Um Zé Ninguém contra Putin crítica do filme documentário 2025 - Flixlândia

Crítica | O absurdo normalizado: por trás das câmeras do vencedor do Oscar ‘Um Zé Ninguém contra Putin’

Foto: Synapse Distribution / Divulgação
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Sabe aquele tipo de documentário que te deixa com um nó no estômago não por mostrar sangue ou explosões, mas por esfregar na sua cara como a maldade pode se disfarçar de rotina? “Um Zé Ninguém Contra Putin” (vencedor do Oscar, do BAFTA e do Prêmio Especial do Júri em Sundance) é exatamente essa experiência.

A força da obra é tamanha que até o próprio Kremlin, através de seu porta-voz Dmitry Peskov, preferiu dar a desculpa de que “não assistiu ao filme” para não ter que comentar a sua vitória. Longe de ser apenas mais um relato sobre a resistência ao governo russo, o longa foca na raiz do problema: como se constrói a mentalidade de uma nação em guerra, começando pelas mentes mais maleáveis de todas – as crianças.

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Sinopse

A história acompanha Pavel “Pasha” Talankin, um professor carismático e querido por seus alunos, que atua também como o cinegrafista dos eventos de uma escola primária em Karabash, uma cidade no interior da Rússia infame por ser um dos locais mais poluídos do mundo. Pasha é o tipo de cara que cria um oásis para os alunos desajustados em sua salinha decorada. Porém, quando Vladimir Putin invade a Ucrânia e instaura um novo currículo de “educação patriótica”, o trabalho de Pasha muda.

Aproveitando-se de sua função de registrar as atividades escolares para o governo, ele passa a filmar secretamente o processo de militarização das crianças e a repetição cega de propagandas pelos professores. Com a ajuda do diretor dinamarquês David Borenstein, as imagens são transformadas neste documentário visceral, culminando no exílio de Pasha do seu próprio país.

Crítica do documentário Um Zé Ninguém contra Putin

A banalidade do absurdo escolar

O grande trunfo de “Um Zé Ninguém Contra Putin” é como ele capta a normalização gradual de coisas grotescas. O filme não precisa de cenas de campo de batalha; a trincheira de Pasha é o corredor do colégio. É assustador e revoltante assistir a crianças empunhando armas quase do tamanho delas, ou ver um professor de história dizendo com a maior naturalidade que os europeus logo andarão a cavalo por conta das sanções.

A cena mais emblemática (e gelada) do documentário acontece quando mercenários do grupo Wagner visitam a escola. Um garoto de uns 11 anos pega um rifle, ajeita a postura e mira diretamente para a lente da câmera de Pasha. É nesse momento que o espectador entende a dimensão do que está em jogo. Como bem observa uma das críticas, a adesão ao conflito não é forçada guela abaixo de um dia para o outro; ela é construída no cotidiano até virar um reflexo automático e deixar de ser questionada.

Um Zé Ninguém contra Putin crítica do filme documentário 2025 - Flixlândia (1)
Foto: Synapse Distribution / Divulgação

O homem, a câmera e a ética

Pasha é um protagonista improvável e cheio de camadas. A sua leveza inicial cria um contraste absurdo com o cenário cinzento e opressor de Karabash. Mas sua jornada traz um debate ético importante: as pessoas que aparecem no filme (professores, crianças, sua própria mãe) não sabiam que estavam participando de um documentário que iria para o mundo todo. Para muitos, ele cruzou uma linha, mas Pasha se defende dizendo que fez um “relatório para o futuro”, para que as próximas gerações entendam como uma sociedade inteira se tornou agressiva.

Ainda assim, como contador de sua própria história, ele tem suas limitações. O documentário perde um pouco de tração quando Pasha tenta filosofar em seus diários de vídeo ou monólogos. Ele parece lutar para articular em palavras a complexidade do que está vivendo. Fica claro que Pasha não é um narrador genial, mas sim um observador brilhante. Quando ele cala a boca e deixa a câmera registrar as crianças desviando o olhar por medo de serem vistas com “o cara da bandeira da democracia”, a mensagem atinge em cheio.

Valor histórico acima do engenho narrativo

Do ponto de vista puramente cinematográfico, o filme escorrega um pouquinho. Há uma certa pegada didática e um maniqueísmo quase ingênuo na montagem e na trilha sonora em alguns momentos, o que acaba simplificando questões que a própria imagem já mostrava serem muito mais complexas. O documentário também sofre para extrair conversas genuinamente íntimas, seja com a sua aluna Masha ou com sua mãe (que, aliás, reage à angústia dele sobre a guerra oferecendo doces).

Mas a verdade é que essas falhas técnicas se tornam minúsculas perto da coragem de expor imagens que o Estado russo jamais permitiria que vazassem. Pasha brigou para manter cenas cruciais no corte final, como a reunião em que os professores admitem a portas fechadas que as notas dos alunos estão despencando por causa da doutrinação – uma honestidade que jamais seria dita em público.

Conclusão

No fim das contas, “Um Zé Ninguém Contra Putin” é muito mais do que um filme sobre um dissidente russo; é um estudo universal sobre como o fanatismo é injetado na veia de uma sociedade através das escolas. É um documento histórico inestimável que cruza fronteiras e nos faz pensar na nossa própria realidade.

O diretor David Borenstein resumiu perfeitamente em seu discurso no Oscar: “Você perde seu país por meio de inúmeros pequenos atos de cumplicidade”. Ao documentar essa cumplicidade silenciosa, Pasha pagou o preço do exílio, provando que, às vezes, um “zé ninguém” munido de uma câmera e de uma consciência moral faz muito mais barulho do que um exército inteiro. Imperdível.

Onde assistir ao documentário Um Zé Ninguém contra Putin?

Trailer do filme Um Zé Ninguém contra Putin

YouTube player
Escrito por
Wilson Spiler

Formado em Design Gráfico, Pós-graduado em Jornalismo e especializado em Jornalismo Cultural, com passagens por grandes redações como TV Globo, Globonews, SRZD e Ultraverso.

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