Sabe aquele tipo de filme que se recusa a te dar respostas fáceis e prefere te prender pelo desconforto? Nosso Segredo, o primeiro longa-metragem dirigido e roteirizado pela aclamada diretora Grace Passô, é exatamente essa pedrada no charco.
Depois de consolidar uma carreira brilhante e premiada no teatro brasileiro, onde foi pioneira ao se tornar a primeira dramaturga negra a levar o prestigiado Prêmio Shell, ela transpõe para as telas a sua própria peça teatral Amores Surdos.
E o resultado não poderia ser mais acachapante: o filme começou sua caminhada internacional sendo muito aplaudido na mostra Perspectives do Festival de Berlim (Berlinale), rodou o circuito de festivais pelo mundo e voltou para o país consagrado com o troféu de Melhor Filme, Melhor Fotografia para Wilssa Esser e Melhor Direção de Arte para Lucas Osório no Festival de Cinema de Gramado.
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A casa que sua e adoece junto com a família
Gravado em Belo Horizonte, o longa nos insere no cotidiano de uma família negra que tenta encontrar os eixos e reconstruir uma rotina mínima após a perda recente do patriarca. Só que Grace Passô foge de qualquer rastro de melodrama televisivo convencional. Aqui, a dor não se manifesta em choradeiras fáceis ou discursos expositivos; ela se infiltra nas paredes. A casa da família deixa de ser um mero cenário e vira um organismo vivo que somatiza todo o trauma reprimido daquele lar. As paredes começam a suar de maneira incessante, um líquido estranho escorre pelos cantos da residência e um aparelho de som antigo insiste em tocar mesmo desconectado da tomada.
É o realismo fantástico em sua potência máxima, usado para dar contorno físico àquilo que os humanos simplesmente se recusam a verbalizar. O “segredo” do título não funciona como uma grande revelação mirabolante de roteiro ou um plot twist barato, mas sim como uma infiltração existencial: tudo o que não é dito apodrece a estrutura física e emocional que os abriga.
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O luto fragmentado e a ferida aberta do racismo
Dentro desse ambiente sufocante, cada integrante funciona como uma ilha isolada, padecendo de formas completamente diferentes da mesma dor. No centro de tudo está a matriarca Suely (Ju Colombo), uma fortaleza de negação que se apoia em uma rotina doméstica rígida para não desmoronar e arrastar a casa junto consigo. Ao redor dela orbitam seus filhos:
- Gilson (Robert Frank), o motorista de aplicativo que usa o cansaço do trabalho e o deslocamento constante do carro como escudo para não ter que enfrentar a estagnação do lar. A belíssima sequência inicial dele dirigindo e conversando com o lendário cantor Mateus Aleluia — que faz uma belíssima aparição especial — evoca imediatamente o cinema reflexivo e intimista de mestres iranianos como Abbas Kiarostami e Jafar Panahi.
- Guto (Flip), uma pilha de ansiedade que vaga pela cidade à noite porque não aguenta mais respirar a atmosfera pesada da sala de estar.
- Grazi (Jéssica Gaspar), que vive um luto dissociativo e parece contemplar o tempo todo um abismo interno.
- E o pequeno Tutu (Efraim Santos), o caçula e a verdadeira consciência moral da narrativa. Interpretado com uma sensibilidade absurda, o garoto é o único que conversa com o invisível e aponta as rachaduras da família que os adultos fingem não notar. O olhar de Tutu evoca a brilhante direção infantil do drama mexicano Totem (2023), traduzindo as tensões de uma família prestes a se romper.
Para além da perda do pai, há uma segunda camada de luto que assombra a rotina daquela família de classe trabalhadora: a opressão silenciosa do racismo. Mas esqueça panfletarismo ou discursos didáticos. Grace Passô deixa a questão racial operar de forma ambiente, como um fantasma invisível que dita como aqueles corpos negros ocupam os espaços.
Essa tensão fica nítida nas barreiras sutis do cotidiano, como na recusa em deixar a vizinha branca Lêda (Gláucia Vandeveld) entrar na casa. É o retrato desconfortável de um “apartheid à brasileira” que chocou e confrontou as plateias europeias, acostumadas com o mito exótico de um Brasil cordial e harmonioso.

A dissonância de Amaro Freitas e o som do silêncio
Tecnicamente, Nosso Segredo é um espetáculo à parte. A trilha sonora original assinada pelo pianista de jazz pernambucano Amaro Freitas (vencedor do internacional Prêmio Paul Acket) destrói qualquer possibilidade de sentimentalismo barato. O piano surge de forma percussiva e dissonante, unindo-se aos sons de goteiras, móveis se arrastando e respirações pesadas para manter o público em constante inquietude. Esse design de som brilhante, mixado por Tiago Bello com captação de Gustavo Fioravante, faz do silêncio o maior diálogo do filme. É um retrato sonoro sobre a “surdez” seletiva de quem escolhe não ouvir os pedidos mudos de socorro de quem divide o mesmo teto.
Um desfecho corajoso e essencial
Embora o filme perca um pouco de ritmo no final ao tentar dar contornos físicos e concretos demais a um sofrimento que funcionava de modo brilhante na abstração, a narrativa logo se recupera em um desfecho poético de extrema delicadeza. Alguns críticos internacionais chegaram a reclamar de uma suposta limitação no desenvolvimento dos personagens. Contudo, essa opacidade é uma escolha genial da direção: os personagens não se explicam porque aprenderam a sobreviver historicamente no silêncio.
Nosso Segredo é certamente uma das maiores surpresas do cinema brasileiro recente. É uma obra poética, incômoda e absolutamente necessária que nos convida a despir-nos das convenções para mergulhar de cabeça em um cinema de sensações puras.
Ficha técnica de Nosso Segredo
- Título Original: Nosso Segredo
- Ano de Lançamento: 2026
- Gênero: Drama / Fantasia / Realismo Fantástico
- Países de Produção: Brasil / Portugal
- Duração: Cerca de 103 minutos (ou 104 minutos)
- Direção: Grace Passô
- Roteiro: Grace Passô (adaptado da premiada peça teatral Amores Surdos escrita por ela)
- Trilha Sonora Original: Amaro Freitas
- Direção de Fotografia: Wilssa Esser, DAFB
- Direção de Arte: Lucas Osório
- Montagem (Edição): Gabriel Martins e Eva Randolph
- Captação de Som: Gustavo Fioravante
- Design de Som e Mixagem: Tiago Bello
- Figurino: Marina Sandim
- Produção: Ricardo Alves Jr. (Entre Filmes)
- Coprodutores: Julia Alves (Quarta-Feira Filmes), Rachel Daisy Ellis (Desvia Filmes), Catarina de Sousa (Foi Bonita a Festa), Globo Filmes e Grãos da Imagem
- Produção Executiva: Julia Alves
- Gerência de Produção: Luna Gomides
- Distribuição: Vitrine Filmes (através do projeto de democratização Sessão Vitrine Petrobras)
Elenco principal
- Robert Frank (Gilson)
- Efraim Santos (Tutu)
- Jéssica Gaspar (Grazi)
- Flip (Guto)
- Ju Colombo (Suely)
- Marisa Revert (Anamélia)
- Gláucia Vandeveld (Lêda)
- Juan Queiroz (Sidney)
- Mateus Aleluia (Marcelo)
- Nanego Lira (Pai / Patriarca)
- Tássia Reis (Mulher no bar)















