Se você já assistiu a Incêndios (2010), dirigido pelo aclamado cineasta Denis Villeneuve, é muito provável que tenha terminado a sessão olhando para o vazio, completamente em choque. A jornada dos gêmeos Jeanne (Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon (Maxim Gaudette) em busca do passado de sua mãe, Nawal Marwan (Lubna Azabal), culmina em um dos plot twists mais devastadores e inesquecíveis da história do cinema.
Mas o que muita gente não sabe — e que torna o soco no estômago ainda mais forte — é que as atrocidades vividas por Nawal não saíram do nada. Embora o mistério familiar seja uma brilhante ficção com ares de tragédia grega, os horrores de guerra retratados na tela são dolorosamente baseados em fatos e pessoas reais.
Abaixo, dissecamos as inspirações, a guerra e a mulher de carne e osso que deram origem a essa obra-prima.
O filme Incêndios é baseado em uma história real?
A resposta curta é: não exatamente, mas o contexto histórico sim. O longa é uma adaptação de uma peça teatral homônima de sucesso, escrita em 2003 pelo dramaturgo libanês Wajdi Mouawad.
A reviravolta principal — a descoberta de que o torturador de Nawal, o impiedoso Abou Tarek (ou Nihad de Maio), era na verdade seu filho perdido e pai de seus gêmeos — é uma invenção criativa do autor. Contudo, a trama foi desenhada para refletir a brutalidade sectária, os traumas e as profundas divisões geradas pela Guerra Civil Libanesa, que devastou o país entre 1975 e 1990.
No filme, o país natal de Nawal não é explicitamente nomeado, sendo chamado apenas pelo nome fictício “Fuad” ou retratado como um Oriente Médio genérico, mas as referências à nação libanesa são inegáveis. Essa escolha de Villeneuve e Mouawad serviu para universalizar a dor, mostrando que a guerra é íntima e destrói o ser humano em qualquer lugar ou época.
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Quem inspirou a personagem Nawal Marwan? A incrível história de Souha Bechara
Se a árvore genealógica de Nawal é ficção, a espinha dorsal de seu sofrimento é um reflexo exato da vida de militantes reais, especialmente de uma mulher: Souha Bechara (também grafada como Soha Bechara).
Nawal tem uma raiz profunda de verdade. Assim como a protagonista, Souha Bechara era uma militante comunista nascida em uma família cristã no Líbano. Aos 20 anos, ela tentou assassinar o comandante do Exército do Sul do Líbano, uma milícia que colaborava com as forças de ocupação de Israel na época.
Por causa desse ato, Souha pagou um preço altíssimo que vemos espelhado na tela:
- Ela foi atirada na temida e notória prisão de al-Khiam.
- Passou 10 anos encarcerada, suportando longos e agonizantes períodos de confinamento solitário e torturas extremas.
- Apesar de tudo, manteve uma recusa inabalável em delatar seus companheiros de luta.
Em Incêndios, essa resiliência absurda é o que transforma Nawal na famosa “Mulher que canta” (A mulher que canta), a prisioneira número 72 que não se curvava diante de seus algozes. O filme queima e traumatiza porque as chagas da personagem de Lubna Azabal são restos vivos da história de Souha.

O massacre do ônibus: quando a ficção filma a tragédia
Uma das cenas mais icônicas e angustiantes de Incêndios é o ataque a um ônibus cheio de civis, no qual Nawal sobrevive por milagre usando sua cruz cristã como salvo-conduto, mas falha em salvar uma menininha.
Isso também não é mero capricho do roteiro. A sequência foi fortemente enraizada no notório massacre do ônibus de Ein al-Rammaneh, um evento real envolvendo refugiados palestinos que é considerado um dos estopins e capítulos mais cruéis da guerra civil no Líbano. É através dessa frieza e da apresentação do “real pelo real” que Denis Villeneuve arranca o espectador de sua zona de conforto.

Os bastidores: curando traumas reais na Jordânia
O flerte de Denis Villeneuve com essa história começou em 2004, quando ele assistiu à peça de Wajdi Mouawad em um teatro em Montreal, no Canadá. O diretor canadense ficou tão arrebatado que levou cinco anos maturando a ideia de transformar aquilo em cinema.
Quando finalmente decidiu filmar, Villeneuve levou sua produção para a Jordânia e fez questão de contratar profissionais libaneses e iraquianos para a equipe. A princípio, o cineasta confessou ter receio de reabrir velhas feridas e traumas ao recriar cenários de destruição e tortura com pessoas que viveram aquilo de perto. No entanto, ele recebeu uma resposta surpreendente da equipe local: aqueles homens e mulheres queriam desesperadamente que suas histórias chegassem às telas para que o mundo soubesse o que eles haviam passado.
A escolha de elenco também teve seus acasos inspirados. Para viver Nawal, o diretor cogitou usar três atrizes diferentes para as diferentes fases da vida da personagem (dos 18 aos 60 anos). Porém, após assistir ao filme Paraíso Agora, do diretor Hany Abu-Assad, ele conheceu a atriz belga-marroquina Lubna Azabal. Com 30 anos na época, Villeneuve confiou no talento cru da atriz e na maquiagem para retratar tanto a jovem rebelde com uma arma na mão quanto a idosa endurecida pela vida. O resultado foi uma performance avassaladora e digna de prêmios.

Resumo de Incêndios: o que o filme nos ensina sobre a humanidade?
Incêndios é frequentemente comparado à tragédia grega de Édipo, em que o passado espreita e destrói o presente. Ao transformar o torturador (Abou Tarek) e a vítima (Nawal) em mãe e filho — e o agressor e os irmãos gêmeos na mesma família sangrenta — a obra critica severamente as noções de vingança, sectarismo e as divisões arbitrárias que alimentam guerras.
Como o próprio filme evidencia em suas cartas finais, quebrar o ciclo de ódio é o único milagre possível em meio a tanta dor. A infância pode ser uma faca no pescoço, mas filmes como Incêndios existem para nos lembrar que a humanidade precisa reaprender a respirar e a engolir a saliva para, finalmente, conseguir conviver.
Onde assistir ao filme Incêndios?
O filme Incêndios está disponível para streaming na plataforma Amazon Prime Video, estando incluso especificamente através da assinatura do canal Reserva Imovision.















