‘Serra das Almas’: o vazio por trás do caos – quando a promessa do cinema político vira ruído

Foto: Divulgação
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‘Serra das Almas’, novo longa de Lírio Ferreira, chega aos cinemas com o peso de um grande projeto: unir crítica política, suspense dramático e faroeste contemporâneo em um thriller psicológico ambientado no sertão nordestino. Com uma proposta que remete às intrigas políticas de bastidores e ao jornalismo investigativo, o filme parecia destinado a marcar o cinema brasileiro com uma obra ousada e provocadora. Mas o que começa como uma narrativa promissora se dissolve em uma colcha de retalhos estética e narrativa que escorrega em quase todos os seus próprios conceitos.

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Sinopse de Serra das Almas

A história gira em torno de Samanta (Julia Stockler), uma jornalista investigativa experiente, que descobre um esquema de tráfico de pedras preciosas envolvendo um influente senador e empresários locais. Acompanhada de sua estagiária Luiza (Pally Siqueira), ela segue uma pista até a fictícia Serra das Almas, no sertão dos Inhamuns. Lá, elas são sequestradas por três criminosos ligados ao esquema: Charles (David Santos), Gislano (Ravel Andrade) e um homem anônimo apanhado por acaso na fuga (Vertin Moura). Presos em uma casa isolada, bandidos e reféns dividem o mesmo espaço, revelando segredos, ressentimentos e a decadência de um plano que nunca teve direção.

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Crítica de Serra das Almas (2024)

Logo nas primeiras cenas, ‘Serra das Almas’ aposta na saturação sensorial como estratégia para capturar o espectador. A montagem frenética, a trilha sonora estridente e o uso excessivo da câmera tremida criam uma estética de urgência que, em teoria, deveria inserir o público diretamente no caos da narrativa. Porém, o excesso visual torna-se contraproducente: ao invés de gerar tensão, embaralha a compreensão e distancia o público dos personagens e suas motivações. A estética da desordem, mal calibrada, revela-se uma escolha superficial que falha em sustentar o peso temático que o filme pretende carregar.

A narrativa coral, com múltiplos pontos de vista e constantes idas e vindas temporais, também contribui para a fragilidade estrutural do longa. Enquanto a proposta de alternar presente e passado poderia enriquecer os personagens, o roteiro se perde em subtramas mal resolvidas e personagens unidimensionais. As protagonistas, por exemplo, têm pouca agência; Samanta (Julia Stockler), a jornalista combativa, se torna passiva frente ao perigo, e Luiza (Pally Siqueira) se reduz a um arquétipo genérico de “ajudante”. O potencial dramático do confinamento se esvazia em diálogos expositivos e situações inverossímeis, como o descaso com ferimentos graves ou mudanças abruptas de comportamento que não se sustentam logicamente.

Ravel Andrade, como Gislano, é uma das poucas exceções no elenco. Sua atuação carrega complexidade e uma tensão latente que falta aos demais personagens. Sua presença em cena cria momentos de respiro artístico que destoam positivamente da apatia geral. Já o restante do elenco entrega performances apagadas ou caricatas, como no caso de Vertin Moura, cuja atuação soa desprovida de intenção dramática. A montagem, que tenta imprimir ritmo com cortes anacrônicos e passagens abruptas, apenas reforça a sensação de improviso, tornando a experiência confusa e emocionalmente distante.

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Conclusão

‘Serra das Almas’ é um filme que parece saber onde quer chegar, mas esquece de como percorrer esse caminho. Sua ambição temática é evidente: discutir a corrupção, o colapso moral e a função do jornalismo em tempos de desinformação. No entanto, sua execução falha em quase todos os aspectos técnicos e narrativos, tornando a obra mais frustrante do que impactante. A direção de Lírio Ferreira, que já demonstrou talento em filmes anteriores, aqui se dilui em tentativas frustradas de simbolismo e metáfora, que soam forçadas e esteticamente vazias.

Embora o filme traga uma ambientação interessante e uma premissa com alto potencial, ‘Serra das Almas’ desperdiça suas oportunidades em nome de uma grandiosidade que não se concretiza. O resultado é uma obra que se pretende crítica e reflexiva, mas que acaba sendo esquecível, marcada por decisões mal planejadas e por um roteiro que desrespeita a inteligência do espectador. Em tempos de um cinema nacional que vem buscando se reinventar através de gêneros, este longa é um alerta: forma sem substância é apenas ruído. E, neste caso, um ruído alto, desorganizado e, infelizmente, vazio.

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Onde assistir ao filme Serra das Almas, com Julia Stockler?

O filme está disponível para assistir nos cinemas.

Trailer de Serra das Almas (2024)

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Elenco do filme Serra das Almas

  • Ravel Andrade
  • Vertin Moura
  • Jorge Neto
  • Mari Oliveira
  • David Santos
  • Pally Siqueira
  • Julia Stockler

Ficha técnica de Serra das Almas (2024)

  • Título original: Serra das Almas
  • Direção: Lírio Ferreira
  • Roteiro: Maria Clara Escobar, Paulo Fontenelle e Audemir Leuzinger
  • Gênero: ação
  • País: Brasil
  • Duração: 120 minutos
  • Classificação: 16 anos
Escrito por
Juliana Cunha

Editora na ESPN Brasil e fã de cultura pop, Juliana se classifica como uma nerd saudosa dos grandes feitos da Marvel.

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