Depois do Terremoto resenha crítica do filme Netflix 2025 Flixlândia

[CRÍTICA] ‘Depois do Terremoto’: o surrealismo de Murakami encontra o trauma japonês na Netflix

Foto: Divulgação
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Se tem uma coisa que o cinema japonês sabe fazer bem é misturar o cotidiano mais banal com o absurdo absoluto. Lançado na Netflix em 2 de janeiro de 2026, Depois do Terremoto chega com a responsabilidade de adaptar a aclamada coleção de contos de Haruki Murakami.

Dirigido por Tsuyoshi Inoue, o filme tenta costurar três décadas de história japonesa, usando desastres naturais e pandemias como pano de fundo para conectar estranhos através do tempo. Mas a grande questão que fica pairando no ar, tal qual um dos personagens do filme, é: estamos diante de uma obra profunda sobre a cura ou apenas um exercício de estilo “cabeça” sem muita substância?

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Sinopse

A narrativa é uma antologia que se estende de 1995 a 2025, entrelaçando quatro histórias aparentemente distintas, mas conectadas por fios invisíveis de trauma e recuperação.

Tudo começa em 1995, logo após o terremoto de Kobe. Acompanhamos Komura (Masaki Okada), um vendedor de eletrônicos que, após ser abandonado pela esposa, viaja para Kushiro, em Hokkaido, com a missão de entregar um pacote misterioso. Pulamos para 2011, ano do terremoto de Tōhoku, onde a jovem Junko (Yui Narumi) desenvolve uma amizade com Miyake (Shinichi Tsutsumi), um homem de meia-idade ainda assombrado por pesadelos de sobrevivência.

Em 2020, durante a pandemia, conhecemos Yoshiya (Daichi Watanabe), um rapaz conhecido como “filho de Deus” (sua mãe engravidou mesmo usando preservativos), que tem um encontro misterioso em um trem. Por fim, chegamos a 2025, onde o ex-banqueiro Katagiri (Koichi Sato) se une a um sapo gigante falante, o Frog (voz de Non), em uma missão absurda para salvar Tóquio de um verme gigante subterrâneo e evitar um novo desastre.

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Resenha crítica do filme Depois do Terremoto

A teia invisível do trauma e conexões visuais

O ponto alto de Depois do Terremoto é a sua ambição em mostrar como o trauma coletivo não desaparece; ele se transforma. Inoue tenta criar uma “teia invisível”, onde personagens de épocas diferentes se cruzam de forma surreal. É interessante notar como os desastres — sejam terremotos ou a COVID-19 — ditam o humor dos personagens. Há uma sensação compartilhada de incompletude, ecoada tanto por Komura em 1995 quanto por Junko em 2011, ambos sentindo que “não foram longe o suficiente” em suas fugas.

Visualmente, o filme tenta amarrar essas pontas soltas. Um corredor vermelho no primeiro segmento é filmado de forma idêntica aos compartimentos de trem mais tarde e, finalmente, conecta-se ao “Verme” que o Sapo precisa derrotar em 2025, que é representado justamente como um trem vermelho. É um toque estilístico que sugere que o perigo e o medo são constantes, apenas mudando de forma.

Profundidade ou apenas “um pedaço de ar”?

Aqui é onde o filme divide opiniões e onde a experiência pode se tornar frustrante. O roteiro muitas vezes parece caminhar na corda bamba entre o poético e o vazio. O próprio filme levanta a dúvida: será que Komura, o protagonista do primeiro segmento, é desprovido de substância, apenas um “pedaço de ar”?

Infelizmente, Inoue parece, às vezes, mais interessado em ser “ostensivamente surreal” do que em entregar uma narrativa coesa. As conversas são deliberadamente vagas e casuais, mas carregam uma autoconsciência que impede uma imersão total. Você nunca esquece que está assistindo a um filme “arte”.

Perguntas básicas ficam sem resposta: Por que a esposa de Komura foi embora? Qual é o problema real entre Junko e seu pai? O filme não se preocupa com a lógica da vida real, o que pode fazer com que a experiência pareça tediosa e fina para quem busca respostas concretas. Até o Sapo gigante, quando questionado sobre o que ele representa, diz ser apenas um sapo — sem metáforas —, o que soa quase como uma provocação do diretor ao público que busca significado em tudo.

Atuações que seguram a onda

Apesar das falhas de ritmo e da pretensão do roteiro, o elenco faz um trabalho hercúleo para manter o navio flutuando. O destaque absoluto é Masaki Okada. O ator, que já brilhou internacionalmente no vencedor do Oscar Drive My Car (outra adaptação de Murakami), ancora o núcleo emocional do filme. Sua performance como o marido abandonado traz uma vulnerabilidade necessária que equilibra a estranheza das outras histórias. Okada consegue transitar do drama contido para o humor absurdo do segmento final com uma consistência tonal impressionante.

Também vale mencionar Koichi Sato, que entrega gravitas ao papel de Katagiri. Não é fácil atuar ao lado de um sapo gigante falante (mesmo que seja CGI ou voz) e fazer a ameaça de um verme destruidor de Tóquio parecer uma crise existencial séria e humana.

Conclusão

Depois do Terremoto é uma obra de contrastes. Por um lado, oferece uma meditação visualmente unificada sobre como o Japão processa suas tragédias nacionais. Por outro, pode ser visto como um exercício arrastado que se apoia demais em simbolismos vagos e diálogos circulares.

Para os fãs de Haruki Murakami, a atmosfera onírica e a “estranheza” familiar estarão lá. Para o espectador casual da Netflix, porém, a falta de resoluções claras e o ritmo contemplativo podem soar como pretensão. No fim, o filme deixa uma sensação ambígua: a de que tentamos impedir um desastre, mas não temos certeza se conseguimos, ou se o esforço sequer valeu a pena. É cinema para sentir, não necessariamente para entender.

Onde assistir ao filme Depois do Terremoto?

Trailer de Depois do Terremoto (2025)

YouTube player

Elenco de Depois do Terremoto, da Netflix

  • Masaki Okada
  • Ai Hashimoto
  • Erika Karata
  • Mitsuru Fukikoshi
  • Yui Narumi
  • Shinichi Tsutsumi
  • Kodai Kurosaki
  • Daichi Watanabe
  • Soya Kurokawa
  • Haruka Igawa
Escrito por
Wilson Spiler

Formado em Design Gráfico, Pós-graduado em Jornalismo e especializado em Jornalismo Cultural, com passagens por grandes redações como TV Globo, Globonews, SRZD e Ultraverso.

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