Paolo Sorrentino é o tipo de cineasta que não faz filmes para passarem despercebidos. Depois de nos presentear com obras marcantes como A Grande Beleza e A Mão de Deus, ele volta às suas raízes napolitanas com Parthenope – Os Amores de Nápoles.
O longa, que concorreu à cobiçada Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2024, é um mergulho profundo e visualmente arrebatador em dois dos temas favoritos do diretor: a juventude e a força implacável do tempo. Acompanhamos uma história que é, ao mesmo tempo, uma carta de amor à sua cidade natal e um ensaio melancólico sobre o que significa ser o centro das atenções em um mundo que te devora com os olhos.
Sinopse
A trama viaja por várias décadas, começando em 1950, para acompanhar a vida de Parthenope (vivida com muito carisma por Celeste Dalla Porta na juventude e Stefania Sandrelli na maturidade). Nascida nas águas de Nápoles e batizada com o nome da sereia mítica que fundou a cidade, a protagonista é uma mulher de uma beleza estonteante e uma independência feroz.
O filme segue os longos verões dessa jovem, seus romances e a melancolia de suas perdas, enquanto ela tenta encontrar a própria identidade e liberdade. No caminho, cruzamos com figuras inesquecíveis, como o escritor norte-americano John Cheever (Gary Oldman) e uma atriz excêntrica nos moldes de Sophia Loren, enquanto a própria cidade serve como pano de fundo para essa jornada poética.
Crítica do filme Parthenope – Os Amores de Nápoles
A Nápoles de Sorrentino: beleza, grotesco e contradições
Sorrentino faz de Nápoles muito mais do que um simples cenário; a cidade é praticamente um ser vivo, pulsante e cheia de falhas. A fotografia de Daria D’Antonio é um espetáculo à parte, capturando a luz e as paisagens italianas de uma forma que deixa qualquer um babando.
No entanto, o diretor é inteligente o suficiente para não focar apenas no cartão-postal. Ele faz questão de expor o lado mais cru e feio da região, abordando a pobreza, a corrupção e os tentáculos da Camorra. Há momentos quase bizarros, como o encontro da protagonista com o grotesco arcebispo da cidade, que adicionam uma camada de crítica ao catolicismo fervoroso do local. É justamente essa mistura do sagrado com o profano que dá tanto peso à ambientação.

O fardo da sereia e o olhar antropológico
É muito fácil olhar para a atriz principal, de biquíni e com aquele sorriso de Mona Lisa, e achar que o filme se resume à estética. Mas Parthenope não é só um rostinho bonito. Ela é retratada como uma mulher extremamente inteligente, dona de um senso de observação afiadíssimo.
Na verdade, a sua beleza funciona como uma maldição, um obstáculo enorme que impede os outros de enxergarem a sua verdadeira humanidade. Ela atrai o desejo de todos ao seu redor, incluindo a trágica obsessão de seu irmão mais velho, Raimondo.
A sacada genial de Sorrentino é colocar a protagonista para estudar Antropologia. Se o mundo inteiro a objetifica e tenta decifrá-la, ela vira o jogo e passa a ser a pessoa que estuda e analisa os outros, tornando-se a dona do próprio olhar. Ela recusa a submissão e resiste a ser plenamente capturada pelo desejo masculino, tornando-se uma figura quase enigmática.
Melancolia e tempo
Vale o aviso: quem espera um filme dinâmico pode se frustrar. Esse é um longa de ritmo suspenso, contemplativo e abertamente melancólico. Sorrentino usa e abusa de simbolismos para nos lembrar que a juventude tem prazo de validade. Seja através dos relógios barulhentos em cena ou da transformação da personagem em um relógio de sol improvisado, a passagem do tempo é o grande vilão silencioso da história.
Não é à toa que a recepção do filme foi tão polarizada. Por um lado, há quem exalte o longa como uma verdadeira obra-prima do maximalismo, um abraço caloroso na contradição e na poesia visual. Por outro, veículos críticos pesados apontaram que Sorrentino esbarrou na autoparódia, criando um conto artificial, vazio e sem impacto emocional, parecido com “um anúncio de duas horas de uma colônia caríssima”.
Essa irregularidade faz parte do pacote: a primeira metade deslumbra, enquanto a segunda se torna um pouco mais difícil e estranha. Eu, particularmente, faço parte do primeiro grupo.
Conclusão: vale a pena ver Parthenope?
Parthenope: Os Amores de Nápoles exige paciência e um espectador disposto a se entregar ao absurdo e à poesia. Ele abraça a fantasia para tentar entender a realidade. Embora seus excessos e seu ritmo arrastado possam afastar parte do público, é inegável o poder de Sorrentino em construir imagens que ficam grudadas na nossa cabeça.
É um filme imperfeito, deliciosamente irregular, mas que consegue traduzir de maneira única o luto, as desilusões da fase adulta e a amarga certeza de que a beleza muda, mas os mistérios da vida continuam lá, sem respostas fáceis.
Onde assistir ao filme Parthenope – Os Amores de Nápoles?
Trailer de Parthenope – Os Amores de Nápoles (2024)
Elenco do filme Parthenope – Os Amores de Nápoles
- Celeste Dalla Porta
- Gary Oldman
- Stefania Sandrelli
- Silvio Orlando
- Luisa Ranieri
- Peppe Lanzetta
- Isabella Ferrari
















