Parece que nunca conseguimos realmente dizer adeus a Hawkins. Apenas alguns meses após o encerramento da série original, a Netflix resolveu nos levar de volta no tempo com o lançamento de Stranger Things: Histórias de 85. Dessa vez, porém, trocamos o live-action por uma animação de 10 episódios que preenche a lacuna cronológica entre a segunda e a terceira temporada da série original.
Com uma pegada de desenho de sábado de manhã e uma vibe mais focada na inocência inicial do grupo, o spin-off aposta forte na nostalgia para fisgar tanto a velha guarda de fãs quanto uma nova geração. Mas será que a mudança de formato fez bem para a franquia ou estamos apenas ordenhando a vaca do Mundo Invertido?
Sinopse
A trama se passa no inverno de 1985, um cenário inédito para a franquia. Acreditando que o portal para o Mundo Invertido está fechado para sempre, Mike, Eleven, Dustin, Lucas, Will e Max tentam curtir as férias escolares com muita tranquilidade, fliperamas e Dungeons & Dragons. No entanto, pedaços do Mundo Invertido ficaram para trás e começam a evoluir, resultando em novas ameaças, incluindo um terrível “tubarão da neve” e uma criatura botânica apelidada de A Rainha.
Para lidar com isso, os garotos formam o “Hawkins Investigators Club” (o Clube de Investigadores de Hawkins). Eles ganham um reforço de peso com a chegada de Nikki Baxter, a filha punk da nova professora substituta de ciências. Com um moicano rosa e um talento absurdo para a engenharia e invenção de armas malucas, Nikki se une à galera para tentar salvar a cidade mais uma vez.
Crítica da animação Stranger Things: Histórias de 85
Nostalgia ou crise de identidade?
A maior força de Histórias de 85 é nos levar de volta à fase “meninos andando de bicicleta e resolvendo mistérios”, recuperando aquele charme maravilhoso das primeiras temporadas que se perdeu quando a série original ficou gigante e megalomaníaca. Alguns críticos até comparam o projeto ao que The Clone Wars fez pelo universo de Star Wars, expandindo a história principal de forma divertida.
Por outro lado, o desenho sofre de uma crise de identidade. A direção de Eric Robles tenta equilibrar uma narrativa que não seja assustadora demais para crianças, mas que ainda agrade os fãs maratonistas de plantão, e o resultado fica no meio do caminho. O visual colorido e cheio de neon da Flying Bark Productions é muito bonito, mas a escolha de um CGI moderno faz com que os personagens às vezes pareçam bonecos sem muita expressão facial, o que destoa da proposta “retrô”.

Nikki Baxter: a estrela (e o furo de roteiro)
Se tem algo em que todo mundo concorda é que Nikki (dublada no original por Odessa A’zion) rouba a cena. Ela é basicamente a Ahsoka Tano de Stranger Things. A dinâmica que ela traz para o grupo é fantástica: Nikki defende a Eleven com unhas e dentes, age como uma “irmã mais velha” legal no estilo Steve Harrington, e ainda constrói um laço muito emocionante com o Will, ensinando o garoto a confiar em si mesmo e desafiando a superproteção do Mike.
O problema? As engenhocas superpoderosas que ela cria na garagem (como uma arma de luz feita com bateria de carro) são tão absurdas que quebram um pouco a suspensão de descrença. Além disso, como Nikki não existe nas temporadas 3, 4 e 5 do live-action, fica aquela sensação amarga e um buraco no roteiro: como esses garotos viveram aventuras tão insanas com ela e nunca mais tocaram no nome da menina para salvar o mundo contra o Vecna?.
Muita ação, pouco perigo
A animação permite que a série seja mais inventiva e livre nas batalhas, explorando cenários e texturas de forma que o CGI muitas vezes sombrio da série original não conseguia. Só que com essa liberdade veio um problema: a falta de peso e de perigo real.
Como sabemos exatamente quem sobrevive para a terceira temporada, a série falha em criar tensão. Os monstros às vezes parecem mais alívios cômicos atrapalhados do que ameaças letais. Além disso, os personagens apanham, são arremessados e esmagados como se estivessem em um episódio de Looney Tunes, desenvolvendo uma “invencibilidade” que suga a gravidade de cada encontro. E claro, a velha fórmula da Eleven resolvendo tudo no último milissegundo com seus poderes continua firme e forte, tornando as resoluções um pouco repetitivas.
O desafio das novas vozes
Foi uma escolha acertada escalar novos dubladores. Os atores originais já estão na casa dos 20 anos e não conseguiriam entregar a energia de crianças de 13 anos de forma convincente. Alguns talentos novos, como os responsáveis por Dustin e Max (Braxton Quinney e Jolie Hoang-Rappaport), entregam atuações que capturam perfeitamente a essência de seus personagens.
Contudo, a direção parece ter amarrado demais os atores à obrigação de simplesmente “imitar” o elenco original. Faltou dar espaço para que eles trouxessem as próprias nuances aos papéis, fazendo com que as performances originais pareçam, em vários momentos, versões pálidas e artificiais dos nossos heróis favoritos.
Conclusão: Stranger Things: Histórias de 85 é bom?
No fim das contas, Stranger Things: Histórias de 85 é exatamente o que aparenta ser: um lanche rápido e nostálgico, quase como uma versão “diet” da série principal. Se você estava com saudade de Hawkins antes das tragédias pesadas tomarem conta da cidade, a animação é um prato cheio de conforto, referências aos anos 80 e boas interações entre os personagens.
Ela não muda a roda e escorrega tentando não bagunçar o cânone do que já assistimos, mas, graças ao carisma de novatas como Nikki Baxter, consegue justificar suas horas de tela e provar que ainda há histórias divertidas para se contar no Mundo Invertido.
Onde assistir à série Stranger Things: Histórias de 85
Trailer da animação Stranger Things: Histórias de 85
Elenco de Stranger Things: Histórias de 85, da Netflix
- Brooklyn Davey Norstedt
- Jolie Hoang-Rappaport
- Luca Diaz
- Elisha Williams
- Braxton Quinney
- Benjamin Plessala
- Odessa A’zion
- Brett Gipson
- Jeremy Jordan
- Janeane Garofalo

















