O Sorveteiro crítica do filme 2026

‘O Sorveteiro’: quando o trash diverte mais do que assusta

essão rápida e caótica transforma uma tarde de verão num massacre infantil cheio de exageros

Foto: Diamond Films / Divulgação
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Existe um tipo de filme que parece nascer com a consciência de que jamais será levado completamente a sério. O Sorveteiro, dirigido por Eli Roth, pertence claramente a essa categoria. A premissa já entrega o espírito da coisa: um vendedor de sorvetes misterioso chega a uma pequena cidade e transforma crianças em máquinas de matar. É uma ideia absurda, grotesca e, em teoria, perfeita para um terror que não pretende economizar no sangue. O curioso é que, durante seus 86 minutos, o filme oscila justamente entre aquilo que ele faz de melhor — abraçar o absurdo — e aquilo que o impede de ser realmente bom.

E talvez seja essa contradição que torne a experiência mais interessante do que o resultado final. O Sorveteiro consegue arrancar algumas risadas justamente quando parece mais tosco, entrega momentos de violência bastante criativos e apresenta uma fotografia que demonstra mais cuidado do que o roteiro. Ao mesmo tempo, algumas atuações deixam a desejar, certos efeitos digitais destoam bastante do restante da produção e há ideias que parecem ter sido apresentadas apenas para serem abandonadas alguns minutos depois.

É um filme que parece ter potencial para ser muito mais divertido do que efetivamente é, mas que, em seus melhores momentos, consegue cumprir aquilo que promete: ser uma sessão curta, sangrenta e completamente sem noção.

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Uma cidade tomada pelo próprio sorvete

A história começa quando um misterioso sorveteiro surge em Bayleen Bay. Sua chegada parece inicialmente inofensiva, mas os sorvetes vendidos por ele escondem algo muito mais sinistro. Depois de consumirem as guloseimas, as crianças da cidade passam a sofrer uma espécie de influência hipnótica e se transformam em assassinas, voltando sua violência principalmente contra os adultos. O que deveria ser uma tarde comum de verão rapidamente se transforma em um massacre coletivo.

No meio desse caos estão Jared, Mia e Tommy, três jovens que escapam da maldição e precisam descobrir o que está por trás daquele estranho vendedor antes que a cidade inteira seja destruída. A premissa funciona porque é simples e imediatamente visual: crianças assassinas, um sorveteiro misterioso e uma cidade completamente fora de controle. O problema é que o filme parece ter ideias suficientes para construir uma mitologia interessante, mas não permanece tempo suficiente em algumas delas. Com apenas 1h26, O Sorveteiro prefere correr de uma situação absurda para outra, deixando alguns arcos narrativos com a sensação de que poderiam ter sido melhor desenvolvidos.

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Quando a tosquice vira diversão

O maior mérito de O Sorveteiro aparece justamente quando ele entende que não precisa fingir ser um filme mais sofisticado do que é. Algumas das melhores cenas são aquelas em que o longa simplesmente se entrega ao exagero. O gore é tratado quase como uma atração à parte, e determinadas mortes têm uma criatividade que combina perfeitamente com o espírito de um slasher trash. Existe uma diversão genuína em observar o filme ultrapassar determinados limites e pensar: “eles realmente tiveram coragem de colocar isso aqui”.

Esse humor, entretanto, é bastante irregular. Algumas piadas funcionam porque surgem naturalmente do absurdo da situação; outras parecem depender exclusivamente do espectador aceitar a caricatura proposta. É aí que O Sorveteiro encontra sua principal dificuldade de tom. O filme quer ser engraçado, assustador, nojento e exagerado ao mesmo tempo, mas nem sempre consegue equilibrar essas características. Quando consegue, o resultado é muito divertido. Quando não consegue, a cena simplesmente parece ruim.

E existe uma diferença importante entre um filme ser propositalmente tosco e simplesmente apresentar problemas de execução. O Sorveteiro atravessa essa fronteira várias vezes. Algumas atuações não conseguem acompanhar o tom exagerado do roteiro, fazendo com que determinados momentos pareçam involuntariamente engraçados. Em um filme desse tipo, isso pode até ser perdoável — afinal, parte da graça está justamente na falta de seriedade —, mas não deixa de ser uma fragilidade. O elenco infantil consegue sustentar boa parte da energia da história, enquanto algumas participações adultas parecem menos confortáveis dentro dessa proposta.

O Sorveteiro crítica do filme de 2026
Foto: Diamond Films / Divulgação

Uma fotografia melhor que o roteiro

Se existe uma área em que O Sorveteiro demonstra uma identidade mais clara, é na parte visual. A fotografia trabalha com uma combinação interessante de cores frias, tons pastéis e vermelho intenso, criando um contraste particularmente eficiente quando o sangue começa a dominar a tela. A cidade também ganha uma aparência quase artificial, que combina com a ideia de transformar um cenário aparentemente inocente em um pesadelo. A direção de Eli Roth demonstra, nesse aspecto, uma preocupação estética que nem sempre encontra equivalente no roteiro.

A utilização de diferentes linguagens visuais também ajuda a produção a se destacar. Há momentos que remetem deliberadamente ao cinema de terror de outras décadas, enquanto determinadas escolhas de câmera e o uso de Super 8 reforçam a sensação de homenagem ao cinema B. É uma fotografia que parece querer lembrar ao espectador que aquilo é, antes de tudo, uma brincadeira cinematográfica com o gênero. O problema é que essa personalidade visual acaba deixando ainda mais evidentes algumas das limitações dos efeitos digitais.

O uso de inteligência artificial em determinadas cenas é particularmente problemático porque quebra essa unidade estética. Quando a tecnologia aparece de maneira perceptível, a sequência deixa de parecer uma escolha estilística e passa a chamar atenção para o próprio processo de produção. Eli Roth confirmou posteriormente que a IA generativa foi utilizada em uma pequena parte de algumas cenas, depois de corrigir declarações anteriores sobre o processo.

O resultado é especialmente curioso porque o restante do filme demonstra uma preferência bastante evidente por uma estética mais artesanal. Assim, justamente quando O Sorveteiro parece querer homenagear o cinema B tradicional, alguns recursos digitais fazem com que ele pareça mais artificial do que deveria.

O problema de ter uma boa ideia e não desenvolvê-la

O roteiro talvez seja o ponto em que o filme mais desperdiça seu potencial. A ideia central é ótima para um terror trash, mas existe material suficiente para construir algo mais interessante em torno dela. A transformação das crianças poderia gerar uma mitologia mais elaborada, o sorveteiro poderia ser explorado de maneira mais profunda e os personagens poderiam ganhar arcos que fizessem o espectador se importar um pouco mais com o que acontece com eles.

Em vez disso, o filme parece satisfeito em apresentar uma situação, entregar uma morte e seguir rapidamente para a próxima. Isso explica, em parte, por que seus 86 minutos passam tão rápido: O Sorveteiro não dá muito espaço para respirar. Por um lado, isso é positivo, porque evita que a premissa fique cansativa. Por outro, cria a sensação de que estamos assistindo a uma ideia que poderia ter rendido um filme mais completo. O longa é curto não apenas porque sua história é simples, mas também porque várias possibilidades narrativas parecem ter sido deixadas pelo caminho.

Ainda assim, seria injusto dizer que não existe diversão. Existe — e bastante, dependendo da disposição do espectador. Quem entrar esperando um terror psicológico provavelmente vai sair decepcionado. Quem estiver disposto a assistir a um slasher absurdo, com mortes exageradas, humor ácido e uma premissa que não pede para ser levada a sério, pode encontrar exatamente o tipo de entretenimento que procura. O filme parece funcionar melhor quando não tenta justificar demais sua própria existência e simplesmente aceita ser uma grande bobagem sangrenta.

Eli Roth brincando com o próprio cinema

A participação do próprio Eli Roth diante das câmeras é outro detalhe divertido. O diretor não apenas assume a direção, mas também participa do elenco, reforçando a impressão de que O Sorveteiro é, em boa medida, um projeto feito por alguém que queria brincar com as referências do cinema de terror que ajudaram a formar sua carreira. O filme claramente conversa com o slasher, com o exploitation e com o horror exagerado que Roth conhece tão bem.

É justamente por isso que o resultado provoca uma certa frustração. Eli Roth já demonstrou que consegue transformar violência gráfica em entretenimento com muito mais personalidade. Aqui, existe a intenção, existe a estética e existe uma premissa que poderia render cenas memoráveis, mas nem sempre existe a mesma segurança na execução. O filme parece estar constantemente a um passo de encontrar sua melhor versão — e, quando finalmente encontra, já precisa correr para o próximo momento.

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Vale a pena assistir ao filme O Sorveteiro de 2026?

No fim, O Sorveteiro é um filme de contrastes. Ele tem uma ideia divertida, uma fotografia interessante e algumas cenas que funcionam muito bem dentro da proposta trash. Também tem problemas claros de atuação, efeitos digitais que prejudicam determinadas sequências e uma história que não desenvolve completamente alguns dos caminhos que apresenta. É difícil classificá-lo simplesmente como “bom” ou “ruim” porque as duas coisas convivem dentro dos mesmos 86 minutos.

Minha impressão, portanto, é menos severa do que talvez o filme mereça e menos entusiasmada do que ele poderia provocar. O Sorveteiro não é um grande terror, mas também não é uma experiência completamente descartável. Ele funciona melhor quando abraça a própria tosquice e permite que o absurdo fale mais alto. Algumas cenas são genuinamente divertidas justamente porque são exageradas demais para serem levadas a sério.

No final das contas, talvez o maior problema de O Sorveteiro seja ter uma premissa melhor do que o filme que conseguiu construir a partir dela. Há um ótimo conceito escondido ali, esperando um roteiro mais desenvolvido, atuações mais consistentes e efeitos digitais menos perceptíveis. Mesmo assim, entre uma morte grotesca, uma situação completamente absurda e outra cena que faz você questionar por que aquilo foi colocado no filme, existe uma diversão difícil de ignorar. Não é o melhor Eli Roth, mas, para quem gosta de terror trash, pode ser uma sessão suficientemente caótica para render algumas boas risadas — e talvez esse seja o maior elogio que O Sorveteiro consegue receber.

Ficha Técnica

  • Título Original / Nacional: O Sorveteiro (The Ice Cream Man)
  • Ano de Lançamento: 2026
  • País de Origem: Estados Unidos
  • Duração: 86 minutos (1h26)
  • Gênero: Terror / Slasher / Trash / Comédia de Humor Ácido
  • Direção: Eli Roth
  • Roteiro: Eli Roth
  • Distribuição no Brasil: Diamond Films
  • Data de Estreia nos Cinemas: 27 de agosto de 2026
  • Elenco Principal:
    • Eli Roth
    • Ari Millen (Orphan Black)
    • Benjamin Byron Davis (Guardiões da Galáxia Vol. 3)
    • Karen Cliche (Feriado Sangrento)
    • Dylan Hawco (O Conto da Aia)
    • Sarah Abbott (Ginny & Georgia)
    • Shiloh O’Reilly (Feriado Sangrento)
    • Kiori Mirza Waldman (Small Achievable Goals)
    • Charlie Zeltzer (Titans)
    • Charlie Storey (Feriado Sangrento)
Escrito por
Juliana Cunha

Editora na ESPN Brasil e fã de cultura pop, Juliana se classifica como uma nerd saudosa dos grandes feitos da Marvel.

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