Crítica do filme Eles Vão Te Matar com spoilers 2026 - Flixlândia (1)

Crítica (com spoilers) | ‘Eles Vão Te Matar’: muito facão, satanismo e uma surpresa que acaba com a diversão

Foto: Warner Bros. Pictures / Divulgação
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Se você misturar o humor sádico e a carnificina de Casamento Sangrento com a coreografia caótica de Trem-Bala, o tom de gibi de Kick-Ass e a sede de vingança de Kill Bill, o resultado deveria ser o slasher perfeito. É exatamente essa a promessa de Eles Vão Te Matar (They Will Kill You), que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (26).

Com produção dos irmãos Andy e Barbara Muschietti (de It: A Coisa) e direção de Kirill Sokolov, o filme tinha tudo para ser uma catarse da meia-noite, mas acaba tropeçando feio nas próprias regras.

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Sinopse

A premissa acompanha Asia (Zazie Beetz), uma ex-presidiária que se infiltra como governanta no The Virgil, um hotel de luxo em Manhattan — cujo nome é uma clara (e nada sutil) referência ao poeta Virgílio, que serve como guia pelo Inferno em A Divina Comédia, de Dante Alighieri. Seu objetivo não é limpar quartos, mas resgatar sua irmã mais nova, Maria (Myha’la), que foi engolida pelo lugar.

Logo descobrimos que a gerente Lilith (Patricia Arquette, vencedora do Oscar por Boyhood) e a líder Sharon (Heather Graham, de Se Beber, Não Case!) comandam um culto satânico de ricaços que usa as funcionárias como sacrifício humano.

Crítica do filme Eles Vão Te Matar

Banho de sangue e referências pop

A primeira meia hora do filme é um espetáculo visceral. Na primeira noite, cultistas usando capas de chuva e máscaras de porco invadem o quarto de Asia, esperando uma vítima fácil. O que eles encontram é uma mulher armada com um facão e muita raiva acumulada.

A direção de Sokolov brilha aqui, abusando de crash-zooms, jorros de sangue prático e uma trilha sonora de faroeste spaghetti.

As sequências de ação em corredores e espaços apertados evocam a brutalidade clássica de Oldboy (2003), enquanto a matança generalizada que se segue lembra instantaneamente o lendário banho de sangue da Noiva contra os Crazy 88 em Kill Bill.

Zazie Beetz entrega uma Final Girl de respeito, lutando descalça em uma homenagem a Bruce Willis em Duro de Matar.

O filme também acerta nas bizarrices criativas, como uma cena de perseguição hilária envolvendo um olho animatrônico decepado que transmite imagens de volta para seu dono — uma piscadela macabra e bizarra que faria a Sra. Cabeça de Batata de Toy Story 3 ter pesadelos absurdos.

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O erro fatal: imortalidade sem consequências

No entanto, o filme comete um pecado imperdoável que destrói qualquer senso de perigo. Logo no início, descobrimos o pacto do culto: os ricaços do hotel são imortais. Quando Asia decepa membros, corta gargantas ou atira nos mascarados, os pedaços do corpo simplesmente se contorcem e se colam de volta no lugar de forma mágica.

Essa escolha do roteiro é uma decepção colossal. Filmes de vingança exigem catarse. Se o herói fatia o vilão e o vilão simplesmente levanta e sacode a poeira, cada golpe perde o peso.

Faltou a introdução de uma regra clássica de sobrevivência — como o famoso “atire na cabeça” dos filmes de zumbi ou uma fraqueza específica atrelada ao pacto satânico.

Sem isso, a violência de Asia, por mais estilizada que seja, torna-se repetitiva e as lutas perdem totalmente o propósito e a urgência.

Crítica social superficial e personagens rasos

Eles Vão Te Matar tenta embalar sua carnificina com uma mensagem de “nós contra eles” — as empregadas vulneráveis contra a elite branca e rica. Contudo, essa crítica social nunca sai da superfície. Falta profundidade e cinismo para que a metáfora realmente funcione.

O elenco de apoio acaba desperdiçado nesse roteiro raso. Rostos conhecidos como Tom Felton (o eterno Draco Malfoy da saga Harry Potter) e a já citada Heather Graham mergulham na loucura, mas seus personagens têm zero personalidade. Pior ainda é o arco de Ray (Paterson Joseph), o marido de Lilith, que tenta introduzir um pingo de consciência ao tentar ajudar as irmãs. A trajetória dele é cortada de forma tão abrupta que nos perguntamos por que ele foi incluído na história para começo de conversa.

O clímax à la Kill Bill e a vitória sobre o Inferno

A maior prova de que o diretor Sokolov usa suas influências sem cerimônia acontece no embate final. A luta decisiva emula descaradamente o antológico duelo na neve entre a Noiva e O-Ren Ishii no final de Kill Bill: Vol. 1, de Quentin Tarantino.

No caso de Eles Vão Te Matar, a “neve” é criada quando canos de resfriamento são arrebentados, vazando hidrogênio líquido pelo cenário e congelando gradativamente o ambiente e os envolvidos.

Visualmente, é uma sacada de mestre e rende quadros lindíssimos. O problema é que, diferente de Tarantino — que construiu uma carga emocional pesada antes do cruzar de espadas —, o embate de Asia carece de impacto dramático justamente porque os inimigos não têm carisma e o público já está exausto de vê-los reviver.

Ainda assim, a resolução tenta entregar a proporção épica prometida. No fim de todo esse caos congelante, a heroína não apenas supera a elite sádica, mas vai além e derrota o próprio Diabo em pessoa, garantindo a salvação definitiva tanto para si mesma quanto para sua irmã, Maria.

Conclusão

No fim das contas, a atuação dedicada e furiosa de Zazie Beetz, aliada a esse desfecho apoteótico, não é suficiente para salvar Eles Vão Te Matar de suas próprias armadilhas. É um filme barulhento, com ótimas referências ao cinema de ação, mas que atira no próprio pé ao criar vilões invencíveis durante a maior parte do tempo. A única coisa que acaba morrendo de forma definitiva nessa história é a paciência do espectador.

Elenco do filme Eles Vão Te Matar

  • Zazie Beetz
  • Myha’La
  • Paterson Joseph
  • Tom Felton
  • Heather Graham
  • Patricia Arquette
Escrito por
Cadu Costa

Cadu Costa era um camisa 10 campeão do Vasco da Gama nos anos 80 até ser picado por uma aranha radioativa e assumir o manto do Homem-Aranha. Pra manter sua identidade secreta, resolveu ser um astro do rock e rodar o mundo. Hoje prefere ser somente um jornalista bêbado amante de animais que ouve Paulinho da Viola e chora pelos amores vividos. Até porque está ficando velho e esse mundo nem merece mais ser salvo.

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