Duas mulheres se abraçam em cena do filme Natal Amargo, de Pedro Almodóvar, de 2026

‘Natal Amargo’ coloca o ego de Almodóvar no divã em um labirinto de espelhos

Foto: Warner Bros. Pictures / Divulgação
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Pedro Almodóvar possui uma das assinaturas mais marcantes da história do cinema contemporâneo. Quando o cineasta espanhol decide olhar para o próprio umbigo e discutir o fazer artístico, o público costuma ser blindado com obras-primas viscerais, a exemplo de Dor e Glória (2019) e Má Educação (2004). Em Natal Amargo (Amarga Navidad), seu 24º longa-metragem, o diretor de 76 anos faz um aguardado retorno à sua língua nativa e ao território espanhol após flertar com o idioma inglês no recente O Quarto ao Lado (2024).

Exibido na seleção oficial do Festival de Cannes, onde foi ovacionado por nove minutos e garantiu o prêmio de melhor trilha sonora para Alberto Iglesias, o longa prometia ser a obra mais cruel e confessional do realizador. No entanto, o que se vê em tela é um Almodóvar confortável demais em sua própria genialidade, entregando uma tragicomédia que esbanja beleza plástica, mas que patina ao tentar aprofundar suas próprias feridas existenciais.

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Sinopse

O enredo de Natal Amargo se desenvolve de maneira fragmentada, saltando entre as cidades de Madri e as Ilhas Canárias para acompanhar duas figuras totalmente obcecadas pelo trabalho. De um lado, conhecemos Elsa (Bárbara Lennie), uma diretora que acabou enveredando para o mercado publicitário e tenta afogar em sua rotina a dor do luto recente pela morte de sua mãe, ocorrida justamente durante as festas de fim de ano.

Sofrendo com crises de ansiedade e enxaqueca, Elsa é forçada a tirar um descanso na ilha de Lanzarote ao lado de sua melhor amiga, Patricia (Victoria Luengo), enquanto o namorado, Bonifacio (Patrick Criado) — que se divide entre a rotina de bombeiro e apresentações como stripper —, permanece na capital espanhola.

O outro ponto de vista da trama nos apresenta Raúl Durán (Leonardo Sbaraglia), um realizador de prestígio que enfrenta um severo limbo criativo. Ele tenta dar vida a um novo roteiro de forma quase compulsória, buscando inspiração nas histórias e nos amores de sua fiel assistente, Mônica (Aitana Sánchez-Gijón), enquanto deixa sua própria vida pessoal em segundo plano.

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Crítica do filme Natal Amargo, de Pedro Almodóvar

Almodóvar constrói uma dinâmica complexa e por vezes truncada, onde essas duas linhas temporais e realidades vão correndo em paralelo. O espectador precisa fazer um esforço constante para não se perder nesse grande jogo de espelhos e entender o quanto as experiências pessoais estão se fundindo com as criações artísticas.

Deslumbrante espetáculo estético mas falta algo

Visualmente, o filme é um deleite irretocável que justifica o marcante cartaz oficial divulgado em português, o qual evoca essa colagem fragmentada de identidades e pontos de vista. Cada enquadramento é uma pintura geométrica meticulosamente planejada por Almodóvar. As icônicas poltronas amarelas, as garrafas azuis reluzentes e os figurinos em tons vermelhos berrantes estão todos lá, operando no ápice da sofisticação cênica.

O humor típico dos “almodramas” também ganha respiros certeiros por meio de diálogos afiados e autocríticos da assistente Mônica. Em tom irônico, é ela quem joga na cara do cineasta o elefante na sala:

“Sai de casa um pouco! Você já fez seus melhores filmes, pode viver somente do seu prestígio agora”.

Em outra provocação divertida sobre as pressões do mercado atual, ela questiona o porquê de ele não ceder e fazer filmes para o streaming, já que a Netflix é doida por ele há anos — recebendo uma recusa imediata.

Duas mulheres conversam sentadas em um sofá em cena do filme Natal Amargo, de Pedro Almodóvar, de 2026
Foto: Warner Bros. Pictures / Divulgação

Debates morais valiosos, mas…

O grande problema é que essa beleza exuberante e o ritmo saltitante das piadas empurram o conflito para uma zona de conforto perigosa. O filme levanta debates morais valiosíssimos — como o limite ético de um artista usar e “vampirizar” a vida alheia para fabricar suas obras —, mas Almodóvar parece hesitar em ir até as últimas consequências.

O diretor cria um tribunal contra si mesmo, mas escolhe a dedo as perguntas, garantindo respostas confortáveis que nunca chegam a arranhar sua imagem ou trazer a paixão crua de outrora.

Natal Amargo é bom?

No final das contas, Natal Amargo é um ótimo filme, mas um Almodóvar apenas “bom” ainda nos deixa com um sentimento de quero mais. É uma obra fascinante para os fãs apreciarem a estética impecável de um mestre da sétima arte e se divertirem decifrando as charadas de sua autoficção.

No entanto, para quem esperava o desabafo definitivo de um gênio em sua fase mais madura, o longa entrega um belíssimo espetáculo corporativo que prefere o calor dos aplausos ao risco do abismo.

Onde assistir ao filme Natal Amargo?

O filme chega exclusivamente aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 28 de maio de 2026.

Trailer de Natal Amargo (2026)

YouTube player

Elenco do filme Natal Amargo, de Pedro Almodóvar

  • Bárbara Lennie
  • Leonardo Sbaraglia
  • Aitana Sánchez-Gijón
  • Victoria Luengo
  • Patrick Criado
  • Milena Smit
  • Quim Gutiérrez
  • Belén Riquelme
  • Rossy de Palma
  • Lola Rodríguez

Escrito por
Cadu Costa

Cadu Costa era um camisa 10 campeão do Vasco da Gama nos anos 80 até ser picado por uma aranha radioativa e assumir o manto do Homem-Aranha. Pra manter sua identidade secreta, resolveu ser um astro do rock e rodar o mundo. Hoje prefere ser somente um jornalista bêbado amante de animais que ouve Paulinho da Viola e chora pelos amores vividos. Até porque está ficando velho e esse mundo nem merece mais ser salvo.

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