Rosario: quando o terror assusta pelo estereótipo batido

Foto: Divulgação
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Estreando no cinema de longas-metragens, o diretor Felipe Vargas propõe em ‘Rosário’ uma mescla entre terror sobrenatural e crítica social, centrada em uma protagonista latina que retorna às raízes para enfrentar os fantasmas, literais e simbólicos, de seu passado.

A promessa de um filme de horror mais denso, com ambientação claustrofóbica e personagens culturalmente ricos, parece sedutora num primeiro momento. Emeraude Toubia, no papel-título, surge como uma presença imponente, encarnando uma corretora de Wall Street que vê sua realidade desmoronar após a morte da avó. No entanto, conforme a narrativa avança, o filme revela problemas que vão muito além da estética ou do ritmo narrativo.

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Sinopse

A trama acompanha Rosario Fuentes (Emeraude Toubia), uma executiva bem-sucedida de ascendência mexicana, que volta ao apartamento da avó recém-falecida em meio a uma nevasca. O objetivo inicial, aguardar a chegada de uma ambulância, rapidamente se transforma em uma jornada de revelações sobrenaturais. Sozinha no prédio antigo, Rosario se depara com manifestações estranhas que se intensificam conforme ela vasculha os objetos e memórias da falecida matriarca.

À medida que a noite avança, o espaço da casa se revela cada vez mais misterioso. Uma câmara oculta repleta de símbolos religiosos, rituais e artefatos ocultos expõe uma história familiar marcada por pactos sombrios e repressões culturais. Rosario, que abandonou suas origens para se adaptar ao mundo corporativo norte-americano, precisa confrontar as consequências dessa ruptura e decidir entre o apagamento identitário e a reconciliação com seu passado.

Crítica

‘Rosario’ se posiciona como um filme que incorpora elementos da cultura latina em sua construção simbólica, mas a forma como isso é feito carece de profundidade e respeito. O uso do Palo Mayombe como motor do terror se revela não apenas raso, mas estigmatizante. Em vez de tratar a religião com complexidade ou reverência, a produção a reduz a um arsenal de fetiches visuais: caveiras, velas e sangue que reforçam o imaginário colonialista sobre práticas afrodescendentes como primitivas ou malignas.

Essa abordagem não apenas reforça estereótipos negativos, como insinua que a ascensão social da protagonista só foi possível através de ‘pactos com o mal’. A mensagem implícita é clara: o sucesso de uma mulher mexicana no mundo branco corporativo só pode ser fruto de magia negra, nunca de esforço ou mérito. Isso é especialmente problemático num contexto global marcado pela ascensão de discursos xenofóbicos, onde o cinema deveria ser espaço de resistência e não de reafirmação de preconceitos.

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A família Fuentes, de origem mexicana / Foto: Divulgação

Recursos Dramáticos Fracos

A estrutura narrativa do longa apresenta outro grande problema: sua dependência de monólogos expositivos e sustos previsíveis. Sem personagens coadjuvantes robustos para contracenar, Rosario passa boa parte do filme verbalizando seus pensamentos, uma solução pobre que subestima o público e compromete o ritmo.

O desequilíbrio entre o desenvolvimento da protagonista e o apagamento dos personagens secundários também empobrece a trama. A figura do pai, por exemplo, é reduzida a uma caricatura tradicionalista, enquanto o vizinho interpretado por David Dastmalchian é desperdiçado em piadas deslocadas sobre uma AirFryer. Assim, o que poderia ser uma história familiar rica em camadas se converte em uma narrativa centrada exclusivamente na protagonista, e nem sempre de forma eficaz.

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A Estética do Excesso: Quando o Horror Vira Caricatura

Do ponto de vista visual, ‘Rosario’ aposta em uma estética saturada e exagerada, na tentativa de amplificar a sensação de terror. No entanto, a sobrecarga sensorial (larvas, paredes descascadas, sombras grotescas, e efeitos práticos usados sem parcimônia) acaba produzindo o efeito contrário: aproxima o filme da autoparódia. O prédio onde se passa a maior parte da ação, por exemplo, parece mais um cenário de esquete do que uma locação realista, com cômodos sujos e escuros que desafiam a lógica até do cinema de horror.

A montagem também contribui para esse caos narrativo. Planos são interrompidos abruptamente, e a direção de Vargas recorre a ângulos inclinados e sustos sonoros de forma tão mecânica que rapidamente perdem o impacto. Há um esforço em construir tensão, mas o resultado é um desfile de clichês visuais que não consegue sustentar nem o suspense, nem a emoção. A cena em que Rosario, em poucos minutos, enfrenta nevasca, assédio, assalto e um cachorro assassino, é sintomática desse excesso: tudo acontece, mas nada importa.

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Conclusão

‘Rosario’ é um exemplo claro de como boas intenções podem ser ofuscadas por uma execução equivocada. Com uma protagonista carismática e uma proposta de terror culturalmente situado, o filme tinha tudo para se destacar num cenário saturado de produções genéricas. No entanto, ao optar por uma abordagem sensacionalista das tradições religiosas afro-latinas e negligenciar a construção dramática dos personagens, a obra entrega mais ruído do que conteúdo.

Mais do que uma simples falha estética, o longa representa uma oportunidade perdida de fortalecer a presença latina no cinema de gênero com autenticidade e respeito. Ao invés disso, flerta perigosamente com exotismos e estigmas, perpetuando visões que já deveriam ter sido superadas. No fim, a protagonista pode até retornar às suas raízes, mas o filme, infelizmente, permanece preso a fórmulas que não honram a riqueza das histórias que pretende contar.

Onde assistir ao filme Rosario?

O filme está disponível para assistir nos cinemas.

Assista ao trailer de Rosario (2025)

YouTube player


Quem está no elenco de Rosario (2025)?

  • Emeraude Toubia
  • David Dastmalchian
  • José Zúñiga
  • Paul Ben-Victor
  • Emilia Faucher
  • Nick Ballard
  • Diana Lein
  • Constanza Gutierrez
  • Luna Baxter
  • Indhira Serrano
  • Guillermo García Alvarado
Escrito por
Taynna Gripp

Formada em Letras e pós-graduada em Roteiro, tem na paixão pela escrita sua essência e trabalha isso falando sobre Literatura, Cinema e Esportes. Atual CEO do Flixlândia e redatora do site Ultraverso.

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