Levar fenômenos da internet para o cinema é uma faca de dois gumes. O diretor Kane Parsons (conhecido no YouTube como Kane Pixels) chocou o mundo digital ao criar, aos 19 anos, uma série em found footage incrivelmente imersiva baseada na famosa creepypasta que nasceu no fórum 4chan em 2019. O conceito dos espaços liminares — lugares de transição vazios e surreais que geram um estranhamento desconfortável — parecia perfeito para as telas.
Contudo, no filme Backrooms: Um Não-Lugar, produzido pela badalada A24, o diretor falha miseravelmente ao esquecer que o cinema exige narrativa, e não apenas colagem de referências para a Geração Z.
Para que o longa funcionasse, ele precisava ser acessível ao público geral, enquanto oferecia easter eggs para os fãs devotos. O resultado, infelizmente, é o oposto: se você não passa as suas madrugadas lendo teorias no Reddit, sairá do cinema completamente frustrado.
É um filme que nada explica. Na verdade, parece o Mundo Invertido de Stranger Things com orçamento de feira livre que morre abraçado com o próprio preciosismo.
Sinopse
Ambientado em 1990, o enredo foca na decadência mental e financeira de Clark (Chiwetel Ejiofor). O protagonista é um homem que faliu emocionalmente: está sem casa, sem esposa e tenta fazer terapia para recuperar o convívio social. Ele mora na própria loja de móveis, que atravessa uma crise severa onde nenhum cliente entra.
A atmosfera de espaço liminal já se faz presente no próprio showroom vazio, mas o terror real começa quando Clark percebe anomalias físicas na loja, como luzes que piscam e apagam do nada, culminando na descoberta de uma porta misteriosa no porão.
Ao cruzar o portal, ele se depara com o “Não-Lugar”: um labirinto infinito de salas com papel de parede monoamarelo mofado, carpetes úmidos e o zumbido incessante de luzes fluorescentes. Em vez de fugir, Clark desenvolve um fascínio doentio pelo local. Ele convence seus únicos funcionários — o jovem casal Bobby (Finn Bennett) e Kat (Lukita Maxwell) — a entrarem no portal para gravar provas e mapear aquela extensão impossível.
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A loucura corporativa e o horror da mesmice
A atuação de Chiwetel Ejiofor ao abraçar a insanidade e a performance de Renate Reinsve como sua terapeuta, a Dra. Mary Kline, são os raros pontos positivos que sustentam o filme.
A cinematografia de Pau Esteve Birba constrói uma ansiedade genuína. Não espere sustos fáceis (jump scares) ou banhos de sangue; o verdadeiro inimigo aqui é a repetição interminável dos cômodos e o pavor de uma eternidade sem fim. Parsons prefere usar a própria arquitetura como vilão.

Um festival de furos e mortes gratuitas (com spoilers)
O roteiro começa a desmoronar justamente quando tenta criar ganchos físicos para o terror. Na melhor e mais tensa sequência do longa, Clark, Kat e Bobby estão explorando e gravando o labirinto quando se deparam com a temida criatura de mofo preto.
O monstro não é um demônio convencional, mas sim uma massa obscura que persegue o trio. Em uma virada abrupta e cruel, Bobby e Kat são sumariamente mortos pela entidade, deixando Clark isolado.
É a partir desse ponto que o filme liga o piloto automático do “nonsense” e se assemelha a produções experimentais que dividem opiniões por não explicarem absolutamente nada, como Viveiro (2019) ou o arrastado Skinamarink (2022). Clark desaparece na imensidão amarela e dá a entender que foi pego.
É aí que a Dra. Mary Kline entra em cena. Confrontando seus próprios traumas reprimidos, ela decide investigar o porão da loja de móveis e acaba, ela mesma, totalmente perdida nos Backrooms em busca de respostas.
Reviravolta sem sentido, final pretensioso e cena pós-créditos
O terço final do filme joga qualquer lógica restante na lixeira. Mary vaga pelo labirinto até encontrar Clark completamente ensandecido, transformado pelo ambiente. A grande reviravolta da trama — que falha em fazer sentido para quem assiste — introduz o chamado “Pirata Clark”, uma versão distorcida e monstruosa do próprio vendedor de móveis, como se o seu alterego monstruoso ganhasse vida física para caçá-la. Mary entra em um embate físico contra o Pirata Clark e outras aparições bizarras de mofo.
No clímax, a terapeuta consegue escapar do labirinto e retornar ao mundo real. É quando o roteiro tenta forçar uma conexão com a mitologia do YouTube ao introduzir a ASYNC, a misteriosa corporação que tenta estudar e explorar os Backrooms. Os cientistas pedem a ajuda de Mary para entender a anomalia, mas ela, traumatizada, recusa a cooperar. O filme termina de forma abrupta com uma imagem congelada de uma versão distorcida da própria Mary presa dentro daquela realidade amarelada. Não há cenas pós-créditos.
Backrooms: Um Não-Lugar é bom?
Ao escolher deliberadamente omitir o que causa os Backrooms, como eles se formaram ou qual é a lógica da sobrevivência ali de dentro, Kane Parsons entrega um produto hermético. Backrooms: Um Não-Lugar funciona muito bem como um mostruário de atmosfera e design de som, mas fracassa miseravelmente como narrativa cinematográfica.
Um filme feito por quem sobrevive de memes e fóruns, para um público que se satisfaz com enigmas vazios. No final, o “Não-Lugar” faz jus ao nome: não leva o espectador a lugar nenhum.
Onde assistir ao filme Backrooms: Um Não-Lugar?
O filme estreia nesta quinta-feira, 28 de maio de 2026, exclusivamente nos cinemas brasileiros.
Trailer de Backrooms: Um Não-Lugar (2026)
Elenco do filme Backrooms: Um Não-Lugar
- Chiwetel Ejiofor
- Renate Reinsve
- Mark Duplass
- Finn Bennett
- Lukita Maxwell

















