Se você cresceu assistindo (ou ouvindo falar) das famosas madrugadas do Cine Privê na TV aberta, com certeza o nome Emmanuelle desperta alguma memória. O clássico softcore de 1974, dirigido por Just Jaeckin e eternizado pela atriz holandesa Sylvia Kristel, foi um verdadeiro fenômeno cultural ao retratar as aventuras sexuais de uma mulher na Ásia sob uma ótica puramente voltada para a fantasia masculina.
Cinquenta anos depois, a diretora francesa Audrey Diwan (vencedora do Leão de Ouro por O Acontecimento) assume a difícil tarefa de reimaginar essa figura icônica. O resultado passa longe daquele erotismo cafona e ensolarado dos anos 70, entregando uma obra que subverte expectativas ao tentar debater o prazer feminino — ou a falta dele — sob uma lente assumidamente feminista e contemporânea.
Sinopse
Nesta nova versão – que agora chega ao catálogo do Globoplay – escrita por Diwan em parceria com Rebecca Zlotowski, Emmanuelle (agora vivida por Noémie Merlant) não é mais a esposa submissa em busca de aventuras, mas sim uma executiva fria e pragmática. Ela viaja a trabalho para Hong Kong com a missão de avaliar o controle de qualidade de um luxuoso hotel administrado por Margot (Naomi Watts), devendo encontrar motivos para justificar demissões.
Entre as exigências de sua vida corporativa e a solidão dos quartos chiques, Emmanuelle vaga pelos corredores e ruas da cidade cosmopolita tentando resgatar sua própria libido. Nessa jornada, ela se envolve com a garota de programa Zelda (Chacha Huang) e desenvolve uma obsessão por Kei (Will Sharpe), um hóspede misterioso que parece ser o único a não ceder aos seus encantos.
Crítica do filme Emmanuelle (2024)
A estética do vazio e o capitalismo
A primeira coisa que grita na tela neste novo Emmanuelle é o visual. A fotografia de Laurent Tangy é um deslumbre elegante que flerta com uma estética cyberpunk contida, usando os neons de Hong Kong refletidos nos vidros do hotel para aprisionar a protagonista como se ela estivesse em um aquário. Mas esse luxo todo tem um propósito bem claro: a diretora quer usar o cenário para fazer uma crítica ao capitalismo moderno e mostrar como até o prazer se tornou uma mercadoria.
O hotel funciona como uma máquina perfeita e opressiva, onde os funcionários são peças de uma engrenagem e o próprio sexo é tratado como uma métrica de desempenho — algo escancarado pelo fato de a empresa de Emmanuelle fabricar “sensores de prazer”. A crítica é válida e afiada, mas, ao tentar nos mostrar como as relações se tornaram plásticas, o filme acaba nos privando de sentir qualquer emoção mais pulsante.

O corpo sem calor e o erotismo frio
Se você for ao cinema esperando um filme quente, vai quebrar a cara. A própria Audrey Diwan avisou que não queria fazer um filme erótico como quem faz um filme de esportes, onde a ação acontece a cada 20 minutos. O problema é que, na tentativa de não objetificar Noémie Merlant — que teve controle total nas cenas íntimas com a ajuda de uma coordenadora de intimidade —, a narrativa se afundou em uma frieza robótica.
Merlant entrega uma atuação minimalista e melancólica, passando a maior parte do tempo com um olhar vazio, mesmo durante o sexo. O longa foca nas sensações, nos tecidos de seda roçando a pele, mas carece de tesão real. A experiência se assemelha mais a um sonho febril do que a um “sonho molhado”. Ao focar na sexualidade “quebrada” da protagonista, a diretora cria uma atmosfera tão distanciada e apática que alguns críticos chegaram a brincar que o filme mata mais a libido do que antidepressivos.
Acertos, tropos e desperdícios
Apesar do clima sedutor de mistério e do lindo figurino de Jürgen Doering (que brinca perfeitamente com a dualidade profissional e sensual da personagem), o roteiro escorrega no desenvolvimento de suas peças de apoio. Naomi Watts, por exemplo, parece perdida no papel da gerente Margot, chegando a protagonizar um monólogo constrangedoramente dramático. Will Sharpe como Kei, o alvo do desejo de Emmanuelle, não passa de um grande clichê do “homem misterioso”, falhando em trazer a química necessária para a tela.
Vale apontar também um trope problemático com a personagem Zelda. Ao colocar uma prostituta asiática como guia de descobertas para a protagonista branca em crise no oriente, o filme repete o estereótipo racista da dragon lady, sem se aprofundar na subjetividade da personagem local além do que ela pode oferecer a Emmanuelle.
Conclusão: Emmanuelle 2024 é bom?
O Emmanuelle de 2024 é uma experiência ousada e, de certa forma, necessária ao desconstruir uma franquia erótica que foi moldada pela visão masculina. Audrey Diwan consegue empoderar sua protagonista, transformando-a em uma mulher dona de si e que não precisa ser punida ou julgada por seus desejos. No entanto, ao focar tanto no vazio existencial e na mercantilização do afeto, a obra perde o pulso da vida.
É um filme lindo de se olhar, que acerta na atmosfera voyeurística e na reflexão feminista, mas que acaba morrendo na praia por ser cerebral demais e quente de menos. Se o objetivo era nos seduzir com a ideia inatingível do prazer, ele consegue; mas se era para nos satisfazer cinematograficamente, deixa muito a desejar.
Onde assistir ao filme Emmanuelle de 2024?
Trailer do filme Emmanuelle (2024)
Elenco do filme Emmanuelle versão 2024
- Noémie Merlant
- Will Sharpe
- Jamie Campbell Bower
- Naomi Watts
















