Crítica do filme Iracema Uma Transa Amazônica 1975 Flixlândia

‘Iracema: Uma Transa Amazônica’ é um documento histórico de um país que mente para si mesmo

Foto: Divulgação
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A arte em geral foi bastante perseguida nos anos da Ditadura Militar. Entre os filmes considerados “malditos” pelo regime da época, está “Iracema: Uma Transa Amazônica”, considerado um dos 100 maiores filmes brasileiros de todos os tempos.

Dirigido por Jorge Bodanzky e Orlando Senna, que foi relançado com cópias restauradas em 4k em comemoração aos 50 anos de sua estreia na última quinta-feira (24) nos cinemas brasileiros.

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Sinopse

O drama retrata o encontro de uma jovem indígena e um caminhoneiro, encantado pelo suposto progresso da Transamazônica. Aos poucos, conforme os dois personagens se aproximam, as imagens captadas em 16 mm revelam o que há por trás do chamado “milagre econômico”: um registro em tempo real do desmatamento da floresta, da grilagem, da exploração sexual e de uma série de violações normalizadas em nome do desenvolvimento.

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Crítica

Gravado em alguns dos anos mais complicados da gestão do Exército, o longa mostra tudo ao contrário da propaganda oficial da época, que afirmava o Brasil estar em constante progresso,,com as obras faraônicas, slogans que podem ser repetidos por coachs contemporâneos, com uma empáfia quase paternal no discurso.

Tal realidade era para uns poucos no período, representados pelo caminhoneiro Tião Brasil Grande (o eterno cafajeste Paulo César Pereio), que em suas viagens está sempre disposto a debater com os locais sobre progresso, defendendo o governo, a exploração e o dinheiro a qualquer custo, enquanto utiliza serviços de casas de prostituição. Em uma dessas paradas ele encontra, a jovem de 15 anos Iracema (a então estreante Edna de Cássia), ingênua e vulnerável.

Tião a carrega por alguns pontos da recém-inaugurada e nunca terminada Rodovia Transamazônica. Enquanto ele está lá como representante de quem está no poder, Iracema é quase o povo brasileiro: não tem ideia do que está acontecendo, soterrada em propaganda, tanto oficial quanto de produtos estrangeiros, como no short de Coca-Cola do pôster original.

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Crítica do filme Iracema Uma Transa Amazônica 1975 - Flixlândia
Foto: Divulgação

Bela metáfora

A metáfora é simples e profunda: se Tião é a classe média/alta que, mesmo com uma certa condição, não para de reclamar ao mesmo tempo que elogia o governo, é hipócrita e ainda alicia menores, Iracema é o povo, sem poder de barganha, seja financeiro ou social, e seu único bem é o corpo, seja trabalhando na prostituição, seja em serviços braçais como os homens.

A maior questão sobre a censura que o filme sofreu na época é que em nenhum momento existe algum discurso mais à esquerda ou contra o Regime Militar. A câmera da dupla de diretores é quase documental, os diálogos poderiam e podem ser ouvidos em diversas cidades, vilarejos e aldeias do assim chamado “Brasil Profundo”. 

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Realidade que incomoda

Porém, mostrar a realidade incomodava um governo baseado em maquiagens no contato com a população, e a má informação era um recurso valioso. Má informação essa que até hoje ainda atinge alguns setores, mesmo esclarecidos, que apontam o Milagre Econômico como algo bom, embora tenha resultado em diversas crises nos anos 1980.

No disco “Que país é este”, Renato Russo escreve no encarte que a música-título já era velha, e por isso não a havia gravado no primeiro, porém, parecia tão atual quando foi escrita. Assim é “Iracema”, um retrato de um país que até melhorou em relação ao período, mas sempre parece faltar algo para ser realmente o paraíso prometido.

Conclusão

Iracema: Uma Transa Amazônica” permanece como um dos retratos mais lúcidos e incômodos do Brasil profundo. Ao expor contradições sociais, políticas e econômicas sem discursos panfletários, o filme reforça a força do cinema como registro histórico e reflexão coletiva.

Sua restauração em 4K não apenas resgata uma obra-prima marcada pela censura, mas também a recoloca no debate contemporâneo, mostrando como, décadas depois, ainda convivemos com desigualdades e ilusões semelhantes às da época. É um lembrete de que a memória cultural deve ser preservada para que o país possa, de fato, aprender com os erros do passado.

Onde assistir ao filme Iracema: Uma Transa Amazônica?

O filme está em cartaz nos cinemas brasileiros.

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Assista ao trailer de Iracema: Uma Transa Amazônica (1975)

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Elenco do filme Iracema: Uma Transa Amazônica

  • Paulo César Peréio
  • Edna de Cássia
  • Lúcio Dos Santos
  • Elma Martins
  • Natal
  • Fernando Neves
  • Wilmar Nunes
  • Sidney Piñon
  • Rose Rodrigues
  • Conceição Senna
Escrito por
Marcelo Fernandes

Jornalista, músico diletante, produtor cultural e fã de guitarras distorcidas e bandas obscuras.

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