosões, mas por esfregar na sua cara como a maldade pode se disfarçar de rotina? “Um Zé Ninguém Contra Putin” (vencedor do Oscar, do BAFTA e do Prêmio Especial do Júri em Sundance) é exatamente essa experiência.
A força da obra é tamanha que até o próprio Kremlin, através de seu porta-voz Dmitry Peskov, preferiu dar a desculpa de que “não assistiu ao filme” para não ter que comentar a sua vitória. Longe de ser apenas mais um relato sobre a resistência ao governo russo, o longa foca na raiz do problema: como se constrói a mentalidade de uma nação em guerra, começando pelas mentes mais maleáveis de todas – as crianças.
Sinopse
A história acompanha Pavel “Pasha” Talankin, um professor carismático e querido por seus alunos, que atua também como o cinegrafista dos eventos de uma escola primária em Karabash, uma cidade no interior da Rússia infame por ser um dos locais mais poluídos do mundo. Pasha é o tipo de cara que cria um oásis para os alunos desajustados em sua salinha decorada. Porém, quando Vladimir Putin invade a Ucrânia e instaura um novo currículo de “educação patriótica”, o trabalho de Pasha muda.
Aproveitando-se de sua função de registrar as atividades escolares para o governo, ele passa a filmar secretamente o processo de militarização das crianças e a repetição cega de propagandas pelos professores. Com a ajuda do diretor dinamarquês David Borenstein, as imagens são transformadas neste documentário visceral, culminando no exílio de Pasha do seu próprio país.
Crítica do documentário Um Zé Ninguém contra Putin
A banalidade do absurdo escolar
O grande trunfo de “Um Zé Ninguém Contra Putin” é como ele capta a normalização gradual de coisas grotescas. O filme não precisa de cenas de campo de batalha; a trincheira de Pasha é o corredor do colégio. É assustador e revoltante assistir a crianças empunhando armas quase do tamanho delas, ou ver um professor de história dizendo com a maior naturalidade que os europeus logo andarão a cavalo por conta das sanções.
A cena mais emblemática (e gelada) do documentário acontece quando mercenários do grupo Wagner visitam a escola. Um garoto de uns 11 anos pega um rifle, ajeita a postura e mira diretamente para a lente da câmera de Pasha. É nesse momento que o espectador entende a dimensão do que está em jogo. Como bem observa uma das críticas, a adesão ao conflito não é forçada guela abaixo de um dia para o outro; ela é construída no cotidiano até virar um reflexo automático e deixar de ser questionada.

O homem, a câmera e a ética
Pasha é um protagonista improvável e cheio de camadas. A sua leveza inicial cria um contraste absurdo com o cenário cinzento e opressor de Karabash. Mas sua jornada traz um debate ético importante: as pessoas que aparecem no filme (professores, crianças, sua própria mãe) não sabiam que estavam participando de um documentário que iria para o mundo todo. Para muitos, ele cruzou uma linha, mas Pasha se defende dizendo que fez um “relatório para o futuro”, para que as próximas gerações entendam como uma sociedade inteira se tornou agressiva.
Ainda assim, como contador de sua própria história, ele tem suas limitações. O documentário perde um pouco de tração quando Pasha tenta filosofar em seus diários de vídeo ou monólogos. Ele parece lutar para articular em palavras a complexidade do que está vivendo. Fica claro que Pasha não é um narrador genial, mas sim um observador brilhante. Quando ele cala a boca e deixa a câmera registrar as crianças desviando o olhar por medo de serem vistas com “o cara da bandeira da democracia”, a mensagem atinge em cheio.
Valor histórico acima do engenho narrativo
Do ponto de vista puramente cinematográfico, o filme escorrega um pouquinho. Há uma certa pegada didática e um maniqueísmo quase ingênuo na montagem e na trilha sonora em alguns momentos, o que acaba simplificando questões que a própria imagem já mostrava serem muito mais complexas. O documentário também sofre para extrair conversas genuinamente íntimas, seja com a sua aluna Masha ou com sua mãe (que, aliás, reage à angústia dele sobre a guerra oferecendo doces).
Mas a verdade é que essas falhas técnicas se tornam minúsculas perto da coragem de expor imagens que o Estado russo jamais permitiria que vazassem. Pasha brigou para manter cenas cruciais no corte final, como a reunião em que os professores admitem a portas fechadas que as notas dos alunos estão despencando por causa da doutrinação – uma honestidade que jamais seria dita em público.
Conclusão
No fim das contas, “Um Zé Ninguém Contra Putin” é muito mais do que um filme sobre um dissidente russo; é um estudo universal sobre como o fanatismo é injetado na veia de uma sociedade através das escolas. É um documento histórico inestimável que cruza fronteiras e nos faz pensar na nossa própria realidade.
O diretor David Borenstein resumiu perfeitamente em seu discurso no Oscar: “Você perde seu país por meio de inúmeros pequenos atos de cumplicidade”. Ao documentar essa cumplicidade silenciosa, Pasha pagou o preço do exílio, provando que, às vezes, um “zé ninguém” munido de uma câmera e de uma consciência moral faz muito mais barulho do que um exército inteiro. Imperdível.
















