O cinema já explorou o apocalipse zumbi de praticamente todas as formas possíveis — com mortos-vivos lentos, rápidos, inteligentes ou cômicos. Justamente por isso, é revigorante quando um diretor tenta trazer uma perspectiva fresca para um gênero tão saturado.
Em Párvulos: Filhos do Apocalipse, o cineasta mexicano Isaac Ezban propõe uma mistura ousada: e se juntássemos o terror pós-apocalíptico com uma história de amadurecimento e uma pitada de conto de fadas sombrio? O resultado é um filme que transborda ambição e tem um visual incrível, mas que acaba escorregando na própria vontade de dizer muita coisa ao mesmo tempo.
Sinopse
A trama se passa em um mundo devastado por um vírus, originado de uma vacina defeituosa contra a COVID-19, que transformou a maior parte da humanidade em zumbis.
Isolados em uma cabana no meio da floresta, acompanhamos três irmãos tentando sobreviver: Salvador, o mais velho que precisou assumir o papel de pai e usa uma prótese improvisada na perna; o do meio, Oliver; e o caçula inocente, Benjamín.
Eles passam os dias caçando animais, criando armaduras com sucata e tentando manter uma rotina. O detalhe macabro é que eles guardam um segredo no porão: seus próprios pais, zumbificados, a quem eles alimentam e tentam “treinar” para que voltem ao normal.
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Crítica do filme Párvulos: Filhos do Apocalipse
A inocência contra o apocalipse
O maior trunfo de Párvulos está na sua premissa emocional e no seu primeiro ato. O filme brilha ao focar no amor fraternal e no contraste de como cada criança lida com o fim do mundo. De um lado, temos Salvador, que se tornou um adulto cínico e endurecido pela necessidade de proteger os irmãos. Do outro, temos Benjamín, que enxerga o horror ao seu redor com uma ingenuidade distorcida, mas otimista.
As cenas em que as crianças tentam trazer um pingo de normalidade para os pais monstros — lendo histórias infantis ou comemorando o Natal com eles amarrados — são ao mesmo tempo perturbadoras, cômicas e de cortar o coração. É interessante notar como as próprias armaduras de sucata que eles constroem funcionam como uma metáfora visual: elas não os protegem de verdade contra mordidas, mas servem como um escudo psicológico alimentado pela ingenuidade infantil.

Atuações que carregam o peso do mundo
Toda essa carga dramática só funciona porque o trio de protagonistas entrega atuações espetaculares. Lidar com atores mirins pode ser um desafio enorme — o diretor chegou a fazer o processo de seleção três vezes ao longo dos anos de pré-produção —, mas a escolha foi certeira.
A química entre Farid Escalante, Leonardo Cervantes e Mateo Ortega é palpável, e eles soam exatamente como irmãos de verdade, que brigam, se apoiam e sofrem juntos. Benjamín, interpretado por Ortega, rouba a cena várias vezes, transmitindo uma dor bastante autêntica para uma criança da sua idade.
Um banquete visual e sangrento
A direção de arte e a fotografia também merecem palmas. Para transmitir a ausência de esperança, o mundo foi filmado quase sem cor, com uma paleta muito dessaturada. No entanto, o diretor faz uso de cores para dar destaque a coisas específicas: o verde vivo da natureza, o vermelho gritante do sangue e das vísceras, e cores completas apenas para momentos de nostalgia, como fotos antigas e filmes que os conectam ao passado.
Além disso, os fãs de um bom gore não vão se decepcionar. O filme não economiza em efeitos práticos excelentes, maquiagem realista, muito sangue e cenas indigestas (incluindo bastante violência contra animais logo no início).
Onde a promessa desanda
Apesar de tantas qualidades, Párvulos é um filme que perde o fôlego da metade para o final. A profundidade psicológica e a comédia de humor negro que marcam a primeira hora simplesmente evaporam, dando lugar a clichês batidos de filmes de zumbi. A introdução de Enoc, um líder de seita extremista e caricato que quer caçar as crianças, quebra o ritmo intimista que a história havia construído com tanto cuidado.
O roteiro de quase duas horas começa a atirar para todos os lados, misturando decisões incoerentes dos personagens com diálogos expositivos que soam forçados na boca das crianças. Parece que o filme esquece que sua força estava no drama familiar e decide virar apenas mais um thriller genérico de sobrevivência.
Conclusão
Párvulos: Filhos do Apocalipse é uma obra de altos e baixos. É notável o carinho e a visão artística de Isaac Ezban na construção desse universo distópico, e não dá para negar que a ideia de explorar como o amor familiar sobrevive à infecção zumbi através dos olhos de crianças é genial.
Visualmente, é um prato cheio, e as atuações são dignas de aplausos. No entanto, a execução derrapa em um roteiro longo demais e em um tom inconsistente que não sabe se quer ser um estudo psicológico sombrio ou um filme de ação gore exagerado.
Vale a pena assistir? Com certeza, especialmente se você for fã de terror e tramas de amadurecimento. Apenas vá preparado para um passeio acidentado que, embora comece excelente, termina tropeçando nas próprias pernas.
Onde assistir online ao filme Párvulos: Filhos do Apocalipse?
Trailer de Párvulos: Filhos do Apocalipse (2026)
Elenco do filme Párvulos: Filhos do Apocalipse
- Carla Adell
- Mateo Ortega Casillas
- Leonardo Cervantes
- Farid Escalante Correa
- Norma Flores
- Horacio Lazo
- Noé Hernández
- Juan Carlos Remolina

















