Mexer em uma obra-prima da literatura mundial é sempre pisar em ovos. Quando François Ozon decidiu adaptar O Estrangeiro, clássico absoluto do filósofo existencialista Albert Camus publicado em 1942, o desafio era imenso. Afinal, cada leitor constrói o seu próprio Meursault na cabeça, e o próprio Ozon admitiu que sentiu medo de trair a visão do público ao encabeçar o projeto.
Mais de cinco décadas após a famosa adaptação de Luchino Visconti (que trazia Marcello Mastroianni no papel principal), Ozon entrega uma versão de 2025 que não só respeita o material original, mas o atualiza com uma urgência impressionante. O resultado? Um filme que já arrebatou o prêmio de Melhor Filme e Melhor Ator no Prêmio Lumière (o Globo de Ouro francês) e que promete ecoar na cabeça do espectador por muito tempo.
Sinopse
A trama nos transporta para a Argélia dos anos 1930, onde acompanhamos a rotina banal e letárgica de Meursault (Benjamin Voisin), um modesto funcionário de escritório francês. A história começa com a morte de sua mãe, evento que ele encara com uma apatia mecânica, sem derramar uma única lágrima.
No dia seguinte ao enterro, ele já retoma sua vida normal, engatando um romance com a colega de trabalho Marie (Rebecca Marder) e se envolvendo nas confusões do vizinho de caráter duvidoso, Raymond (Pierre Lottin). Tudo muda abruptamente em um dia de calor insuportável na praia, quando Meursault, sem motivo aparente ou paixão, dispara cinco tiros fatais contra um homem árabe.
O que se segue é um julgamento inusitado, no qual a justiça e a sociedade parecem menos interessadas em puni-lo pelo assassinato em si, e muito mais obcecadas em condená-lo por sua chocante falta de sentimentos diante da vida e da morte.
Crítica do filme O Estrangeiro (2026)
O peso do preto e branco e o silêncio ensaiado
A primeira coisa que salta aos olhos na obra de Ozon é a escolha estética incrivelmente afiada. Trabalhando ao lado do diretor de fotografia belga Manu Dacosse, o cineasta optou por um preto e branco elegante, mas ao mesmo tempo clínico e austero.
Essa paleta monocromática não serve apenas para facilitar a recriação de época da Argélia colonial; ela traduz perfeitamente a visão alienada e “sem cores” que Meursault tem do mundo. O alto contraste e a luz estourada nas cenas externas nos fazem quase sentir o calor e o incômodo do sol escaldante, que é um “personagem” crucial na obra de Camus.
Além disso, Ozon foi muito inteligente em usar a narração em voiceover de forma raríssima. O recurso só aparece em dois momentos vitais para traduzir sensações, deixando o restante do filme banhado em silêncios e atuações contidas. Essa recusa em explicar psicologicamente o protagonista através de narrações mastigadas preserva a aura enigmática da história e exige que nós, do outro lado da tela, trabalhemos nossas próprias interpretações.

A frieza hipnótica de Meursault
A escalação de Benjamin Voisin (com quem Ozon já havia trabalhado em Verão de 85) é um dos maiores trunfos da produção. Voisin constrói um Meursault que é um verdadeiro abismo, atuando mais pelas pausas e pelos silêncios do que pelas palavras. Sua performance não pede a nossa empatia, e chega a ser desconcertante ver como ele se mantém como uma folha em branco diante dos maiores absurdos da vida.
O uso dos close-ups no rosto de Voisin durante o julgamento lembra até mesmo as escolhas feitas por Carl T. Dreyer no clássico A Paixão de Joana D’Arc (1928), ressaltando a face de um réu que se recusa a jogar o jogo moral imposto pela sociedade e pela religião, já que também rejeita a absolvição de um padre.
O fim da invisibilidade: mulheres e colonialismo
Se Ozon foi reverente ao absurdismo de Camus, ele também soube onde deveria intervir para atualizar a obra. No livro, as mulheres e a população árabe ficavam em segundo plano. Aqui, a Marie de Rebecca Marder ganha uma densidade pulsante e sensual que contrasta violentamente com a indiferença do namorado.
Mas a grande cartada de Ozon foi não fugir da ferida aberta do colonialismo francês na Argélia. Em pleno 2025, seria inaceitável fazer um filme onde a vítima é tratada apenas como “o árabe”, sem rosto ou nome.
Ozon abre o filme com imagens de arquivo da propaganda colonial francesa, escancarando a desigualdade do code de l’indigénat (uma espécie de apartheid da época) e dá voz e presença à personagem Djemila (Hajar Bouzaouit), irmã do homem assassinado. Com isso, o crime de Meursault deixa de ser apenas uma questão existencial e passa a espelhar a violência e o racismo estrutural de uma sociedade dividida.
Um desconforto necessário
Não espere um filme redondinho e fácil de digerir. O Estrangeiro é propositalmente frio, negando humor, catarse ou qualquer tipo de escapismo barato. O diretor nos confronta o tempo todo, obrigando a plateia a encarar um mundo anestesiado.
E para fechar esse pacote provocador, a escolha de usar a música “Killing an Arab” da banda The Cure (canção que foi originalmente inspirada pelo livro) nos créditos finais funciona como um tranco certeiro, nos puxando direto da década de 1930 para os preconceitos do nosso próprio tempo.
Conclusão
A adaptação de François Ozon para O Estrangeiro não é um filme feito para ser simplesmente “gostado”; ele é uma experiência para ser enfrentada. Ao enxugar excessos, destacar atuações brilhantes como a de Voisin e olhar de frente para o abismo histórico do colonialismo franco-argelino, Ozon prova que obras clássicas não precisam ficar presas no museu.
Ele revitalizou Camus sem traí-lo, entregando uma obra impecável, madura e incômoda, que questiona até que ponto também não somos estrangeiros em nossas próprias vidas. É poesia pura em forma de angústia existencial.
Trailer do filme O Estrangeiro (2026)
O Estrangeiro (2026): elenco do filme
- Benjamin Voisin
- Rebecca Marder
- Pierre Lottin
- Denis Lavant
- Swann Arlaud
- Mireille Perrier
- Christophe Malavoy
- Nicolas Vaude
- Jean-Charles Clichet
- Hajar Bouzaouit

















